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I. A proisificação da cultura

Embora a noção de gênero adotada pela comunicação tenha sido fortemente influenciada pela teoria das funções da linguagem de Jakob- son e pelos critérios linguísticos da classificação de Émile Benveniste (1902 – 1976), foi a noção de gênero de discurso do formalista russo Mikhail Bakhtin6 que entrou e se estabilizou no campo de comunica- ção. São dois os principais motivos: 1) Bakhtin estudava e defendia a proisificação da cultura; e 2) seu modelo pragmático focava na ação de comunicação propriamente dita.

Num momento em que os formalistas reintroduziam uma visão pro- cessual e dinâmica dos gêneros, em que surgiam os gêneros prosaicos, Bakhtin foi responsável por introduzir a prosa nos estudos literários. Bakhtin trouxe a discussão de gêneros, restrita à literatura, para outras áreas. O pesquisador russo aproveitou o que representava o romance no seu nascimento e o trouxe como objeto principal de seus estudos.

[...] A valorização do romance nos estudos de Bakhtin não se deve ao fato de ele ser o gênero maior da cultura letrada. Na verdade, o romance só lhe interessou porque nele Bakhtin encontrou a repre- sentação da voz na figura dos homens que falam, discutem idéias, procuram posicionar-se no mundo. Isso para não dizer que, no ro- mance, a própria cultura letrada se deixa conduzir pelas diversas

6. Os textos de Bakhtin, produzidos no Círculo de Bakhtin (denominação dada a um grupo de intelectuais e poetas russos que se reunia de 1919 a 1974, composto entre outros, por Bakhtin, Voloshinov, Medvedev), são do início da década de 20, mas só começam a ser publicado na década de 60. A publicação feita sem critério cronológico tem manuscritos inacabados dentre os quais alguns atribuídos a Bakhtin parecem ter sido escritos por Voloshinov e Medvedev. Rodrigues, R. H. Os gêne- ros do discurso na perspectiva dialógica da linguagem: a abordagem de Bakhtin, in: MEURER, J.L., BONINI, Adair, MOTTA-ROTH, Désirée. Gêneros : teorias, mé- todos, debates. São Paulo, Parábola Editorial, 2005, p.152.

formas discursivas da oralidade contra as quais ela se insurgia. [...] (MACHADO, 2005, p. 153)

Seu conceito de dialogismo, ao colocar o berço dos gêneros na es- fera prosaica da linguagem, seduziu todos aqueles que queriam traba- lhar com o discurso cotidiano, precisavam compreender a esfera do re- conhecimento, ou ainda, analisar o hibridismo e a pluralidade. Os mais diversos gêneros da comunicação cotidiana, além da comunicação cul- tural organizada, ganham o estatuto de gêneros da linguagem, tipos que mecerem ser analisados. Ao invés de analisar o impacto da cultura le- trada na tradição oral, Bakhtin reivindica o exame das influências de uma sobre a outra. Este é o processo dialógico, princípio constitutivo da linguagem, em cuja cadeia todo discurso está inserido.

[...] O estatuto dos gêneros literários se consolidou e nada teria aba- lado seus domínios se o imperativo típico da época de Aristóteles tivesse se perpetuado, quer dizer, se não houvesse surgido a prosa comunicativa. De modo geral, a emergência da prosa passou a rei- vindicar outros parâmetros de análise das formas interativas que se realizam pelo discurso. Os estudos que Mikhail Bakhtin desenvol- veu sobre os gêneros discursivos considerando não a classificação das espécies, mas o dialogismo do processo comunicativo, estão in- seridos no campo dessa emergência. [...] (MACHADO, 2005, p. 152)

No princípio dialógico, um texto é constituído de enunciados de ou- tros textos, de qualquer esfera de uso da linguagem. Por isso a diferen- ciação entre gêneros primários (da comunicação cotidiana) e gêneros secundários (da comunicação cultural organizada). Bakhtin divide os gêneros discursivos exatamente por esferas de uso da linguagem, pela simplicidade ou complexidade das condições do convívio cultural. Os primários seriam aqueles da vida cotidiana e os secundários, os gêne- ros discursivos dos campos sociais mais desenvolvidos e organizados, como artístico, científico e sóciopolítico (BAKHTIN, 2003, p. 263). Os secundários, portanto, são formações mais complexas porque pro- dutos da comunicação organizada em sistemas específicos. Exemplos

de secundários seriam romances, artigos científicos, petições, ensaios filosóficos ou gêneros jornalísticos.

A divisão em primários e secundários abriu o horizonte para as prá- ticas discursivas prosaicas e situou os enunciados sócia, histórica e ins- titucionalmente, mas o fez de forma tão extensa que não produziu uma diferenciação clara dos gêneros, principalmente, de uma mesma esfera organizada (como o jornalístico). É uma divisão antropológica e não dá conta das diferenças entre os gêneros de uma determinada instituição social. Dentro das condições de interação institucionalizadas existem muitas diferenças de acordo com a instituição; de acordo, inclusive, com suas condições de produção. O ponto-chave está no valor que as dimensões discursivas (extra e intralinguísticas) têm na definição de um gênero, nas possibilidades de relacionar estas dimensões, na hie- rarquização destas e ainda das possíveis subdivisões no interior destas dimensões.

II. Modelo pragmático

A situação concreta, os participantes e seus lugares sociais são com- preendidos na relação com o campo onde se realiza a comunicação e as implicações do tema na própria configuração e dinâmica do campo. Está em jogo a materialidade histórica do enunciado. As circunstân- cias, que para a Pragmática da Comunicação se formam pelo momento de interlocução, constituem-se, no pensamento do marxista Bakhtin, de ideologia, poder e história.

O fato de Bakhtin focar na situação de interação (condições extra- linguísticas) para explicar os gêneros discursivos, seduziu o campo da comunicação, que precisava explicar o problema do “aparelho da enun- ciação” no momento em que surgia a cultura de massa com os meios de comunicação de massa. Noções como endereçamento se tornaram fundamentais para estudos de meios de massa como a televisão e o rá- dio, o que se refletiu nas análises do discurso jornalístico, parte destas mídias.

III. 'O' conceito de gênero

Por esses dois grande motivos, portanto, o conceito de gênero aceito pela grande maioria dos pesquisadores brasileiros de comunicação (se- miótica, estudos culturais, análise dos discurso, jornalismo) é aquele desenvolvido por Bakhtin: tipos relativamente estáveis de enunciados.

[...] O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais ou escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana. Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua mas, acima de tudo, por sua construção composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estio, a cons- trução composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Evidentemente, cada enunci- ado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso. (BAKHTIN, 1981, p. 262-263)

Mikhail Bakhtin é sem dúvida, o autor mais citado pelos pesqui- sadores brasileiros que estudam gêneros, sejam estes de comunicação, linguística ou semiótica. Dentre os linguistas que estudam os gêneros, a noção de “tipos relativamente estáveis de enunciados” dialoga com as correntes sócio-semióticas, sócio-retóricas e sócio-discursivas, que denominam a discussão atualmente. No último Simpósio Internacional de Estudo dos Gêneros Textuais (Siget), Bakhtin foi citado, pelo me- nos uma vez, em 91 dos 1847trabalhos apresentados por pesquisadores

brasileiros, o que equivale a 49%8.

7. Esse número vem dos trabalhos que aparecem nos Anais do IV Sim- pósio Internacional de Estudo dos Gêneros Textuais Siget. Disponível em http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/cd/index1.htm. Acesso em fe- vereiro de 2008.

A definição de tipos relativamente estáveis de enunciados põe, pela primeira vez, o foco na situação de social de interação, ou seja, em condições extralinguísticas como finalidade discursiva, 'autor' e desti- natário. Estas condições, constitutivas do enunciado, seriam reveladas através dos vestígios deixados na própria unidade real da comunica- ção discursiva(enunciado). Este método convence e se estabelece nos estudos discursivos da área de comunicação. Hoje, no entanto, vê-se um movimento de análise do gênero discursivo através das condições sociais-extralinguísticas independentes dos vestígios, destacando-se os aspectos da dimensão social da esfera em que o gênero dicursivo se realiza predominantemente.

Capítulo 3

O domínio do funcionalismo:

das funções no jornalismo

impresso às propriedades da

mídia no jornalismo digital

Com o nascimento da linguística de Saussure (1916) e particular- mente com as funções da linguagem de Jakobson (1963), firma-se o funcionalismo, o paradigma reinante na comunicação (LOPES, 2005, p. 51-53) e, consequentemente, na noção de gênero jornalístico. Os critérios teóricos começaram a seguir as linhas estruturalista e funci- onalista, mas foram se firmando nos fundamentos do funcionalismo, decisivamente influenciados pelo formalismo russo. Hoje, nos campos da comunicação e da linguística, há um consenso quanto à importân- cia do funcionamento da linguagem, da situação de troca enunciativa e suas condições de realização para o conhecimento da noção de gênero, posta em cheque, mais uma vez, com o surgimento das mídias digi- tais e a consequente proliferação de novos formatos nas mais diversas formações discursivas.

da perspectiva dos cultural studies, das análises discursivas nos estudos de gêneros jornalísticos, predomina, na área de comunicação e ciências da informação, a teoria funcionalista (desde a década de 60). Nas pri- meiras pesquisas (final dos anos 50), os critérios fundamentais de aná- lise do gênero jornalístico são função e aspectos formais. Atualmente, com as novas mídias digitais, os campos das ciências da informação e da comunicação investigam os tipos da produção jornalística atra- vés da 'funcionalidade' das chamadas propriedades da mídia. Embora Bakhtin seja a principal referência para a linguística, analistas do dis- curso e a área dos estudos culturais (que analisa o telejornalismo) no Brasil, o mais importante para os pesquisadores do jornalismo não tem sido a perspectiva pragmática (dos constrangimentos, do dialogismo, do reconhecimento), mas sim a finalidade das composições discursi- vas da produção jornalística (se informativa, se opinativa, se interpre- tativa). No campo do jornalismo, os estudos existentes sobre gêneros são, preponderantemente, classificatórios. Os mais influentes no Bra- sil são os espanhóis. Enquanto os norte-americanos sempre estiveram interessados no trabalho de apuração, verificação e reportagem através de pesquisas empíricas, na Europa, de uma forma geral, a análise das noções de gêneros textuais e, depois, gêneros discursivos foi produzida pela linguística. O jornalismo, por necessidades de mercado e de en- sino, trabalhou na classificação de gêneros. O Brasil, seguindo o rastro do jornalismo norte-americano, preocupado em delimitar o espaço da informação e da opinião, foi influenciado pelas análises espanholas, as quais dividiram os gêneros pelos principais critérios de função e forma.

Neste item, faremos um breve recorte histórico dos estudos no campo jornalístico (impresso e digital), destacando os principais autores e, em seguida, pelo fio do critério de função na divisão de gêneros, demons- traremos como a teoria funcionalista predomina nas pesquisas feitas por pesquisadores do jornalismo, tanto aquelas sobre impresso, como as pesquisas sobre veículos digitais.

3.1

Recorte histórico no campo jornalístico

No campo de pesquisa do jornalismo, os estudos sobre gêneros jor- nalísticos começam a existir, de fato, na primeira metade do século XX, influenciados pelas mudanças na industrialização da atividade (final do século XVIII), quando surgem as noções de pirâmide invertida e lead; quando a separação entre news and comments, feita pelo Daily Courant no século XVIII, amadurece, imprimindo, cada vez mais, um lugar de autoridade à atividade jornalística, já que o jornalista, agora, decidia quais os elementos mais importantes do acontecimento (competências de seleção e hierarquização) e que mereceriam figurar no lead.

A produção teórica em gêneros se desenvolve mais detalhadamente a partir de 1950. A teoria classificatória dos gêneros jornalísticos surge como método para a análise sociológica quantitativa das mensagens da imprensa, no fio da teoria funcionalista da communication research, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Com isso, passa a ser utilizada como método seguro para a organização pedagógica e de mer- cado do jornalismo. Os manuais institucionalizam o hábito e facilitam o trabalho coletivo.

Os gêneros facilitam o trabalho em comum. Quanto mais se prescre- vam as convenções próprias do gênero – nascidas de uma peculiar relação entre o conteúdo e a forma – mais homogêneo resultará o trabalho da redação e mais confiança adquirirá o receptor na men- sagem que chega.

Daí também a utilidade dos gêneros jornalísticos no ensino. Os gê- neros representam a sedimentação da experiência do trabalho coletivo em diversos meios de informação, o domínio técnico que distingue o profissional do jornalismo de quem o é, a possibilidade de fazer chegar ao receptor a mensagem, com relativa rapidez e se- gurança. Os gêneros são formas assimiladas pelo hábito, formas que podem ensinar-se e aprender-se. (GOMIS, 1991, p. 44) (tradu- ção nossa) (grifo nosso)1

No começo de 1959, surge uma disciplina chamada “Os gêneros jornalísticos” na Universidade de Navarra, um dos primeiros centros de investigação ocidentais a pesquisar os gêneros da prática jornalística. O encarregado da matéria foi, nos primeiros anos, o professor Martínez Albertos (PARRAT, 2001), que se torna uma das maiores referências da área. Em 1968, quando as discussões tomavam corpo, surgem pro- postas de gêneros informativos, explicativos, opinativos e diversionais.

Nesse mesmo período, o pesquisador catalão Hector Borrat sugere a divisão em textos narrativos, descritivos e argumentativos, trabalhada também por Martínez Albertos (desde 1974). No final da década de 70, Gonçalo Martin Vivaldi, também pioneiro nesta discussão, adianta as dificuldades de se delinear campos e precisar gêneros. Os estudos de gêneros jornalísticos desenvolvem tradição na Espanha com Martí- nez Albertos, Lorenzo Gomis, Bernal y Chillión (década de 80), Núñez Ladevèze, Sánchez e López Pan (década de 90).

Como veremos ainda neste capítulo, as classificações espanholas são organizadas segundo: 1) os tipos que ocupam a mídia impressa, ou seja, pelo suporte; 2) a estrutura textual, se descritiva, narrativa ou argumentativa; e 3) a finalidade. Exceto Gomis, os pesquisadores se- guem a separação entre informação e opinião, situando os 'interpreta- tivos' separadamente. Na mais atual classificação, de Sánchez e López Pan, surge um novo critério, da autoria, que merecerá desenvolvimento. As próprias sistematizações dos espanhóis revelam que os critérios são muito diferentes dos trabalhos empírico-descritivos norte-americanos.

Na América do Norte, berço das transformações na atividade jor-

venciones propias del género – nacidas de uma peculiar relación entre el contenido y la forma – más homogéneo resultará el trabajo de redacción y más confianza adquirirá el receptor en el mensaje que le llega.

De ahí también la utilidad de los géneros periodísticos en la enseñanza. Los gé- nerosrepresentan la sedimentación de la experiencia del trabajo colectivo en di- versos medios de informacion, el dominio técnico que distingue el profesional del periodismo de quien no lo es, la posibilidad de hacer llegar al receptor el mensaje, con relativa rapidez y seguridad. Los géneros son formas asimiladas por el hábito, formas que pueden enseñarse y aprenderse.” (GOMIS, 1991, p.44).

QUADRO 3 - PRINCIPAIS CLASSIFICAÇÕES ESPANHOLAS Albertos, Martínez (1962, 1974, 1983) Bernal y Chillón (1985) Gomis, Lorenzo (1989) Núñez La- devèze (1991, 1995) Sánchez e Ló- pez Pan (1998) Informação (tem

lead; não se repete, estilo sóbrio, escrito por repórter) Informativo convencional (descritivos e narrativos) Interpre- tação informa- tiva De informa- ção Gêneros de repor- tagem Reportagem (ex- plicação de fatos atuais; estilo lite- rário; escrito por repórter) Interpretativo (argumentati- vos) Interpreta- ção Opinativa Interpretativo Gêneros de autor Artigo ou comentário (exposição de idéias sobre fatos recentes; pode ter periodici- dade; estilo literário livre) Informativo de criação (descritivos, narrativos e explicativos) De opinião Gêneros de jor- nalismo especiali- zado

nalística industrializada, o objetivo das pesquisas era diferenciar os ti- pos jornalísticos pelos processos produtivos e competências próprias da atividade jornalística.

Revisando a bibliografia do jornalismo, torna-se evidente que esse tipo de resposta é buscada quase exclusivamente pelos estudiosos europeus e mais recentemente pelos latino-americanos. A literatura norte-americana sobre jornalismo demonstra reduzida atenção a es- sas questões epistemológicas ou taxionômicas, revelando interesse mais pragmático pela descrição e interpretação dos processos jorna- lísticos ou buscando apreender suas tendências concretas. (MAR- QUES DE MELO, 1994, p. 38-39)

Na segunda metade do século XX, dentre as poucas tipologias cri- adas por pesquisadores do jornalismo destaca-se o trabalho de Fraser Bond (1959), professor da New York University. O objetivo do livro de

Bond não era classificar, mas mapear o tipo de noticiário e a composi- ção das páginas editoriais dos jornais impressos norte-americanos. Isso fica claro na citação que se pode fazer a partir dos capítulos XII e XIII de “Introdução do Jornalismo”.

Se analisarmos o jornal de hoje veremos que pelo menos cinco ti- pos de noticiários predominam. São êles: a entrevista, a cobertura de um discurso, a história de interêsse humano, o necrológio e os acontecimentos esportivos. [...] (BOND, 1959, p. 177)

A palavra reportagem aparece no item “História de interesse hu- mano” e no capítulo XI, quando trata de lead e pirâmide invertida. No capítulo XIII, “O editorial e a página editorial”, em meio à discussão sobre ética e editorialismo, Bond vai nomeando os tipos que aparecem nestas páginas: carta do leitor, editorial, caricatura editorial, “colunas” (aspas do autor). Ele conta, inclusive, de quem foi o mérito de criar a página especial de opinião.

Antigamente, os jornais não tinham página editorial separada. Opi- nião tinham, mas tomava a forma de observações, acrescentadas no final das notícias, ou, mais usualmente, de cartas ao editor assina- das por algum pseudônimo. Cabe a Noah Webster o mérito de colo- car, pela primeira vez, seus editoriais em página especial. (BOND, 1959, p. 195)

Em seguida, vieram os trabalhos sobre o fazer jornalístico, a com- petência da apuração, da seleção, da organização e hierarquização dos fatos, da configuração do lead, do conceito de investigação na reporta- gem, com a preocupação de analisar o sistema de produção desta nova indústria e do aspecto deontológico desta atividade social, cuja prin- cipal função seria a de informar. Sobressaem-se as obras de Curtis MacDougall (Northwestern University, 1960, com Interpretative Re- porting) – primeiro a registrar, em livro, a nomenclatura ‘interpreta- tivo’ –, John Hohenberg (Columbia University, 1960, The Professional Journalist), James Aronson (Columbia University and Harvard Col- lege, 1971) e Philip Meyer (Harvard University, 1971, com o preci- sion journalism). Dois anos depois, é publicado o livro de Tom Wolfe

(1973) (The New Journalism), colocando em pauta o chamado ‘novo jornalismo’, do qual os maiores representantes foram Gay Talese e Tru- man Capote.

Na França, país onde foi mais lento o processo de institucionaliza- ção de uma identidade profissional de jornalistas, os primeiros estudos em que aparecem os gêneros têm como objetivo descrever e mapear os jornais impressos. Distinguem-se os livros dos jornalistas Joseph Folliet (1961) e Jacques Kayser (1963). Enquanto a classificação de Folliet inclui todo o material publicado nas páginas de um jornal, Kay- ser reparte as unidades redacionais, como nomeia, segundo o gênero, sugerindo curiosamente os 'combinados de informação-artigo' (os quais destrincharemos mais à frente):

Nós distinguimos os gêneros seguintes: 1. informações

2. artigos e ilustrações não informativas 3. cominados “informações-artigos”

4. boletins de imprensa e de emissões radiofônicas 5. folhetins, contos e novelas, quadrinhos e fotonovelas 6. carta de leitores

7. seções de serviço

A maior parte da espaço redacional dos jornais é ocupado pelos três primeiros gêneros. Nós os examinaremos em conjunto a fim de caracterizá-los uns em relação aos outros. (KAYSER, 1963, p. 110)2(grifo nosso) (tradução nossa)

2. « Nous distinguons les genres suivants: 1. informations. 2. articles et illustrati- ons non informatives. 3. combinats « informations-articles ». 4. extraits de presse et d'émissions radiophoniques. 5. romans-feuilletons, contes et nouvelles, bandes dessi- nées et feuilletons-photos. 6. correspondance des lecteurs. 7. rubriques de servitude. La plus grande partie de la surface rédactionnelle des quotidiens est occupé par les

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