O grupo focal é um recurso metodológico bastante usado em pesquisas no campo da psicologia social, enfaticamente, em pesquisas de Representação Social, viabilizando uma análise mais aprofundada das produções discursivas.
Essa técnica consiste na formação de um grupo com pessoas selecionadas e reunidas pelo pesquisador, no intuito de discutir um tema, que é o objeto de pesquisa. Leva-se em conta a experiência pessoal dos sujeitos participantes, entre os quais deve haver um “traço comum” que os qualifique para a discussão da questão que será o foco da pesquisa (GATTI, 2005).
O trabalho com grupo focal pode trazer bons esclarecimentos em relação a situações complexas, polêmicas, contraditórias [...]; ajuda a ir além das respostas simplistas ou simplificadas, além das racionalizações tipificantes e dos esquemas explicativos superficiais. O grupo tem uma sinergia própria, que faz emergir idéias diferentes das opiniões particulares. Há uma reelaboração de questões que é próprias do trabalho particular do grupo mediante as trocas, os reasseguramentos mútuos, os consensos, os dissensos, e que trazem luz sobre aspectos não detectáveis ou não reveláveis em outras condições (GATTI, 2005, p. 14).
Tem-se como objetivo, através desse método, captar representações, sentimentos, valores, experiências, saberes, de um modo que não seria possível com outros métodos (GATTI, 2005).
Com base no exposto acima, justifica-se o uso desse método no presente trabalho, uma vez que o TDAH e sua representação no contexto escolar encontram-se num campo polêmico, de construções complexas e contraditórias.
A formação do grupo focal se deu por meio de um convite feito por contato telefônico. As cinco professoras entrevistadas foram convidadas, sendo que, no primeiro encontro compareceram três delas e, no segundo, uma, dessas três, compareceu. Aliás, essa professora
participou de todo o processo, do início ao fim da pesquisa empírica, não sendo possível deixar de perceber sua contribuição, realmente significativa. Ela manteve-se numa postura política, crítica e motivada não somente pela questão em foco, mas pelas questões educacionais como um todo.
Além das professoras entrevistadas, foram convidadas mais sete, num total de 12 professoras.
No primeiro encontro, compareceram sete professoras no meu consultório particular, na hora e data discutidas e, consensualmente, escolhidas por elas, devido à disponibilidade de tempo – algo sempre queixado pelos professores.
A escolha do local foi justificada por se tratar de um espaço central e livre de interferências externas. O transporte das professoras era financiado por mim e isso era comunicado a elas no momento do convite. Ao convidá-las, eu as orientava também sobre o tempo de cada encontro, aproximadamente uma hora, e sobre o número de encontros, no máximo três.
Os sujeitos participantes possuíam, como “traço comum”, a experiência de trabalhar com crianças diagnosticadas como portadoras de TDAH.
O local das conversações foi organizado numa disposição em círculo, a fim de favorecer a interação entre os participantes.
Foi elaborado um roteiro40 como forma de orientar e estimular a discussão, permitindo ao grupo, assim, flexibilidade e liberdade na conversação, sem perder de vista os objetivos da pesquisa.
Esse roteiro consistiu de questões que mediariam a discussão do grupo, sem enrijecê- la. Essas questões focavam os três pontos investigados ao longo de todo o processo da pesquisa empírica: 1) as representações dos educadores sobre o TDAH, enfatizando o conceito; 2) o diagnóstico e os sintomas do TDAH, enfatizando o discurso médico; 3) as soluções dos educadores, enfatizando a implicação e a construção do educador.
As conversações fluíram livremente e em torno do problema. Os participantes foram colocando suas idéias, seus sentimentos, suas experiências profissionais e pessoais, suas críticas e suas crenças. E, nesse entrelaçar de discursos, foram se formando concepções coletivamente engendradas. Os significados para as questões levantadas eram construídos através de consensos e de contradições de idéias.
Para Wolfgang Wagner (1998, p. 10), “a representação social como processo só pode ocorrer em grupos e sociedades onde o discurso social inclui a comunicação tanto de pontos de vista compartilhados, quanto divergentes sobre muitos assuntos”.
O grupo focal, por via da atualização de discursos e de conversas cotidianas, torna-se um método quase natural para o estudo da construção das Representações Sociais ou do conhecimento social. Nesse processo, o grupo transforma-se em um instrumento que reconstrói opiniões individuais (FLICK, 2004). Numa perspectiva de reconstrução mútua entre sujeito e grupo, remetemos ao conceito de “sujeito ativo”, aquele que constrói o mundo com materiais oferecidos pelo social (HERZLICH, 2005).
Nesse contexto de produção, o grupo se constituiu, assim como cada sujeito nele inserido, inclusive o pesquisador. Como coordenadora do grupo, através de encaminhamentos e de intervenções feitos para facilitar as trocas e focar a pesquisa, eu acabava por influir nas conversações e na produção dos significados do grupo. Também o grupo, através de seus discursos e motivações, influía em minhas colocações.
Na posição de coordenadora, eu procurava colaborar, esclarecendo pontos que se transformavam em estímulos para a discussão, esforçando-me sempre para manter a minha posição de “não saber”, que propiciava a autonomia do grupo na confecção de saberes.
O segundo encontro do grupo contou com a participação de cinco professoras, que estavam presentes também no primeiro encontro. Esse segundo momento iniciou-se com a apresentação dos critérios do DSM-IV para o diagnóstico do TDAH, que aconteceu devido a uma demanda do grupo, fruto das discussões e polêmicas ocorridas no encontro anterior. Assim, prosseguiram as discussões, sendo respondidas as questões levantadas até se chegar a um acúmulo de significados e idéias que se mostrou satisfatório frente aos propósitos da pesquisa.
A adesão dos participantes do grupo foi inteiramente voluntária, assim ocorrendo devido ao interesse das professoras pelo tema e do desejo de colaborar com a pesquisa. Porém, percebeu-se que esse grupo era composto de sujeitos atentos a muitas outras questões educacionais, o que o configurava como um todo participativo, crítico e não-alienado. Essa caracterização do grupo talvez seja a justificativa pelo interesse voluntário de participação e colaboração com a pesquisa.
O grupo focal foi utilizado como um recurso metodológico de fechamento do processo de pesquisa. Esse processo iniciou-se pelas propriedades quantitativas da representação, através da técnica de evocação livre e prosseguiu no intuito de investigar as propriedades
qualitativas de tal representação, através do aprofundamento no discurso dos sujeitos envolvidos.
Pretendendo investigar o “valor simbólico” e o “poder associativo” de conceitos e discursos, recorreu-se às entrevistas e, particularmente, ao grupo focal. São esses atributos qualitativos dos conceitos e discursos que permitem a esses últimos enlaçarem ao objeto da representação (MOLINER, 1994a, citado por SÁ, 1996)41.
Nesse sentido, o grupo focal serviu, para o presente estudo, como instrumento de amarração ou de afunilamento dos resultados que emergiram ao longo do processo da pesquisa.
Através do grupo focal, reproduziu-se um espaço de interação e discussão, que remetia ao espaço escolar. Mesmo o grupo não estando fisicamente neste espaço, ele encontrava-se imerso em suas questões e problemáticas, em seus discursos e jargões, em suas motivações conscientes e inconscientes. Toda essa produção convergiu em respostas ao problema da pesquisa.
Os dois encontros do grupo focal e todas as entrevistas foram gravados em MP3- player e transcritos. Não foram feitas anotações durante esses eventos, porém, logo após eles acontecerem, era ouvida a gravação e registravam-se algumas observações. De posse do material gravado e transcrito, prosseguiu-se com a análise e interpretação dos resultados da pesquisa.