ESP-r og simuleringer
5.2.7 Varmeveksling og varmelagring
As visitas do presidente Lula da Silva são frequentemente mencionadas como evidências da estratégia de aproximação do Brasil com a África. De fato, como visto acima, elas ocorreram em grande quantidade e frequência, além de acompanhadas de ações com vistas a consolidar as relações e discursos eloquentes quanto à importância e pertinência do reforço das relações bilaterais. Porém, para averiguar a relação de causa e efeito entre essas visitas e os resultados no campo dos investimentos será observada a sequência de países visitados, com o objetivo de verificar se a prioridade dada nas visitas corresponde aos principais destinos das empresas brasileiras na África.
Cretoiu (2011) fez um levantamento das visitas do ex-presidente Lula durante o primeiro mandato e elencou-as em ordem cronológica, apontando os seguintes países: São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Namíbia, África do Sul, Gabão, Cabo Verde, Camarões, Nigéria, Gana, Guiné Bissau, Senegal, Argélia, Benin e Botsuana (CRETOIU, 2011). Por essa sequência, percebe-se que Angola, o principal destino das empresas brasileiras na África, foi o segundo país a ser visitado, o que demonstra que a escolha das empresas e as prioridades governamentais estão em sintonia em relação a esse país. Moçambique e África do Sul, na terceira e quinta posição, também refletem certa sintonia entre as prioridades governamentais e a das empresas. Cabe ressaltar que os cinco primeiros países visitados33 – incluindo Angola, Moçambique e África do Sul - foram todos destinos da
primeira visita presidencial de Lula ao continente africano, em Novembro de 2003 (MRE, 2010).
Além disso, na listagem de Cretoiu não aparece a Líbia, o que poderia indicar uma discrepância em relação aos outros destinos principais das empresas brasileiras, mas, na verdade, trata-se de uma questão metodológico-geográfica: a Líbia também foi visitada por Lula em 2003, no mês seguinte ao primeiro périplo pelo continente africano, porém este país do norte da África foi incluso na viagem do ex-presidente ao Oriente Médio e países árabes (MRE, 2010).
33A presença de outros países nas primeiras posições da sequência cronológica parece refletir outras prioridades de política externa que não os investimentos.
Assim, pode-se observar que os principais destinos das empresas brasileiras na África no governo Lula foram todos visitados no primeiro ano de governo, antes, mesmo, do aumento substancial da presença das empresas brasileiras nesses países. Nesse aspecto, parece se confirmar a percepção de que visitas presidenciais favoreceram a instalação de empresas brasileiras na África.
Há ainda um fator qualitativo relevante das visitas presidenciais, que são as missões de empresários, as quais parecem indicar a principal contribuição governamental dentro do critério visitas presidenciais. Nos quatro principais destinos das empresas brasileiras na África – e em outros países africanos -, as visitas presidenciais foram, em geral, acompanhadas de rodadas de negócio e encontros de empresários, iniciadas ou concluídas por discursos do ex- presidente Lula.
O caso de Angola merece destaque, pois todas as vezes em que o presidente Lula esteve nesse país para visitas de Estado ocorreram encontros empresariais: um, em 2003, antes do grande aumento do número de empresas brasileiras atuando no país, e outro, em 2007, quando a expansão já estava avançada. Mais destaque ainda deve ser dado para o fato de que, quando da realização do primeiro encontro empresarial, em 2003, a guerra civil angolana, que durou mais de trinta anos, tinha acabado há pouco mais de um ano. A importância de Angola pode ser atestada não apenas pela permanência de empresas brasileiras no país, mesmo durante a guerra, como também pela aposta em realizar rodada de negócios com o fim da guerra tão recente e pelo reconhecimento de uma relação especial no discurso do presidente Lula: “Compartilhamos não apenas ligações étnicas e culturais, mas, também, o anseio de garantir o desenvolvimento econômico e o bem-estar de nossos cidadãos. Com nenhum país do Continente esses vínculos são mais fortes do que com Angola” (SILVA, 2013).
Destaque-se, porém, que Moçambique e África do Sul tiveram rodadas de negócios apenas no final do período em análise, respectivamente, 2008 e 2010. Não podendo ser atribuída nesses países a relação cronológica de causa e efeito. Já na Líbia houve rodada de negócios na viagem de Lula de 2003, no mesmo ano do fim das sanções norte-americanas ao país, demonstrando a aposta brasileira no mercado líbio e a possível correlação de causa e efeito, como no caso de Angola.
O papel estatal e, em especial, a atuação presidencial, teve destaque também nesses eventos em dois aspectos, quais sejam a promoção da marca Brasil, como um parceiro
confiável e próspero, e da promoção da imagem da África como um destino possível e não inóspito, oposto à visão dos catastrofistas dos anos 199034. Algumas palavras do ex-presidente
Lula35 expressam as desconfianças36 que ainda existiam entre alguns empresários quanto às
oportunidades no continente africano no início do governo.
Ver 40 empresários do Brasil aqui é um melhor sinal ainda, porque na primeira viagem que fiz para Angola era difícil convencer um empresário…Não só empresário, não, até ministro não gosta de viajar para a África (SILVA, 2013).
Vale ressaltar, porém, que, apesar de as ações da política externa brasileira terem contribuído para a melhora da imagem da África perante o empresariado brasileiro durante o governo Lula, o Renascimento Africano, também contribuiu para essa situação, na medida em que, em diversos aspectos, proporcionou aos países do continente uma posição mais destacada nas relações internacionais. Tanto é que não apenas o Brasil redescobriu a África, como também diversos países emergentes e potências tradicionais. Além disso, em muitos casos, nas palavras do ex-ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, a diplomacia brasileira secundou o empresariado na descoberta e desbravamento de alguns mercados africanos (SEMINÁRIO AS RELAÇÕES DO BRASIL COM A ÁFRICA: A NOVA FRONTEIRA DO DESENVOLVIMENTO, 2013).
A presença do presidente e a inciativa governamental de organizar tais eventos, porém, também repercute no sentido de criar um ambiente favorável para os negócios e promover encontros de possíveis parceiros, cabendo ao empresariado realizar negócios compatíveis com suas estratégias de crescimento e internacionalização e as peculiaridades de seus empreendimentos. A ideia que orienta o papel do Estado nessas iniciativas é claramente expressa pelo ex-presidente Lula em seu discurso por ocasião da abertura do Encontro Empresarial de Brazzaville – Congo, em 2007.
34José Vicente de Sá Pimentel (2000) divide a visão dos formuladores da política externa brasileira para a África nos anos 1990 entre nostálgicos e catastrofistas. Os primeiros enfatizavam as responsabilidades históricas e comparavam os anos 1990 com os anos 1970, exaltando os últimos em detrimento dos primeiros. Por outro lado, os catastrofistas davam ênfase ao quadro de crise no continente, tendo isso como um fator que impossibilitava o diálogo com o continente.
35Discurso proferido por ocasião do encerramento de encontro empresarial, realizado em Maputo, Moçambique, em 16 de Outubro de 2008.
36Essas desconfianças não são totalmente infundadas, tendo em vista que a estabilização e crescimento da África eram um processo apenas no início e não havia garantias muito concretas de que seria sustentável a mudança. No caso de Angola, que é usada como exemplo por Lula da Silva, a guerra civil tinha acabado há pouco mais de um ano e não era a primeira vez que uma pacificação ocorria no país sem encontrar sustentabilidade no médio prazo.
Senhores empresários,
Os governos estão fazendo sua parte. Na esfera bilateral, estabelecemos um mecanismo de consultas políticas. Assinamos uma série de acordos de cooperação.
Com a próxima abertura de embaixadas em Brazzaville e em Brasília, facilitaremos os contatos e a realização de negócios.
Para atingir resultados ambiciosos em termos de comércio e investimentos, precisamos contar com a criatividade e visão empresarial dos homens de negócio aqui reunidos. Aos senhores cumpre o desafio de explorar novas oportunidades, desenvolver parcerias.
Minha presença aqui reflete o compromisso do governo brasileiro de apoiar a todos aqueles que apostam nas potencialidades das relações e dos negócios entre nossos países.
Estou confiante em que este evento servirá de estímulo para bons negócios e constituirá o alicerce seguro sobre o qual estamos construindo uma nova etapa nas relações econômicas e comerciais entre a República do Congo e o Brasil.
Muito obrigado. (SILVA, 2013)
Ademais, o fato de o discurso escolhido para expressar o papel do governo ter sido proferido em outro país que não um dos quatro principais destinos é ilustrativo de que, em vários países, os estímulos aos investimentos foram dados, mas destacaram-se determinados países, em função de algumas peculiaridades que serão vistas no próximo capítulo.
Por fim, o que se pode observar pela análise das visitas presidenciais e da presença de Lula em rodadas de negócios de empresários que o acompanharam nessas visitas é que o Estado brasileiro, por meio dessas iniciativas, criou oportunidades para as empresas brasileiras no continente, sendo os principais destinos das empresas brasileiras contemplados com visitas logo no primeiro ano de mandato, porém outros países também foram contemplados com incentivos semelhantes e não deram os mesmos resultados, o que indica que, além dos incentivos governamentais, outros fatores contribuem para a escolha dos destinos das empresas brasileiras na África.