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3.1 F ELTFORSØK

3.1.2 Instrumentering av testhus

Merleau-Ponty frisa que em A estrutura do comportamento tratava-se de “compreender as relações entre a consciência e a natureza, entre o interior e o exterior”

(MERLEAU-PONTY, 2011, p. 574), que se tratava de unir a perspectiva idealista, “segundo a

qual nada é senão como objeto para a consciência” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 574), e a perspectiva realista, “segundo a qual as consciências estão inseridas no tecido do mundo objetivo e dos acontecimentos em si” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 574), ou então tratava- se de saber como o mundo e o homem eram acessíveis às investigações reflexivas e às explicativas. No livro citado, Merleau-Ponty, como vimos, formulou esses problemas clássicos de modo a mostrar que a questão, em última instância, é a de compreender qual é a

relação entre o sentido e o não-sentido, ou seja, a pergunta a ser feita é: “aquilo que existe de

sentido no mundo é produzido pela reunião ou pelo encontro de fatos independentes, ou então, ao contrário, seria a expressão de uma razão absoluta”? (MERLEAU-PONTY, 2011, p.

574). O idealismo admite que toda significação é “centrífuga”, que é um ato de significação e

que não existe signo natural (Cf. MERLEAU-PONTY, 2011, p. 574). A coisa seria apenas uma significação, a significação “coisa”, mas Merleau-Ponty entende que, quando compreendemos uma coisa, não operamos atualmente a síntese dela, nós vamos ao encontro

dela com nossos campos sensoriais, nosso campo perceptivo e “com uma típica de todo ser

possível, uma montagem universal a respeito do mundo” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 575). No fundo do próprio sujeito, Merleau-Ponty descobre a presença do mundo, de modo que o sujeito deve agora ser compreendido como ek-stase. Merleau-Ponty descobrira também que toda operação ativa de significação ou Sinn-gebung aparece como derivada e secundária em relação à “pregnância da significação nos signos que poderia definir o mundo” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 575). Dessa maneira, sob a intencionalidade de ato, ou tética, Merleau-Ponty encontra, como condição de possibilidade e fundamento desta, uma

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“intencionalidade operante”, um “Logos do mundo estético18” (em nota, Merleau-Ponty diz

que se trata de “estético” no sentido da Estética transcendental), que opera antes de qualquer

tese ou juízo, que é uma “arte” e que, como toda arte, só é conhecido por meio de seus resultados. De agora em diante, se esclarece a distinção feita em A estrutura do

comportamento entre estrutura e significação:

[...] o que faz a diferença entre a Gestalt do círculo e a significação círculo é que a segunda é reconhecida por um entendimento que a engendra como lugar dos pontos equidistantes de um centro, a primeira por um sujeito familiar ao seu mundo e capaz de apreendê-la como uma modulação deste mundo, como fisionomia circular. Não temos outra maneira de saber o que é um quadro ou uma coisa senão olhá-los, e a

significação deles só se revela se nós os olhamos de um certo ponto de vista, de uma

certa distância e em um certo sentido; em uma palavra, se colocamos nossa conivência com o mundo a serviço do espetáculo (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 575).

Merleau-Ponty mostra então várias aplicações da palavra “sentido” (sentido de um

córrego, sentido de um tecido, sentido de uma frase...) e diz que, em todas as suas acepções, essa palavra nos faz reconhecer “a mesma noção fundamental de um ser orientado ou polarizado em direção àquilo que ele não é, e assim sempre somos levados à concepção do sujeito como ek-stase e a uma relação de transparência ativa entre o sujeito e o mundo” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 576). O mundo é inseparável do sujeito, mas de um sujeito que nada mais é do que projeto do mundo, porém de um mundo que ele mesmo projeta. O

sujeito é ser-no-mundo e, ao mesmo tempo, o mundo permanece “subjetivo”, pois sua textura

18 Segundo Moura, o “Logos estético” é a supressão do modelo da comunicação, que permite a Merleau-Ponty

caracterizar a relação entre expressão e exprimido como uma relação de Fundierung, uma vez que “era exatamente esse o conceito que Husserl utilizava para comentar a unidade de um todo formado por partes não- independentes, em oposição a um todo ‘por agregação’” (MOURA, 2001, p. 268). No todo por agregação, afirma Moura, as partes são separáveis e não se exigem, conservando sua independência recíproca. Por isso elas pedem, para formar o todo, um “momento exterior que lhes dê unidade” e, ainda que se possa determinar um momento próprio que unifique as partes em um todo, elas serão partes independentes umas das outras, de modo que, em face de tais “todos por agregação”, existem os “todos autênticos”, nos quais as partes são heterogêneas, porém inseparáveis e estão em relação de Fundierung. Aqui, afirma Moura, elas formam um todo “sem socorro exterior que as unifique” (MOURA, 2001, p. 269), pois a unificação é mais íntima, porque não é mediatizada: o enlace entre as partes não é trazido por um outro conteúdo que seja responsável por produzir a unidade em membros que, em si mesmos, são inseparáveis. A Fundierung, segundo Moura, é, portanto, o “enlace necessário” de conteúdos que “se exigem”, mesmo não estando analiticamente contidos uns nos outros, de maneira que a unificação operada por ela remete ao “a priori sintético” e “comenta a necessidade rígida de um enlace entre partes que jamais poderão ser independentes umas das outras” (MOURA, 2001, p. 269). Para Moura, essa relação de expressão permitirá, entre as “verdades de fato” e as “verdades de razão”, alojar o “a priori material” no mundo, e o mundo do “grande racionalismo”, que ainda era um “todo por agregação”, se torna um novo mundo, tecido pelo “a priori sintético”, sendo “necessariamente que a alma se liga ao corpo, [...] necessariamente que o sensível se relaciona ao inteligível, [...] necessariamente que a aparência remete à essência...” (MOURA, 2001, p. 269). Assim, Moura conclui que o Lebenswelt no qual estamos instalados é, certamente, “indeterminado”, mas a “consciência ingênua” pode saber que, “na costura desse mundo, não haverá mais lugar para a contingência e que, afinal, ‘senso comum’ será apenas o outro nome de ‘Razão’” (MOURA, 2001, p. 269).

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e articulações são desenhadas pela transcendência do sujeito (Cf. MERLEAU-PONTY, 2011, p. 576). O mundo enquanto “berço das significações, sentido de todos os sentidos e solo de todos os pensamentos” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 576) permite o ultrapassamento da alternativa entre realismo e idealismo, acaso e razão absoluta, sentido e não-sentido (Cf. MERLEAU-PONTY, 2011, p. 576), pois ele não é mais o desdobramento de um Pensamento constituinte nem uma reunião fortuita de partes: ele é “unidade primordial de todas as nossas experiências no horizonte de nossa vida [...], a pátria de toda racionalidade” (MERLEAU- PONTY, 2011, p. 576, grifo nosso). A primeira coisa que a análise do tempo confirmou foi essa nova noção do sentido e do compreender: o tempo só tem sentido para nós porque nós “o somos”, e só podemos dizer isso do tempo porque nós estamos no passado, no presente e no

porvir. O tempo é literalmente o sentido de nossa vida “e, assim como o mundo, só é acessível

àquele que está situado nele e esposa sua direção” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 577). A análise do tempo faz sujeito e objeto aparecerem como dois momentos abstratos de uma única estrutura, que é a presença (Cf. MERLEAU-PONTY, 2011, p. 577), e, Merleau-Ponty ainda afirma, “é pelo tempo que pensamos o ser, porque é pelas relações entre o tempo sujeito e o tempo objeto que podemos compreender as relações entre o sujeito e o mundo” (MERLEAU- PONTY, 2011, p. 577). Assim, a ideia da subjetividade como temporalidade resolve o problema das relações entre corpo e alma:

[...] era uma tentativa sem esperança ligar o para si a um certo objeto em si do qual ele deveria sofrer a operação causal. Mas se o para si, a revelação de si a si, não é senão o vazio no qual o tempo se faz, e se o mundo “em si” não é senão o horizonte de meu presente, então o problema redunda em saber como um ser que é por vir e passado também tem um presente – quer dizer, o problema se suprime, o passado e o presente estão ligados no movimento de temporalização (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 577).