2.3 V ARME
2.3.3 Varme i bygg
Anteriormente, ao descrever a recuperação do tempo por si mesmo, Merleau-Ponty só conseguia tratar o futuro como um passado quando acrescentava um passado por vir, e só conseguia tratar o passado como um porvir quando acrescentava um porvir já advindo. Ou
seja, no momento de nivelar o tempo, Merleau-Ponty precisava “afirmar novamente a
originalidade de cada perspectiva e fundar essa quase-eternidade no acontecimento”
(MERLEAU-PONTY, 2011, p. 567). Agora, Merleau-Ponty pode afirmar que a própria passagem do tempo é aquilo que não passa no tempo:
O tempo se recomeça: ontem, hoje, amanhã, esse ritmo cíclico, essa forma constante pode-nos dar a ilusão de possuí-lo por inteiro de uma só vez, assim como o jato d’água nos dá um sentimento de eternidade. Mas a generalidade é apenas um atributo secundário do tempo e só dá dele uma visão inautêntica, já que não podemos nem mesmo conceber um ciclo sem distinguir temporalmente o ponto de chegada e o ponto de partida. O sentimento de eternidade é hipócrita, a eternidade se alimenta do tempo. O jato d’água só permanece o mesmo pelo ímpeto continuado da água. A eternidade é o tempo do sonho, e o sonho reenvia à vigília, à qual ele toma de empréstimo todas as suas estruturas (MERLEAU-PONTY, 2011, pp. 567-568).
Mas então quando é o tempo desperto no qual a eternidade se enraíza? – pergunta
Merleau-Ponty, ao que responde que esse tempo “é o campo de presença no sentido amplo,
com seu duplo horizonte de passado e de porvir originários e a infinidade aberta dos campos de presença findos ou possíveis” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 568). Merleau-Ponty afirma, portanto, um privilégio do presente:
Só existe tempo para mim porque estou situado nele, [...] porque um setor do ser me é tão próximo, que ele nem mesmo se expõe diante de mim e não posso vê-lo, assim como não posso ver meu rosto. Existe tempo para mim porque tenho um presente. É vindo ao presente que um momento do tempo adquire a individualidade indelével, o “de uma vez por todas” que lhe permitirão em seguida atravessar o tempo e nos darão a ilusão da eternidade. Nenhuma das dimensões do tempo pode ser deduzida das outras. Mas o presente (no sentido amplo, com seus horizontes de passado e de porvir originários) tem todavia um privilégio porque ele é a zona em que o ser e a consciência coincidem (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 568).
De acordo com Merleau-Ponty, quando nos recordamos de uma percepção antiga, visamos o próprio passado em seu lugar, mas esse ato de representação está efetivamente presente: ele é percebido, diferentemente das experiências representadas, que são apenas representadas. “Uma experiência antiga, uma experiência eventual precisam, para me aparecer, ser trazidas ao ser por uma consciência primária, que é aqui minha percepção
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interior da rememoração ou da imaginação” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 568), diz Merleau-Ponty, que havia dito anteriormente que era necessário chegarmos a uma consciência que não tivesse nenhuma outra consciência atrás de si e que apreendesse seu próprio ser, e em que ser e ser consciente fossem uma e a mesma coisa. “Esta consciência última não é um sujeito eterno que se aperceba em uma transparência absoluta, pois um tal sujeito seria definitivamente incapaz de decair no tempo e não teria portanto nada de comum com nossa
experiência – ela é a consciência do presente” (MERLEAU-PONTY, 2011, pp. 568-569); no
presente, na percepção, nosso ser e nossa consciência são um e o mesmo. Mas isso não quer dizer que nosso ser se reduza ao conhecimento que temos dele e que esteja disposto de maneira clara diante de nós: a percepção é opaca. Abaixo daquilo que conhecemos, ela põe em questão nossos campos sensoriais e nossas cumplicidades primitivas com o mundo. Entretanto, isso acontece porque aqui “ter consciência” significa “ser em...” e porque nossa consciência de existir se confunde com o gesto efetivo de “ex-situação” (Cf. MERLEAU- PONTY, 2011, p. 569). Portanto, é ao nos comunicarmos com o mundo que “indubitavelmente nos comunicamos com nós mesmos. Nós temos o tempo por inteiro e estamos presentes a nós mesmos porque estamos presentes no mundo” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 569).
Conforme Robert, Merleau-Ponty entende que o sujeito permanece temporal e essa temporalidade tem raízes na vida, é a própria vida, se vive, e não significa permanecer prisioneiro de um presente fechado, mas reter os momentos agora passados e, pouco a pouco, todos os momentos passados, nas retenções de retenções (Cf. ROBERT, 2005, p. 124). Assim, é no meu presente que eu retenho os presentes, mas isso não significa uma justaposição de presentes, pois, se fosse assim, eu não reteria o presente enquanto tal, assim como sequer reteria o passado: reter o passado é mantê-lo presente, mas como modificado, ou seja, reter é “ter à distância” (Cf. ROBERT, 2005, p. 124). Essa retenção no presente, segundo Robert, é a vida mesma, é o que Husserl chama de Presente vivo, é o que faz “a coesão de uma vida”. Novamente, a “síntese” do tempo, como diz Merleau-Ponty, é uma síntese de transição, é o movimento de uma vida que se desdobra, não havendo outra maneira de efetuá-lo senão vivendo essa vida, e não há lugar do tempo, pois é o tempo que se transporta e se lança
novamente a si mesmo (Cf. ROBERT, 2005, p. 124). “Não é a consciência, mas o tempo ele
mesmo em sua maneira de passar, quer dizer, de [se] abrir sempre àquilo que ele não é, [àquilo de] que é constituinte” (ROBERT, 2005, p. 124). Esse é, conforme Robert, o sentido da copresença das dimensões do tempo, que só são o que são na medida em que se abrem
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àquilo que elas não são, ou seja, na medida em que passam a outra coisa que elas mesmas. É isso o que a estrutura retencional-protensional e ek-stática do tempo nos faz compreender. Nessa compreensão do tempo como vida, prova viva do tempo como passagem, Merleau- Ponty privilegia o presente, aproximando-se mais de Husserl do que de Heidegger (Cf. ROBERT, 2005, p. 124) e nela o presente é então o tempo da percepção, do corpo, mas também a zona onde o ser e a consciência coincidem, e, para Robert, Merleau-Ponty estaria agora retornando a um certo idealismo husserliano, com uma tal retração repousando no privilégio afirmado da percepção, tanto em Husserl como em Merleau-Ponty, privilégio solidário de um Ser como Presentação (Cf. ROBERT, 2005, p. 125). Trata-se, com efeito, da percepção quando se põe essa explicação do privilégio do presente, mas não mais apenas da percepção exterior, mas também da percepção interior, “que é aquela do meu próprio vivido,
de percepção ou de representação” (ROBERT, 2005, p. 125). Robert entende que ao distinguir
a percepção de meu ato de representação, a percepção de minha recordação ou minha
imaginação, Merleau-Ponty “retoma a distinção husserliana entre a percepção, que dá em
pessoa o presente, e a rememoração, ou seja, a recordação secundária, que somente representa” (ROBERT, 2005, p. 125). Para Robert, Merleau-Ponty conserva disso o privilégio que se deve conferir ao presente, pois o presente é o próprio tempo da percepção e é também o tempo do vivido, “vivido que me é dado em uma percepção interior” (ROBERT, 2005, p. 125). Merleau-Ponty diz, segundo Robert, que uma experiência antiga ou eventual precisa aparecer para mim como sendo trazida ao ser por uma consciência primária, que é minha percepção interior da rememoração ou da imaginação, mas ainda é necessário que uma tal consciência sem tempo possa fazer a experiência do tempo, possa ela mesma viver uma experiência, sem que sejamos reconduzidos à ideia de uma consciência absoluta e eterna, sem tempo, zeitlos. Essa consciência pode até ser última e não supor nenhuma outra consciência a situá-la no tempo, mas Robert alerta que em Merleau-Ponty, diferentemente de Husserl, ela não é absoluta: “como consciência que é fundamentalmente consciência perceptiva, ela é presente a si mesma como sendo presente ao mundo” (ROBERT, 2005, pp. 125-126) e, assim, o que impede Merleau-Ponty de se juntar a Husserl no pensamento de um fluxo absoluto da consciência e na ideia de uma subjetividade absoluta são suas próprias análises da consciência perceptiva, pensada como presença do sujeito ao mundo, como ser no mundo do sujeito (Cf. ROBERT, 2005, p. 126). Dessa maneira, “consciência, percepção, ser e presente reenviam
assim uns aos outros, mas essa consciência não é em nada aquela de um sujeito puro”
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pensar a consciência como inserida no mundo, ou seja, como existência. Robert considera que Merleau-Ponty se distancia de Husserl a partir de uma leitura existencialista de Heidegger, na qual “ter consciência” é “ser em...” e a consciência de existir se confunde com o gesto efetivo de ex-istência (Cf. ROBERT, 2005, p. 126) e, assim, o que permite que retenhamos o tempo em nós é a presença do sujeito ao mundo, que é, para Merleau-Ponty, a condição da presença a si, o que significa, para o sujeito, ex-istir. O que Merleau-Ponty deve a Heidegger nessa passagem e o que ele não cessará de aprofundar é a consideração do mundo como meio da existência (Cf. ROBERT, 2005, p. 126).