DEL 4 – DATAANALYSE
4.3 SPØRREUNDERSØKELSE
Há uma estrutura na angústia: esta é enquadrada exatamente como a fantasia. A função da janela é essencial para a construção da cena fantasmática, como se pode ver no sonho paradigmático do Homem dos lobos: “Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama. [...] De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. [...] Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e acordei” (FREUD, 1918 [1914], p. 45). No instante em que se abre a janela, na medida em que pode ser delimitado por uma borda, esse lugar marca o limite do mundo do reconhecimento: a cena.
Além da sensação duradoura de realidade que o sonho deixou após o despertar, dois fatores foram destacados pelo paciente: o olhar atento dos lobos, como se tivessem fixado toda a atenção sobre ele, e sua própria imobilidade diante desse olhar. Freud (1918 [1914], p. 52) observa que esse sonho se refere à cena primária, na qual “o olhar atento, que no sonho fora atribuído aos lobos, deveria, antes, ser atribuído a ele”. Por trás do conteúdo do sonho, existia provavelmente uma cena desconhecida, que ocorrera havia muito tempo.
A partir da análise feita por Freud do sonho do Homem dos Lobos, Lacan diz que a fantasia é como um quadro que vem colocar-se no enquadramento de uma janela através do qual se olha o mundo. Ele se refere ao momento do sonho do Homem dos Lobos em que a janela de repente se abre, mostrando os lobos em cima da árvore. Trata-se, nesse exemplo, de
uma fantasia pura, desvelada em sua estrutura. “Minha liberdade pequena e enquadrada me une à liberdade do mundo – mas o que é uma janela senão o ar emoldurado por esquadrias?” (LISPECTOR, 1998a, p. 24).
O sonho do Homem dos Lobos revela a relação da fantasia com o real. No escancarar repentino da janela, na hiância súbita, Lacan mostra a dupla vertente da fantasia, “vista além de um vidro, e por uma janela que se abre. A fantasia é enquadrada” (1962-1963, p. 85). A função da tela no quadro é inerente à estrutura da fantasia: por um lado, oculta o desejo do Outro, mas, por outro, o revela. A moldura da janela é o objeto a. “Pela janela do quarto/Pela janela do carro/Pela tela, pela janela/Quem é ela? Quem é ela? Eu vejo tudo enquadrado/Remoto controle...” (composição: Belchior).
O que é visto além tem a mesma estrutura do esquema óptico. Segundo Lacan, “um espelho não se estende até o infinito, tem limites [...] permite ao sujeito ver um ponto situado no espaço que não lhe é diretamente perceptível. Mas não vejo forçosamente a mim mesmo, ou a meu olho no espelho” (LACAN, 1962-1963, p. 85).
Como se pode ver, no sonho do Homem dos Lobos o fenômeno do Unheimlich revela de súbito, através da fresta da janela, aquilo que no mundo não se pode dizer: o olhar que no sonho foi atribuído aos lobos é o próprio olhar do sonhador na cara dos lobos; ou seja, a angústia é o que olha. O surgimento do Unheimlich constitui o enquadramento da angústia; é por isso “que constitui um erro dizer que a angústia é sem objeto” (LACAN, 1962-1963, p. 87).
A referência ao real – encontro do real – no exemplo do Homem dos Lobos ganha importância na medida em que mostra que é “em relação ao real que funciona o plano da fantasia. O real suporta a fantasia, e a fantasia protege o real” (LACAN, 1964, p. 43-44). O encontro com o real é essencialmente faltoso: ele se apresenta na forma do trauma, no que há de inassimilável. Essa experiência traumática insiste em se fazer lembrar e aparece, muitas vezes, de forma desvelada.
4.3.1 O quadro da fantasia
Figura 11 – Quadro “A condição humana”, de René Magritte
O quadro acima mostra uma pintura dentro de outra pintura. Essa pintura suspensa num cavalete pode não representar o que há atrás dele: ela impede de se olhar o que poderia estar por trás daquele quadro, atrás daquela janela – o mundo dito real. Esse quadro “desvela a fantasia na janela que se abre na paisagem da realidade do sujeito” (QUINET, 2002, p. 162). Assim, a janela é o plano do sujeito no qual ele constitui o quadro da fantasia: “de um lado, o mundo, o lugar onde o real se comprime, e, do outro lado, a cena do Outro, onde o homem como sujeito tem de se constituir, tem de assumir um lugar como portador da fala, mas só pode posta-la numa estrutura que, por mais verídica que se afirme, é uma estrutura de ficção” (LACAN, 1962-1963, p. 130).
No seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), Lacan inaugura sua teoria do quadro como “armadilha do olhar”. A visão geometral situa-se em outro lugar, num espaço que não é, em sua essência, o visual. Nesse sentido, essa dimensão geometral “permite entrever como o sujeito que nos interessa é preso, manobrado, captado, no campo da visão” (p. 91).
O quadro sempre manifesta algo do olhar. O pintor convida o expectador a depor ali seu olhar, e este participa ativamente do processo criador. Nesse sentido, o sujeito vê e é visto pelo quadro e, dessa forma, tem que discernir entre ele mesmo como tal e o logro da dialética do olho e do olhar. “O sujeito se apresenta como o que ele não é e o que se dá a ver não é o que ele quer ver. É por isso que o olho pode funcionar como objeto a, quer dizer, no nível da falta (-φ)” (LACAN, 1964, p. 102).
No seminário O objeto da psicanálise (1965-1966) Lacan retoma, com As
Meninas de Velásquez, a teoria do quadro como “armadilha do olhar” – o olhar
fundamentalmente distinto da visão. A geometria perspectiva, segundo Quinet (2002, p. 152), “permite mostrar, através do conceito de quadro, a estrutura visual da fantasia na qual o sujeito é dividido entre o ver e ser visto – e existe um objeto que cai deixando a estrutura furada por esse buraco chamado olhar”.
A armadilha do olhar do sujeito – “isso me olha” – faz do quadro da fantasia sua janela para o mundo. Mas o quadro da fantasia não se confunde com a janela do sujeito, pois “há uma distância que é estrutural, apesar de o sujeito acoplar a fantasia-quadro em sua janela subjetiva” (QUINET, 2002, 153).