Os resultados do primeiro passo indicam tentativas dos alunos de não mesclarem suas idéias de calor e temperatura. Isso era previsto, pois, segundo Burghi e Soussan (apud Teixeira, 1992, p. 56), após a idade de treze ou quatorze anos, a noção única de calor e temperatura começa a separar-se.
Com a totalidade das respostas, puderam ser diferenciadas quatro noções intuitivas. É preciso adiantar que elas não foram numeradas por alguma interpretação de ordem conceitual crescente ou decrescente ao conhecimento científico, mas aleatoriamente. Um interesse foi o de destacar qual noção intuitiva de calor e temperatura apresentava vários aspectos comuns com a Teoria do Calórico, revelando o programa alternativo de núcleo metafórico lakatosiano ‘temperatura mede a quantidade de calor’ (Laburú e Arruda, 1998, p. 263), cuja noção de calor é a de algo contido nos corpos. Especifica-se esse programa alternativo na terceira noção intuitiva apresentada mais à frente. Em relação às outras noções intuitivas encontradas, a primeira noção intuitiva admite o calor como a parte quente da temperatura, em que esta engloba o calor (parte quente) e as demais sensações. Nas segunda e quarta noções intuitivas, encontram- se o mesmo conceito de temperatura apresentado na terceira noção. Essa semelhança de núcleo lakatosiano da terceira noção permite entender as segunda e quarta noções intuitivas também como programas alternativos, mas como se mencionou anteriormente, isso não é feito nessas noções para mostrar que não é uma condição obrigatória, ao educador, o uso do termo programa. As diferenças entre as segunda, terceira e quarta noções estão no conceito de calor. O calor, na segunda noção, é entendido como sensação e, na quarta noção, o calor é energia. Em algumas respostas, foi possível verificar uma tendência desses dois últimos conceitos de calor para o
entendimento de calor como algo que se manifesta em um processo e altera a temperatura. Entretanto, essa tendência para a terceira noção intuitiva ocorre juntamente com as aparentes divergências de calor como sensação ou energia. Na seqüência, são apresentados mais detalhes, juntamente com as razões para que os conceitos apresentados por um aluno se classifiquem em uma das quatro noções intuitivas. Também são apresentados alguns exemplos de respostas encontradas.
As noções intuitivas são:
Noção intuitiva I – Para que o aluno apresente essa noção intuitiva, ele deve caracterizar em suas respostas o entendimento de calor como integrante da temperatura. Calor e temperatura não são entendidos como a mesma coisa. O calor é apenas uma parte da temperatura, entendida pelos alunos como a parte quente da temperatura. A temperatura contém o calor (parte quente), o frio, e mais outras sensações.
Exemplos selecionados: “Calor se refere à parte quente da temperatura, é uma propriedade desta. Essa parte quente é possível de ser detectada em aquecimento, em uma sensação de elevação da temperatura. Temperatura pode ser quente, fria, morna, etc. Temperatura abrange o calor (que é a parte quente) e mais outras partes. Ela (temperatura) define se está calor ou frio”.
Noção intuitiva II – Para que o aluno apresente essa noção intuitiva, ele deve conceber o calor como um aquecimento, como uma elevação de temperatura. Também deve entender a temperatura como uma medição do calor ou que ela indica uma quantidade de calor.
Exemplos selecionados: “Calor é um aquecimento, é quando a temperatura se eleva, é a sensação de variação (elevação) da temperatura. Temperatura é a medida do calor ou indica a quantidade de calor”.
Esta segunda noção intuitiva foi estabelecida pela dificuldade de se classificar alguns entendimentos dos alunos na terceira noção intuitiva. A dificuldade existiu pelo fato de não se observar a idéia de calor como substância (semelhante a um fluido) em suas explicações, mesmo o aluno entendendo que a temperatura indica a quantidade de calor. Pelo fato de os alunos afirmarem que o calor se refere a um aquecimento, a uma elevação da temperatura, pela junção das respostas apresentadas na pré-avaliação, ficou difícil afirmar se certos alunos apresentam realmente um entendimento de calor como um processo ou como algo que se manifesta em um processo de aquecimento, visto que, para eles, a temperatura mede a quantidade de calor. Sendo
assim, embora afirmem que calor é um aquecimento ou elevação de temperatura, despercebidamente afirmam uma incoerência da temperatura medir a própria elevação de temperatura (ou aquecimento, que definem de calor).
Noção intuitiva III – Para que ocorra a classificação nesta categoria, a noção intuitiva do aluno deve apresentar detalhes semelhantes com as noções de calor e temperatura dadas pela Teoria do Calórico. A saber: a idéia do calor como algo contido nos corpos; o calor pode passar de um corpo para outro; a temperatura mede a quantidade de calor. De acordo com Laburú e Arruda (1998), pode-se classificar essa noção de programa alternativo.
Exemplos selecionados: “Calor é algo que se armazena, tem nos corpos, e eleva sua temperatura. Temperatura mede a quantidade de calor”.
Noção intuitiva IV – Por essa noção intuitiva, o aluno afirma que calor é energia e que a temperatura mede a quantidade de calor.
Exemplos selecionados: “Calor é energia, ou uma forma de energia. Temperatura mede a quantidade de calor”.
Uma certa parcela dos alunos investigados caracterizou a idéia de calor como energia. No entanto, essa idéia de calor como energia mostrou-se ainda imatura, necessitando de instrução, pois os alunos até então mantinham uma noção substancializada de calor. Pelas respostas analisadas, não havia nenhuma idéia de calor como a energia em trânsito na situação específica de corpos a diferentes temperaturas. Além do mais, os alunos forneciam explicações insatisfatórias desta noção de energia para os fenômenos e, embora haja um pequeno avanço pelo uso da palavra energia, é notável a semelhança com a terceira categoria ao afirmarem que a temperatura é a medição da quantidade de calor.
Existem algumas possibilidades para a razão da associação da palavra energia com a idéia de calor: o aluno pode ter prestado atenção em comentários de alguém de maior formação escolar cuja palavra merecia respeito (ou consideração); o aluno pode ter realizado leituras prévias sobre o assunto; o aluno sofreu influência do ensino formal anterior na matéria de ciências do ensino fundamental. Descarta-se a situação do aluno repetente porque, como já foi mencionado anteriormente, este foi excluído da amostra.