DEL 2 – TEORETISK FORANKRING
2.1 VAREHANDEL
Para construir seu conceito de estádio do espelho, Lacan baseou-se na experiência de Henry Wallon, chamada de “prova do espelho”, na qual esse último autor demonstra que uma criança distingue progressivamente seu corpo da imagem refletida do espelho graças a uma compreensão simbólica do espaço imaginário em que constitui sua unidade corporal. Dessa forma, o processo de conhecimento, ou seja, a tomada de consciência da realidade, possibilita a passagem do especular para o imaginário e do imaginário para o simbólico.
Para Lacan, o estádio do espelho vai além das observações de Henry Wallon: é uma tentativa de elaborar, essencialmente, uma teoria sobre a constituição do eu em sua dimensão de exterioridade, a qual imprime no sujeito a marca do desconhecimento inerente a sua história. O que é o estádio do espelho? Trata-se de “um drama cujo impulso precipita-se da insuficiência para a antecipação e para a armadura enfim assumida de uma identidade alienante, que marcará com sua estrutura rígida todo o seu desenvolvimento mental” (LACAN, 1949, p. 100).
Com a antecipação da imagem corporal, a criança, entre os seis e os dezoito meses de vida, no momento pré-especular, vê-se fragmentada, por sua prematuridade neurofisiológica, por isso, experimenta uma discordância em relação a suas funções. Capturada pelo engodo da identificação espacial no espelho, a criança fabrica fantasias, que vão desde uma imagem despedaçada do corpo até a forma da totalidade deste. Esse momento de reconhecimento da totalidade da imagem do corpo, chamada ortopédica, é observado pela assunção jubilatória da criança. Segundo Lispector (1998a, p. 71-72),
[...] Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem – esse alguém então percebeu o seu mistério de coisa. [...] Corpo da coisa.
A identificação com a imagem do semelhante e o drama do ciúme primordial inauguram a dialética que liga o eu a situações socialmente elaboradas. A conclusão do estádio do espelho é “que decisivamente faz todo o saber humano bascular para a mediatização pelo desejo do Outro” (LACAN, 1949, p. 101). O Outro é o lugar da alteridade absoluta, que necessita de representantes da representação, ou seja, de significantes, para permitir que o sujeito se localize e se oriente em relação ao seu desejo. Esse é o momento em que o humano constitui seus objetos e faz do eu “esse aparelho para o qual qualquer impulso dos instintos será um perigo, ainda que corresponda a uma maturação natural” (LACAN, 1949, p. 101).
A criança se identifica com a imagem do outro semelhante e, nessa primeira captação pela imagem, associada a um fenômeno de Gestalt visual de seu próprio corpo, se esboça o primeiro momento da “dialética das identificações”. O desamparo original da criança, dada a descoordenação de sua motricidade, é substituído por uma imago ideal, resultando numa ambivalência estrutural, expressa em reações de onipotência e ostentação.
A relação especular permite compreender a natureza da agressividade no homem e a relação com o eu e com os objetos. O eu se afigura marcado pela agressividade, que determina uma tensão interna no sujeito. Essa tensão advém do reconhecimento do desejo do homem como o desejo do Outro. É o caso da estrutura ligada à relação imaginária, denominada “paranóica”, em que o sujeito nega a si mesmo – “não sou nada do que me acontece” – e acusa o outro – “não és nada que tenha valor”. Logo, o eu é um outro marcado pelo desconhecimento e pela divisão.
O homem aprende a reconhecer seu corpo e seu desejo por intermédio do Outro, num movimento de báscula. Antes da linguagem, o desejo só existe no plano da relação imaginária, da alienação primordial; dessa forma, a única saída para o sujeito é o desejo do desaparecimento do outro semelhante, a destruição do outro como suporte do desejo do sujeito. Mas o mundo do símbolo permite a mediação do reconhecimento do desejo, permite que ele seja nomeado e retorne ao sujeito de forma verbalizada. Desse modo, o desejo “entra na relação simbólica do eu e do tu, numa relação de reconhecimento recíproco e de transcendência, na ordem de uma lei já inteiramente pronta para incluir a história de cada indivíduo” (LACAN, 1953-1954, p. 206).
O estádio do espelho é, portanto, “o encontro do sujeito com aquilo que é propriamente uma realidade e, ao mesmo tempo, não o é, ou seja, com uma imagem virtual que desempenha um papel decisivo numa certa cristalização do sujeito” (LACAN, 1957-
1958, p. 233). É isso que Lacan denomina Urbild originária, o primeiro domínio do eu que a criança realiza em sua experiência.
É baseado em sua concepção do estádio do espelho que Lacan retoma, no Seminário Os escritos técnicos de Freud (1953-1954), a concepção freudiana do narcisismo como processo secundário, para demarcar a origem imaginária da função do eu. Freud (1914, p. 93) ressalta que, na origem, não existe uma unidade comparável ao eu; é necessário acrescentar algo ao autoerotismo – “uma nova ação psíquica” – para dar forma ao narcisismo. A Urbild, unidade comparável ao eu, “se constitui num momento determinado da história do sujeito, a partir do qual o eu começa a assumir suas funções. Isso quer dizer que o eu humano se constitui sobre o fundamento da relação imaginária” (LACAN, 1953-1954, p. 137).
A dimensão imaginária da fantasia, o primeiro aspecto articulado por Lacan, corresponde, portanto, a tudo o que o sujeito pode produzir como imagem. Segundo Miller (2002, p. 112), a partir de sua leitura do Esquema L, a seguir, pode-se observar “como se situam todas as fantasias no que aí figura como relação a – ← a’, quer dizer, a dimensão imaginária”.
Figura 1 – Esquema L (LACAN, 1955-1956, p.22).