Com a elaboração das três primeiras configurações das práticas de cuidado, encontra-se espaço para prosseguir pensando na constituição de outras configurações para as práticas de cuidado, trazendo questões relativas ao desenvolvimento da enfermagem no Brasil, uma vez que as transformações ocorridas na Europa influenciaram marcantemente a Enfermagem brasileira a partir
do século XIX.
Destaca-se que desde o período colonial até o final do século XIX, tem-se uma Enfermagem em formação, momento em que o país evoluiu economicamente, mas mantendo-se em bases agrária, escravista e aristocrática com seu núcleos pouco urbanizados. As práticas de saúde eram vinculadas aos rituais místicos, realizados pelos pajés e feiticeiros em suas próprias tribos, ligados à figura masculina. Por outro lado, também houve a participação de mulheres índias nas práticas de cuidado. Tais características foram assinaladas também na primeira
configuração das práticas de cuidado, séculos antes.
No Brasil, cura e cuidado encontravam-se também polarizados, estando presente a questão de gênero.
Com a vinda de colonizadores europeus, doenças se fizeram presentes (tuberculose, febre amarela, etc.) e “a escassez de profissionais colaborou para a proliferação do curandeirismo, e a arte de curar nas mãos de leigos, autorizados a desempenhar umas poucas funções específicas, era um misto de tirocínio, ciência e crendice.”(GEOVANINI, 2002, p. 30).
Sendo assim, após a colonização européia, a assistência aos doentes é, então, prestada pelos religiosos em locais próximos aos conventos, sendo que posteriormente, voluntários e escravos também passam a executar essa atividade nas Santas Casas de Misericórdia, a partir de 1543.
Vale ressaltar, segundo Geovanini, que nesse tempo a prática de cuidado era “doméstica e empírica; mais instintiva que técnica, atendendo prioritariamente a fins lucrativos. Seus executores eram, na maioria, do sexo masculino.” (2002, p. 31). Observa-se, aqui, a existência de elementos que circundaram a primeira
configuração (influência religiosa), embora, no brasil, os homens tenham sido os
principais cuidadores após a vinda dos europeus.
Mais tarde, são fundados hospitais militares com os mesmos objetivos dos hospitais europeus, semelhante ao apontado na segunda configuração das práticas de cuidado.
A partir desse momento, desponta no Brasil uma série de transformações de cunho político-econômico, passando a saúde a se constituir um problema econômico-social em consequência da propagação de doenças infecto-contagiosas, trazidas pelos europeus que fugiram ao controle do serviço de Inspeção de Saúde Pública do Porto do Rio de Janeiro, principal porta de entrada das doenças pestilentas, o que configurou-se como uma calamidade pública. Houve a necessidade do governo assumir a assistência à saúde, culminando com a criação de serviços públicos. (GEOVANINI, 2002).
Em meio a referida crise, surge a Escola Profissional de Enfermeiros com seu currículo que abordava aspectos básicos da assistência hospitalar, predominantemente curativa, o que não respondia às necessidades vigentes.
Outras escolas são fundadas e a divisão social do trabalho se reforça, uma vez que as novas enfermeiras eram preparadas para executar tarefas com maior nível de complexidade intelectual, que estariam relacionadas com a classe social a qual pertenciam, não diferenciando-se do modelo institucionalizado por Florence.
Salienta-se que nesse período religiosos ainda atuavam nos hospitais como uma prática leiga e subserviente.
De acordo com Geovanini, quando o processo de industrialização se consolida no país, “a tecnologia hospitalar e a indústria farmacêutica ganham destaque, privilegiando a medicina curativa que passa a ser o paradigma de um
sistema de saúde que tem como principal centro de referência o hospital.” (2002, p. 37). Surge a necessidade de outras categorias profissionais para dar conta das exigências do mercado.
Portanto, há uma centralização na atenção médica individual, reforçada pela política de saúde médico-hospitalar, privilegiando a prática curativa e especializada, bem como a incorporação de tecnologia sofisticada, exigindo das escolas de Enfermagem modificações em seus currículos que, antes, enfatizavam a saúde pública. Dessa forma pode ser apontada a quarta configuração das práticas de cuidado: práticas de cuidado especializadas, centradas na atenção médico-
hospitalar, norteadas por mecanismos de disciplina e poder, com ênfase no aspecto curativo e normativo, desenvolvidas por outras categorias da enfermagem (técnicos, auxiliares e atendentes), tendo como pano de fundo o interesse das indústrias com vistas a expansão do capital.
Enfatiza-se que o surgimento de outras categorias profissionais na Enfermagem não surgiu apenas por uma questão quantitativa direcionada pelo mercado, mas sim em decorrência do não posicionamento político do enfermeiro e, pela incorporação de modelos administrativos que fragmentam o processo de trabalho em favor da disciplina e da organização, ficando os enfermeiros afastados da possibilidade de reflexão e crítica sobre o fazer, porque, quase que totalmente, são alheios a essa prática na vida profissional.
Matumoto (2003, p. 8) aponta que “sentimos hoje os reflexos da crise da saúde, que vem ao longo da história arquitetando seus diferentes modelos assistenciais, a partir dos diferentes interesses em disputa e de entendimentos do que é saúde e doença e as formas de intervir sobre elas.”
interesses, estando os serviços de saúde voltados mais para a atenção individual. Importantes transformações ocorreram na esrutura social do país, determinadas, em grande parte, pela mudança do quadro político-nacional que segundo Geovanini
a partir de 1975, um novo modelo foi definido através da Lei 6.229 do Sistema Nacional de Saúde. A Lei citada que legitimou a pluralidade institucional no setor saúde e identificou a Previdência Social como responsável pela assistência individual e curativa, e o Ministério da Saúde, por intermédio das Secretarias, pelos cuidados preventivos e de alcance coletivo, acarretando uma divisão entre ações tecnicamente indivisíveis. (2002, p. 39).
Tendo em vista a sofisticação do ato médico e a crescente especialização dos trabalhadores da saúde, necessitou-se da formação de profissionais, cada vez mais habilidosos para lidar com a tecnologia hospitalar, sendo que para colher essas exigências, os currículos de Enfermagem centraram-se intensamente na assistência curativa, direcionando grande parte de sua carga horária nas disciplinas ligadas ao hospital até a década de 90.
Nesse cenário, muitas reformas e Conferências ocorreram como forças instituíntes que esbarraram em profundas crises financeiras, havendo a racionalização de recursos.
3.4.5 O INDIVIDUAL, O COLETIVO E A CONCRETIZAÇÃO DO SUS: REGRAS DE