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As variações que envolvem a substituição dos pontos, como a realizada por Verônica, só são possíveis graças ao posicionamento equidistante de todos os buracos sobre uma mesma grade que, como vimos, é formada por linhas perpendiculares dispostas diagonalmente. A partir da disposição dos furos presentes nos moldes as rendeiras podem executar tramas com composições distintas de pontos. É a

possibilidade de preencher cada espaço, ou configuração de buracos, de várias maneiras, com entrelaçamentos distintos, que permite tal alternância.

A renda dedinho é um bom exemplo da versatilidade da qual estamos falando. Seu molde é composto por duas colunas (Fotografia 17a, página140), formada por três linhas das quais as primeiras são formadas por furos sucessivos e, a ultima apresenta perfurações mais espaçadas. Tal posicionamento das perfurações costuma ser executado pelas rendeiras de Canaan de, pelo menos, seis modos distintos, gerando, portanto, seis tramas ligeiramente diferentes. Conforme explicam as rendeiras, dá certo porque os buracos estão no mesmo lugar. O espaço que constitui a segunda coluna pode ser preenchido por traças em zigue-zague como eu fiz, ou por traças intercaladas por tranças13. Isso é possível pois ambos os pontos demandam dois pares de bilros e ocupam dois buracos do molde. A faixa entre as linhas sequenciais de buracos, por sua vez, pode ser ocupada de três formas diferentes: com pano de trocado inteiro, pano de meio trocado ou pela denominada auréola.

(a) Molde da renda dedinho. (b) Três variações da dedinho. As amos-

tras da esquerda tem o pano de tro-

cado inteiro, ao passo que a terceira

é formada pela auréola.

Fotografia 17 – Molde e amostras da renda dedinho. 13 Ponto da renda elaborado com dois pares de bilros, que reproduz uma trança.

A diferença fundamental estabelecida na trama a partir de cada uma dessas opções, como se verifica na Fotografia 17b (página 140), refere-se ao espaçamento entre as linhas da primeira coluna, sendo os panos mais fechados e a auréola, rangarelo. Além de produzir uma mudança no aspecto visual da renda, tal variação se reflete no momento de afixá-las aos tecidos, considerando tratar-se de uma renda em metro utilizada como acabamento de roupas ou peças de decoração. A junção das peças é realizada pela faixa formada pelo pano, ou auréola, e, quanto mais fechada a trama, melhor será para costurá-la de forma discreta.

Se algumas variações dos pontos são viáveis a partir de uma única disposição de buracos sobre o molde, outras exigem que novos furos sejam pinicados. Ao inserir perfurações extras no papelão, obedecendo à grade diagonal sobre a qual são distribuídas, uma rendeira pode aumentar as possibilidades de trama que apresenta. Basta ignorar as interseções posteriormente criadas e o papelão continua apto a produzir a trama original ao qual se propunha. Jucicléia, minha vizinha, alterou o molde de uma camiseta dessa maneira. A partir da inserção de alguns buracos estabeleceu uma nova combinação entre os pontos e definiu um novo padrão para a peça. O desenho original era composto por panos em diagonal, intercaladas por rosas de traças. Ela ignorou as flores e emendou os panos, formando um motivo em zigue-zague que atravessa todo o comprimento da peça, que as rendeiras chamam de “S” (esse). Para criar as pontas de pano que precisa, inseriu três buracos extras no

molde, como podemos ver a seguir, na Fotografia 18a, na página142.

A explicação das rendeiras para a substituição dos pontos envolve não só a necessidade de variar as peças que produzem, mas principalmente o desejo de simplificar os padrões de modo a acelerar sua execução. Quando perguntei a Jucicléia sobre a mudança em seu papelão, ela argumentou que, daquela maneira, era mais rápido de fazer. Além de reduzir o tempo de produção de cada peça, busca-se diminuir o gasto de linha, matéria-prima cuja compra é bastante onerosa para as rendeiras. Nesse sentido, padrões muito complexos ou trabalhosos tendem a ser simplificados, visando tanto a aceleração da produção, quanto a diminuição do seu custo. Os padrões com excesso de traças são especialmente relevantes nesse sentido, pois apesar de serem considerados bonitos pelas rendeiras comem muita linha.

De maneira análoga, os moldes originalmente pinicados com motivos florais de grandes dimensões, cujas pétalas (formada pelas traças) também são volumosas, costumam ser reduzidas. É interessante notar que as diferentes opções de flores seguem escalas próprias e, assim, ocupam espaços distintos da grade sobre a qual os buracos se distribuem. Nesse sentido, as composições feitas com traças seguem uma proporcionalidade. Quanto maior a flor, mais largas e compridas serão suas pétalas e, consequentemente, mais linha comerão. A depender da sua dimensão e do modo como as traças se organizam, recebem nomes distintos. Desse modo, as margaridas tem um centro formado de trocado (ou tranças) com traças ao redor, ao passo que

(a) Detalhe da modificação. Nota-se que Jucicléia inseriu três buracos ao lado direito da rosa de traças, seguindo as diagonais existentes.

(b) Faixa de pano em S passa sobre a

rosa de traças definida pelo molde.

Fotografia 18 – Transformações no papelão.

nas rosas as traças são menores e se encontram em um mesmo buraco central. Ao substituir flores maiores por menores, a intenção das rendeiras também é diminuir o tempo de execução e a quantidade de linha utilizada.

(b) Margarida.

(c) Rosa.

(d) Rosinha.

Figura 18 – Diferentes escalas das flores de traças.

Os diagramas da Figura 18 destacam que tais possibilidades de alteração vinculam-se à grade diagonal sobre a qual os furos dos moldes são distribuídos, que permitem substituir as margaridas por rosas. Além disso, é possível verificar como as traças das flores menores ocupam espaços mais reduzidos e, assim, demandam menos tempo de confecção e linha. A principal diferença entre cada uma das flores ilustradas, além dos aspectos produtivos mencionados, refere-se ao padrão que será constituído na trama final e ao aspecto estético da peça.