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O rosto, categoria levinasiana para falar da alteridade radical do outro, expressa a manifestação da fragilidade de outrem. O rosto é vulnerável, porém, ele pode ser também violento, mas isso não desdiz a responsabilidade do Mesmo, pelo contrário, sob a influência de Dostoievski, Levinas assume que “cada um de nós é culpável diante de todos, por todos e por tudo, e eu mais que os outros” (LEVINAS, 2008, p. 107). De modo que o rosto é apelo ético, é alteridade que resiste ao domínio, que resiste a ser assassinado. Sua fragilidade é já resistência. O rosto vem ao Mesmo nesse tempo hipostatizado, nesse instante do despertar da consciência, em que o Mesmo assume a existência. “O outro é o próximo” (LEVINAS, 1998, p. 113), numa proximidade assimétrica, como fuga à totalidade, a ser englobado. Ele, o rosto, é essa categoria para além da plasticidade, para além da percepção, para além do que se pode apreender, ele é alteridade radical que vem ao Mesmo no instante que é seu, no tempo.

O tempo traz o rosto vulnerável, como o pobre, o órfão, a viúva e o estrangeiro, traz também a possibilidade de matar, por isso, Levinas entende que o rosto fala. Sua primeira palavra é: não matarás (Cf.: LEVINAS, 2007, p. 72). Essa fala, implica dois elementos na filosofia de Levinas: o monismo da hipóstase é desafiada a não ser violenta e o Mesmo é responsável pela morte de outrem.

O aparecimento do rosto, em Levinas, abre uma possibilidade de paralelo teórico com Heidegger, pelo que, neste momento fazemos um recuo ao terceiro ponto básico da fenomenologia fundamental de Heidegger (no início deste capítulo já tratamos de dois pontos: o ser precede o ente; o outro entra no mundo do Dasein), pois o ente heideggeriano está lançado no mundo que se lhe expõe inúmeras possibilidades. Nem todas elas poderão ser contempladas em sua existência, pois a temporalidade, lugar da existência, é também o lugar da consumação das possibilidades. O Dasein existe enquanto há possibilidades. Na morte ele

não existe. É onde fica apenas o que se realizou, nada mais pode ser feito, apenas os que ficam prestam homenagens ao que partiu (Cf.: HEIDEGGER, 2009, p. 340). Ele existiu só, referenciado a si e morre também referenciado a si.

Para Heidegger, a constatação da finitude traz ao ente a angústia consigo mesmo, o seu desejo de totalidade está destinado à incompletude; ele nunca poderá ser totalidade, a não ser no nada, isso acontece porque Dasein é ser-para-a-morte (Cf.: PASQUA, 1997, p. 119). Por sua vez, Levinas, entendendo a angústia surgida de outra direção, propõe que a razão da angústia se dá na responsabilidade pela morte do outro, e também no “ser-para-além-de- minha-morte”, isto é, o ser humano, esse ente que pergunta pelo sentido do ser, inquieta-se pelo que pode deixar após a sua morte; sua obra, como diz Levinas, não se acaba na morte. A preocupação do ente é com o seu ser-para-além-da-morte. Essa dimensão para além da finitude revela que o projeto humano não se consome plenamente no nada da morte e nem no seu tempo de ser, pelo contrário, ultrapassa a sua morte e, portanto, o seu tempo de ser.

O futuro, em favor do qual tal ação age, deve, de imediato, ser posto como indiferente à minha morte. A Obra, distinta tanto do jogo como de suas suputações [sic], é o ser-para-além-de-minha-morte. A paciência não consiste, para o Agente, em enganar sua generosidade, dando a si o tempo de uma imortalidade pessoal. Renunciar a ser contemporâneo do triunfo de sua obra é entrever este triunfo num tempo sem mim (moi), é visar este mundo sem mim (moi), é visar um tempo para além do horizonte do meu tempo: escatologia sem esperança para si ou libertação em relação ao meu tempo. (LEVINAS, 2012, p. 45)

Levinas não entende o para-além-da-morte como nada, mas como realização da obra do Agente, esse Agente é o ente, é o homem. Para esse ente, o que importa, mais que sua morte, mais que seu tempo, é o que fica para o outro, daí a expressão “libertação em relação ao meu tempo” (LEVINAS, 2012, p. 45), pois para Levinas o tempo não é só onde a existência se dá como minha, como lugar de encontrar o sentido do ser, mas tempo é propriamente “um dinamismo que nos leva para outro lado diferente das coisas que possuímos” (LEVINAS, 2007, p. 46). Então, o tempo coloca o Mesmo para além de seu tempo, para além desse Si, nele abre-se a possibilidade de fecundidade, uma fecundidade para além do si do Mesmo, uma fecundidade da qual o erótico é modelo, seja pela permanência do Mesmo e do outro, seja pela duração para além do tempo do Mesmo.

O rosto desperta o Mesmo para uma fecundidade para-além-da-morte, assim, o rosto, para Levinas, evoca uma responsabilidade não só para o instante, mas para o não-mais- presente, de sorte que na proximidade do outro se faz também uma ultrapassagem do próprio tempo, uma ultrapassagem sem retorno, numa contínua direção ao outro, numa

responsabilidade para-além-da-morte-do-Mesmo, isto é, numa fecundidade (Cf.: LEVINAS, 1998, p. 114).

O ser-para-a-morte coloca o tempo para mim, o ser-para-além-de-minha-morte põe o tempo do outro, aquele no qual nos reunimos para resolver problemas que não serão para agora, mas para um futuro que talvez não estejamos; assim, a morte pode ser minha, mas o projeto, as possibilidades podem ser em direção e em favor dos outros. Meu tempo pode ser não só para mim, e na verdade, na maioria das vezes o tempo é essa dinâmica que age para o futuro, um futuro que não necessariamente é meu, portanto,

Ser para um tempo que seria sem mim, para um tempo depois do meu tempo, para além do famoso ‘ser-para-a-morte’ - não é um pensamento banal que extrapola minha própria duração, mas a passagem ao tempo do Outro [sic]. E o que torna possível tal passagem será preciso chamar eternidade? Mas, pelo menos, a possibilidade do sacrifício, que vai até o extremo desta passagem, descobre o caráter não inofensivo desta extrapolação: ser para a morte a fim de ser para o que vem depois de mim. (LEVINAS, 2012, p. 46)

A morte é, pois, lugar da responsabilidade, antes que da solidão absoluta, onde simplesmente se morre sozinho. Ela também é lugar ético, uma vez que o rosto grita ao Mesmo: não matarás. Esse clamor do rosto diz de uma responsabilidade pela vida do outro, antes de uma ontologia, antes de uma busca do sentido do ser.

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