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2. VARIABLE IMPORTANCE IN A PREDICTION OF THE GOLD PRICE

2.3 E MPIRICAL RESULTS

2.3.1 Variable importance

Ducrot (1987) dedica, em seus trabalhos, bastante atenção aos conceitos de “locutor”, “sujeito falante” e “enunciador” (doravante sem aspas). Ele define locutor como aquele responsável pelo enunciado: “um ser que, no próprio sentido do enunciado, é apresentado como seu responsável” (p. 193). Por sujeito falante, o ser empírico, o indivíduo: “o autor empírico do enunciado, seu produtor” (p. 194). Nesta tese, o sujeito falante é tratado como locutor (ou relator); no caso, o então deputado federal Lindberg Farias.

Ducrot (1987, p. 208) também faz a distinção entre locutor e enunciador. Se o locutor é aquele que apresenta o discurso ao interlocutor, o enunciador é o responsável pelo conteúdo expresso no discurso: aquele que determina o ponto de vista pelo qual “os acontecimentos são apresentados”.

Em seus trabalhos de investigação sobre a linguagem, Ducrot faz essas distinções conceituais a partir, sobretudo, da “polifonia da linguagem” de origem bakhtiniana. Na análise de enunciados, é possível identificar várias vozes (polifonia) que coabitam o mesmo ato ilocutório62. Todavia, a existência da polifonia, segundo Ducrot, estaria condicionada à possibilidade de se fazer a diferenciação entre o locutor e o enunciador. Com isso Ducrot (1987) busca estabelecer uma separação entre os conceitos de enunciador e de locutor, distinguindo o locutor do sujeito falante empírico, e o locutor do enunciador. Esse autor assevera que, do mesmo modo que há, em literatura, uma diferença entre “narrador” e “autor”, existem também entre locutor e sujeito falante empírico. Reformulando, enquanto o locutor é um ser discursivo, ou seja, concernente ao sentido do enunciado, o sujeito falante empírico, o produtor real do discurso. Identificando estes conceitos no Relatório, dizemos que o sujeito falante empírico, Lindberg Farias, faz funcionar em seu Relatório um locutor, um ser discursivo, que será o responsável por situar o leitor na cena enunciativa63. Trabalharemos adiante essa questão.

62

Ducrot e Todorov (1988, p. 304) afirmam que, segundo Austin, quando se enuncia uma frase, realizam-se três atos:

Um ato LOCUTÓRIO, na medida em que se articulam e combinam sons, na medida também em que se evocam e se ligam sintaticamente as noções representadas pelas palavras.

Um ato ILOCUTÓRIO, na medida em que a enunciação da frase constitui em si mesmo um certo ato (uma certa transformação das relações entre os interlocutores). (...) Austin quer dizer, sobretudo, que o ato ilocutório não é a conseqüência, lógica ou psicológica, do conteúdo intelectual expresso na frase pronunciada, e que ele só se realiza pela existência de uma espécie de cerimonial social, que atribui a tal fórmula, empregada por tal pessoa, em tais circunstâncias, um valor particular. Um ato PERLOCUTÓRIO, na medida em que a enunciação serve a fins mais remotos, e que o interlocutor pode muito bem não compreender apesar de dominar perfeitamente a língua.

63 Amparando-nos em Maingueneau (2006), a expressão “cena enunciativa”

serve para designar o contexto situacional de uma dada enunciação verbal. Nas palavras do autor (MAINGUENEAU: 2006, p. 95), no verbete “cena de enunciação”, encontramos uma definição que nos satisfaz: “Noção que, em análise do discurso, é frequentemente empregada em concorrência com a de “situação de comunicação”. Mas, ao falar de “cena de enunciação”, acentua-se o fato de que a enunciação acontece em um espaço instituído, definido pelo gênero de discurso, mas também sobre a dimensão construtiva do discurso, que se “coloca em cena”, instaura seu próprio espaço de enunciação”.

Por sua vez, o enunciador seria distinto tanto do locutor como do sujeito falante, uma vez que ele é caracterizado como figura da enunciação que representa a pessoa da qual os acontecimentos são apresentados. A origem dos postulados de Ducrot encontra-se em trabalhos de Benveniste (1976), quando este defende que um EU, enquanto lócus de enunciação, aponta para um TU ao qual ele se dirige e fala de um ELE. A respeito desse assunto, Maingueneau afirma (2006, p. 198):

A fórmula célebre de Benveniste (1966: 252) “Eu significa ‘a pessoa que enuncia a instância presente de discurso que contém eu’ suscitou leituras distintas: (1) uma leitura que focaliza o referente desse eu; “enunciador” é empregado, assim, de maneira bastante frouxa como um equivalente de “locutor”, para designar o produtor do enunciado, sem especificação suplementar; (2) uma leitura que apreende o enunciador unicamente como instância – da qual eu é o traço – implicada pelo ato de enunciação (na medida mesma em que se realiza) e que não tem existência independentemente desse ato.

Segundo o mesmo autor, essa distinção é trabalhada por Ducrot, a partir do par Locutor-L e Locutor-λ, inscrito nos conceitos de sujeito falante, locutor e enunciador, conforme já mencionamos.

Do ponto de vista discurso, porém, é preciso fazer, para sermos coerentes com nossa proposta de trabalho, uma ressalva às idéias de Ducrot. Ao elaborar sua teoria polifônica, baseado particularmente nos trabalhos de Bakhtin (1992), Ducrot acaba por excluir a noção de “historicidade” do texto, como, por sinal, já era preconizado por Bakhtin, reduzindo ao momento da realização do enunciado:

A realização de um enunciado é um acontecimento histórico: é dado existência a alguma coisa que não existia antes de se falar e que não existirá mais depois. É esta aparição momentânea que chamo ‘enunciação’ (DUCROT: 1987, p. 168).

Charaudeau (apud Charaudeau; Maingueneau: 2005) faz uma outra releitura desses conceitos bakthinianos, benvenistianos e drucrotianos. Para ele, o locutor precisa, sim, ser diferenciado do enunciador - “sujeito que aparece na encenação enunciativa” (ibidem, p. 311), mas em uma relação, ignorada tanto por Benveniste quanto por Ducrot, de exterioridade/interioridade. Para o autor, que propõe “um modelo de comunicação com dois espaços, interno e externo, o locutor é um dos parceiros externos ao ato de enunciação, o sujeito comunicante, que toma posse da palavra, em que se situa o projeto da fala” (ibidem, p. 311. Destaque do autor.).

Estamos considerando locutor a partir dessa premissa charaudeana. A respeito do interlocutor, afirma: “Simetricamente, o interlocutor (ou sujeito interpretante) é o outro parceiro, o receptor, o que recebe e interpreta o ato de comunicação que lhe é endereçado” (2005, p. 311). Sobre enunciador, considera: “Por oposição, o enunciador é o ser de fala que está presente (ainda que se apagando) nos enunciados produzidos” (2005, p. 311).

A título de exemplificação, tracemos um panorama das estratégias argumentavas empregadas pelo relator na construção de seu Relatório.

5.2.2.2 Locutor, enunciador, interlocutor: polifonia e discurso no