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Dezesseis professores (62%) não estão satisfeitos em relação à sua prática pedagógica. A maioria desses professores relaciona o insucesso de sua prática pedagógica ao desinteresse e indisciplina dos alunos, como podemos observar em algumas de suas respostas à pergunta “Você está satisfeito(a) em relação ao modo com que ministra suas aulas? Por quê?”:

Não. Sei que poderia fazer muito mais se houvesse interesse dos alunos. (P1)

Bem, eu sei que eu tento dar o máximo de mim. Muitas vezes saio decepcionada de algumas classes, mas sei que consegui ensinar pelo menos

aqueles mais interessados. (P9)

Não muito, porque são muitos alunos numa sala, alguns têm vergonha,

outros não se interessam por nada. (P12)

[...] às vezes o que planejei não acontece devido à indisciplina e falta de

interesse. (P20)

Não totalmente. Pelo desinteresse já citado, pela falta de recursos (nosso aluno não tem sequer um livro!) e pelo apoio que muitas vezes não nos é dado. (P21)

A professora P18 não está satisfeita e nos informa que “às vezes” planeja uma aula diferente, mas que devido à indisciplina dos alunos, acaba por “dar o que dá para dar”:

Às vezes até planejo uma aula diferente, mais atrativa, mas quando encaro a

bagunça que a classe está, me desanimo e dou o que dá para dar. (P18)

O que notamos nesses depoimentos é certa isenção da figura do professor na responsabilidade pelo insucesso de sua prática pedagógica e pela conseqüente não- aprendizagem do aluno, ou seja, os professores atribuem causas diversas às dificuldades que impedem a realização de uma prática pedagógica satisfatória, mas não as relacionam a si próprios, situando-as em fatores fora do âmbito pessoal. Apresentadas dessa forma, as causas

da insatisfação do professor tendem a eximi-lo de qualquer responsabilidade, pois estão centralizadas ora na figura do aluno desinteressado e indisciplinado, ora em fatores externos. Essa atitude pode ser compreendida como afastamento da figura do professor como possível responsável pelo insucesso de sua prática pedagógica.

Nas falas dos professores observa-se a relação por eles estabelecida, entre o nível de sucesso das aulas e o grau de interesse e bom comportamento dos alunos, ou seja, a aula é “boa” quando os alunos estão interessados e disciplinados, e “ruim”, quando estão desinteressados e indisciplinados.

Os fatores externos que impedem a realização de uma prática pedagógica satisfatória, segundo os professores, são: falta de material didático, escassez de recursos pedagógicos, número elevado de alunos por classe, número excessivo de classes e jornada de trabalho. Mais uma vez, o insucesso da prática pedagógica parece estar ligado a fatores estranhos ao próprio professor e ao modo que ele conduz suas aulas.

Não, porque não há como fornecer os materiais aos alunos. (P5)

Não, porque não posso usar xerox, dicionários, as classes são lotadas. (P10)

Tendo treze salas de inglês, acho que faço o possível. (P11)

Gostaria de ter mais recursos, pois quem sabe eles se interessariam mais

pela matéria. (P15)

Não totalmente, porque em classes lotadas, mesmo que tenhamos recursos

pedagógicos eficientes (o que não temos) é quase impossível ter resultados

satisfatórios. (P19)

Não, acho que elas poderiam ser mais proveitosas, se a carga horária de

trabalho fosse menor e tivéssemos material disponível. (P24)

Não. Na maioria das vezes perco muito tempo colocando matéria na lousa ou me sinto impossibilitada de usar algum material que tenho porque não teria o número suficiente para todos os alunos. (P26)

P17 argumenta que o “método anterior” era melhor, e nos dá a impressão de que compreende a nova Proposta Curricular do Estado de São Paulo como um “novo método” a ser seguido:

No método anterior seria (sic) melhor; agora se torna mais ruim (sic)

porque os alunos não têm material.

Dentre os professores que afirmaram estar satisfeitos com sua prática pedagógica, está P2. No entanto, é curioso notar que a professora afirma que sua prática é eficaz somente quando os alunos estão interessados:

Sim, pois é eficaz quando há interesse. (P2)

P16 nos dá a impressão de não ter dúvidas de que a maneira como ministra suas aulas é a “correta”. Mas se contradiz quando nos revela que a mesma prática pedagógica “correta” não lhe dá “tanto retorno”.

Com a maneira que eu faço sim, pois é a que acho correto. Pena que não há tanto retorno. (P16)

Alguns professores relataram que a insatisfação em relação à prática pedagógica está relacionada com a dificuldade em usar o material fornecido pelo governo – os Cadernos do

Professor – em suas aulas. Segundo esses professores, o conteúdo dos textos contidos nos

Cadernos é de difícil utilização para a “realidade dos seus alunos”:

Os textos são muito difíceis, vocabulário muito difícil... O aluno vem sem vocabulário, entendeu? (P1)

A participante P23 é uma professora de 67 anos e mais de 30 de magistério. É interessante observarmos a visão de imagem positiva que ela acredita projetar aos alunos, e sua auto-estima, que contrariamente a dos outros professores participantes32, é bastante alta.

Sim, porque além da aprendizagem da língua propriamente dita estou consciente de que ensino muito além de minhas palavras, porque a imagem que projeto atinge meus alunos mais profundamente do que os conceitos que explico. (P23)

No que diz respeito aos demais professores satisfeitos com sua prática pedagógica, notamos que estabelecem relação entre o sucesso da prática pedagógica à atenção que despendem às necessidades e dificuldades dos alunos, relação esta, que a nosso ver, é fator fundamental para uma prática pedagógica capaz de promover aprendizagem. Da mesma forma, julgamos importante que haja prazer, vontade e satisfação do professor no seu fazer pedagógico, para que esses sentimentos também sejam percebidos pelos alunos, e operem como fator motivador de suas aprendizagens. Queremos dizer com isso, que o professor é, para nós, figura central no desenvolvimento do interesse ou do desinteresse pelos conteúdos de uma disciplina. Assim, cabe a ele dirigir as ações pedagógicas, propondo atividades que venham suscitar interesses e necessidades novas aos alunos, de modo a promover seu desenvolvimento integral. Observemos as falas dos professores que vão ao encontro dos pontos que abordamos neste parágrafo:

[...] procuro atender às necessidades e dificuldades da maioria. (P4) Embora me falte maior competência técnica, estou satisfeita, quando levo em conta que ministro as aulas com prazer e que as limitações que tenho na língua estrangeira me auxiliam a observar melhor as dificuldades dos meus

alunos. Assim, minhas estratégias são voltadas para facilitar o aprendizado deles. Procuro sempre acrescentar algo novo na aula através de pesquisas que faço na internet e leitura de livros didáticos. Procuro introduzir

dinâmica lúdica nas aulas para torná-las divertidas e atraentes. Com

algumas atividades diversificadas tenho a atenção dos alunos. A exemplo

disso, a criação de um cartão para o Dia das Mães, a confecção de um livro, Tangram. São atividades que eles gostam e que auxiliam no

aprendizado ao mesmo tempo. (P6)

[...] tento sempre fazer com que o aluno se interesse; trazer conteúdos

recentes e significativos para chamar a atenção dos alunos. (P7)

[...] gosto do que eu faço, faço com prazer e estou sempre disposta a novos

conhecimentos para ajudar na aprendizagem dos meus alunos. (P14)

Estou satisfeita, mas acho que sempre é possível melhorar. Estou disposta a

me aperfeiçoar e inovar sempre que possível, no entanto acredito que há

problemas no sistema de ensino que nos impedem de fazer mais. Paralelamente devo lembrar que, é claro, tenho falhas. (P22)

Faz-se importante ressaltar que nas falas dos participantes P6, P7, P14 e P22 notamos também o cuidado dos mesmos em seu aperfeiçoamento e atualização profissional, aspectos que consideramos fundamentais para uma prática pedagógica que não seja alienada e alienante.