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Entrevistador: Quando você enfrenta dificuldades profissionais (dificuldades acadêmicas e didáticas) a quem recorre? Descreva um pouco sobre isso.

Abel: Eu tenho muitos livros em casa, valorizo isso e busco diversas alternativas. No ano passado, eu comprei a “Matemática no Ensino Médio”, que é uma coleção fantástica! Descobri uns tesouros ali. É da Sociedade Brasileira de Matemática. Atualmente, eu tenho recorrido bastante à bibliografia que tenho.

Felipe: Procuro um professor com mais experiência ou em alguns livros didáticos que tenho disponíveis.

José: Olha, eu recorro a livros, à Internet e agora tem as professoras da Faculdade a quem posso recorrer.

Mário: Aos colegas. Essa coisa dialógica é uma coisa muito importante! Eu nunca consegui estudar e ser um aluno autodidata, estudar sozinho. Pra mim, a discussão, a troca de informações e até mesmo [...] quando eu sou um aluno em casa, eu mando e-mail. E esta coisa de discutir, de demonstrar, olha eu fiz dessa maneira, e o professor não corrigir o erro, mas ele tentar que você consiga chegar naquele objetivo. Isso é uma coisa que eu aprendo muito. [...] Então, isso é prazeroso, essa troca. Quer dizer, o pouco que você sabe, pode ajudar a pessoa e o que a pessoa sabe também pode te ajudar.

Raul: Sem dúvida, tem de sentar junto e se você tem um grupo legal na escola que você tá, que nem o grupo daqui de Matemática é muito legal. Tem alguns professores que a gente senta muito e, eu fui fazer um exercício e me perdi aqui, você lembra isso aqui, ah! Eu lembro esse aqui é, assim, então a gente troca muita informação e que isso funciona mais que um curso, é bem legal. [...] É, oh! Didática é com os colegas, entendeu? Quando eu digo colegas, pode ser coordenador, pode ser diretor, pode ser colegas professores, e o que você tá

didática pedagógica em termos de estruturar a turma ou um grupo, ou qualquer coisa assim. Agora, quando é a didática em sala de aula mesmo, de ir pra lousa, é sentar com um colega e falar como é que você tá ensinando isso? “Meu”, tem algum exemplo legal? Que livro você tá usando? “Meu”, esse livro que eu tô usando, essa matéria não tá legal, entendeu? E você também sentar e ler, pegar abrir um livro, olhar, falar assim tem um exercício bacana aqui, é o modo de abordar o assunto desse livro, tá melhor do que desse livro, se bem que eles são muito parecidos, né? Os livros de Ensino Médio...

Rita: Ah! Com os colegas da escola, alguns que têm boa vontade e às vezes, vou procurar livros e se eu não sei no momento, eu procuro depois trazer e já me enganei também. Não vou falar que não me enganei, porque me enganei. Aí, eu converso com eles, refaço tudo, mas assim, agora com essa internet que você tem acesso a tudo, é mais fácil, antes eu ia à biblioteca. Agora, eu não preciso ir, né? A biblioteca virtual tá em casa, né?

Em suas falas, os professores Felipe, Mário, Raul e Rita expõem que a relação entre os pares, ou seja, a troca de informação e experiência entre os colegas de profissão favorece, como também produz saberes. Segundo a taxonomia de Tardif (2002), esses saberes são denominados de Saberes

Experienciais. Para o autor, os Saberes Experienciais são adquiridos no âmbito da prática docente, baseados nos trabalhos cotidianos, ou seja, nas relações, pessoais ou não, que envolvem o trabalho docente, sendo desta forma validados e legitimados pela própria prática do professor.

Nas situações descritas pelos entrevistados, entendemos ser possível perceber que a troca de experiências e ideias, o diálogo, as discussões entre os colegas de profissão ou a procura por profissionais mais experientes podem ser caracterizados, como uma busca por aspectos que possam favorecer o desenvolvimento desses saberes que, possivelmente, se agregarão à prática docente.

Contribuindo com essa discussão, Ferreira (2006) ressalta também que o professor pode ser observado como um sujeito produtor de saber. A autora destaca a importância de entender o desenvolvimento profissional do professor,

como um processo que se dá ao longo de toda a sua experiência docente, não ocorrendo de forma linear nem possuindo uma duração preestabelecida.

Portanto, considerando as falas dos entrevistados e baseando-se nas afirmações de Tardif (2002) e Ferreira (2006), acreditamos que as trocas de experiências docentes contribuem, de fato, para o desenvolvimento de saberes, de forma não linear e em um contexto não formal, apesar de ser um ambiente acadêmico, uma vez que ocorre dentro da instituição “escola”. Tardif (2002) refere que a prática pode ser vista, como um processo de aprendizagem por meio do qual os professores retraduzem sua formação e adaptam-na à profissão.

Dessa forma, no contexto apresentado pelos entrevistados, entendemos que a experiência docente por eles retratada, valida a própria prática cotidiana, tomando, dessa forma, o caráter de um processo contínuo de aprendizagem e desenvolvimento profissional.

Por outro lado, os professores Abel e José pontuam que recorrem a livros não didáticos e didáticos em momentos de dificuldades profissionais. Acreditamos que essa busca por diferentes literaturas, também, contribui para o desenvolvimento dos Saberes Experienciais, pois, no contexto descrito pelos entrevistados, esta busca está inserida e vinculada às experiências e à prática docente vivenciada por eles.

Observamos aqui um indício de autonomia na busca de fontes de conhecimento, tanto para o aspecto específico do conteúdo como no aspecto didático (José conversa com os professores da Faculdade). Dessa forma, integram essa autonomia a seus Saberes Experienciais e, consequentemente, a sua prática.