7. Diskusjon
7.5 Varmebehandling av Fe-Ti-O-forbindelser
Antes de passarmos à descrição dos fatores que motivam cada uma das decisões das rendeiras acerca da forma como irá executar os papelões, é importante
(a) Trocados inteiros.
(b) Meio-trocados.
Figura 19 – Trama formada por trocados inteiros e por meio-trocados. Destaque para o caminho percorrido pelos bilros e linhas em cada caso.
caracterizar o contexto quanto às possibilidades de destinação das rendas, seu retorno e forma de pagamento. A partir de tal apresentação, as escolhas sobre os caminhos percorridos sobre os moldes para constituir cada trama se tornarão mais claras. Em primeiro lugar, vale notar que as opções de comercialização colocadas para das rendeiras de Canaan são extremamente limitadas e, para muitas, se restringe às denominas compradeiras locais. Essa categoria é aplicada àquelas mulheres que residem no distrito, muitas das quais são rendeiras (ativas ou inativas), cuja condição econômica permite que comprem rendas para serem estocadas e, posteriormente, revendidas em Fortaleza e outros municípios próximos à capital.
O principal destino das rendas feitas em Trairi são os mercados, feiras e lojas voltadas ao grande fluxo de turistas que visitam o Estado. As peças mais vendidas em tais estabelecimentos são as roupas e itens de decoração confeccionados com
a linha grossa, cujo tempo de produção e custo são menores. Visando suprir essa demanda, as compradeiras de Canaan se interessam principalmente pelas camisetas, boleros (ou coletes) e vestidos, de diversos tamanhos e modelos. Conheci apenas uma intermediária local que também comprava peças de decoração, como panos de bandeja e caminhos de mesa. Se o retorno imediato é uma vantagem desse tipo de transação, o aspecto negativo, amplamente criticado pelas rendeiras, é a baixa remuneração que proporcionam. Tomemos a produção de uma camiseta como exemplo, considerando um tamanho mediano, para adulto, que a peça seja toda no trocado inteiro e traga um padrão não muito elaborado, composto por panos e algumas rosas de traças. O preço médio de uma renda como a descrita, em 2013, girava em torno de 20 reais.
Geralmente as peças de roupa são produzidas a partir de oito tiras de rendas que, a depender do modelo podem demandar um, dois ou três papelões diferentes. O tempo de confecção de tais tiras depende da velocidade de produção, do tempo de dedicação à almofada e das limitações físicas das rendeiras, podendo variar entre 8 e 20 dias. Além do tempo de trabalho, o preço das rendas deve pagar também o custo da linha. A quantidade de linha utilizada por cada rendeira pode variar, haja visto que algumas fazem traças mais cheias ou panos mais fechados, por exemplo. A linha grossa, utilizada nessas peças, é encontrada no mercado em meadas de 300 metros, ao preço de R$ 2,50, ou em novelos, de mil metros, vendidos entre R$ 5,50 e R$ 7,00. Em geral, uma camiseta demanda entre duas e três meadas, ou um pouco menos de um novelo, o que gera um custo entre cinco e sete reais.
Considerando o tempo de trabalho e o dispêndio com linha, constata-se que o ganho das rendeiras em tais vendas é muito baixo. Vale notar, portanto, que as rendeiras tendem a optar pela venda para as compradeiras em função tanto da sua proximidade física e disponibilidade quase constante, quanto pela possibilidade de pagamento imediato. Muitas compradeiras mantêm pequenos mercantis em suas casas e, nesses casos, é comum que as rendas sejam trocadas diretamente por alimentos e demais mantimentos. Todas as rendeiras conhecem algumas dessas potenciais consumidoras e, em caso de necessidade, podem recorrer a elas, inclusive, para anteciparem pequenas quantias. Em alguns casos, as compradeiras podem até fornecer a linha para aquelas rendeiras que não podem arcar com esse investimento.
Acompanhei a negociação de um caminho de mesa que sintetiza a relação entre rendeiras e compradeiras. Uma rendeira reconhecida por sua renda bem feita, sempre com trocados inteiros e bom acabamento, recebeu um pedido de uma de suas compradoras, uma senhora aposentada que reside no quarteirão ao lado do seu. Quando da encomenda, um caminho de mesa com 40 centímetros de largura e 1,5 metros de comprimento, a rendeira recebeu a linha necessária e elas combinaram o pagamento em vinte e cinco reais. No entanto, a produção da peça demorou mais tempo do que a rendeira imaginara inicialmente, tomando praticamente seis semanas de trabalho. Durante esse período, várias rendeiras que visitaram sua casa a alertaram
que aquele preço estaria abaixo do “valor de mercado”, ou do que o povo tá pagando. Argumentaram que trinta reais seria a importância justa e a estimularam a exigir esse preço.
Nos encontramos no dia que faria a entrega e ela se mostrou disposta a solicitar a diferença. Estimulei para que fizesse isso e, como era uma rendeira muito próxima a mim e aquela situação me incomodava profundamente, disse que poderia comprar a peça, caso a compradeira não aceitasse o seu preço. Até aquele momento, não sabia que a linha havia sido fornecida pela compradora e acreditei que a rendeira teria sucesso na negociação. Alguns dias depois soube do resultado. A compradeira não aceitou sua proposta e, ao argumentar que já tinha cliente para a peça, a senhora lembrou que ela ainda lhe devia a linha. A rendeira acatou o seu argumentou, o custo da linha foi descontado e os R$ 19,00 aos quais teria direito foram deixados em sua conta no mercantil, para serem retirados em mercadorias. Apesar de ter se submetido às exigências da compradeira naquele momento, essa transação não satisfez a rendeira que, durante o tempo que permaneci em campo, não fez mais nenhuma peça para ela, ainda que tivesse recebido pedidos e, inclusive, uma visita à sua casa. Outra rendeira sintetiza tais transações: Atravessador ganha o dobro, o triplo. Ganha na renda, na linha e na mercadoria que a gente tira lá. E a gente, nada!
Aquelas rendeiras que não precisam do retorno tão imediato podem esperar oportunidades para comercializar suas peças por um valor maior. Uma dessas opções consiste em alguns intermediários que visitam Canaan a cada três ou quatro meses para buscar mercadoria para revender. Tais comerciantes pagam um preço ligeira- mente maior do que o oferecido localmente. Uma rendeira, já aposentada, costumava juntar os coletes que produzia para esperar a visita de um desses compradores. Enquanto em Canaan o preço de um colete costuma ser de quinze reais, nessas situações ela consegue obter vinte reais pela mesma peça. Ela afirma que, quando tem condições financeiras, prefere juntar rendas para tais compradores, tendo em vista a obtenção de um retorno maior: Se tiver podendo, junto. Se tiver com precisão, vendo de uma mesmo. Trata-se de uma espécie de poupança, a qual as rendeiras que podem, recorrem. Sua vizinha, que não podia acionar a mesma estratégia, se lamentava: Muito bom a pessoa que pode juntar. Se eu pudesse, eu juntava e só vendia de muito. Se vende só uma, só dá pra comprar as linhas de volta.
Os parentes que residem em outras localidades também são potenciais reven- dedores da produção das rendeiras. Conheci uma rendeira cuja filha trabalhava em um salão de beleza em Fortaleza e, sempre que vinha à Canaan, ela recolhia as peças de suas parentes para levar. O retorno de tais vendas geralmente rende mais dinheiro, não obstante tenham que esperar pela venda dos produtos para receber por eles. Nesse sentido, a venda na porta apresenta uma vantagem importante. Embora seja preciso esperar a visita dos compradores, quando ela ocorre a transação é completa,
isto é, o pagamento é imediato. Com relação a esse aspecto, a melhor modalidade de venda é a encomenda feita diretamente pelo consumidor final, por envolver um rendimento mais justo e por se tratar de um dinheiro certo, que será recebido assim que a peça for finalizada (BRUSSI, 2009, p. 101).
A última alternativa de comercialização das rendas que se apresenta às ren- deiras é por intermédio da associação. Embora o número de associadas à ARTECAN ultrapasse 400 rendeiras, apenas cerca de 30 participam ativamente do cotidiano da instituição. O grupo que recorre a essa opção é, portanto, muito pequeno em relação ao universo das rendeiras de Canaan. Eventualmente a associação é convidada a participar de feiras e eventos regionais e nacionais. Além de levar amostras das rendas produzidas pelo grupo para possíveis pedidos de compra, elas também reúnem as peças que porventura tenham em suas casas, para serem vendidas. Trata-se de uma oportunidade de obter um retorno melhor e imediato. Alguns eventos geram, inclu- sive, pedidos de renda feitos a partir da linha fina, que garantem um retorno ainda melhor. No entanto, via de regra, os proventos de todas as encomendas demoram a chegar, pois dependem da finalização e entrega de todas as peças, que geralmente envolve muitas rendeiras com tempos de produção distintos.
A ARTECAN mantém, ainda, um vínculo com a loja do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, do Ministério da Cultura, no Rio de Janeiro, para a qual envia uma caixa de material todo semestre. Tal contato foi iniciado após serem tema da exposição “Rendas nas terras de Canaan”, na Sala do Artista Popular, espaço de exibições de curta duração voltado à difusão e comercialização da produção de artistas e comunidades artesanais. Na medida do possível, as associadas reúnem peças para serem enviadas, visto que podem cobrar um valor justo por elas. No entanto, não tem qualquer estimativa do tempo que levarão para receber, uma vez que isso só ocorre após as rendas serem vendidas. Uma vez por mês o Centro manda a relação das peças comercializadas e deposita o valor relativo às vendas na conta da associação. Conforme uma rendeira argumentou: A única venda que a gente tem é o Rio de Janeiro. Todo mês vem, é pouco, é muito, mas vem.
3.5 Custos envolvidos nos caminhos e as motivações de cada escolha