Dezessete professores (65%) usaram descritores negativos ao avaliarem o aproveitamento dos alunos na disciplina inglês ao longo do Ensino Fundamental e Médio, tais como: péssimo, insuficiente, pequeno, fraco, ruim, sofrível e baixo.
A causa do baixo rendimento dos alunos se deve principalmente, segundo os professores, à falta de interesse dos mesmos pela disciplina, conforme podemos verificar nos depoimentos que seguem:
Uma minoria tem bom aproveitamento, a maioria não aprende, não tem
interesse. (P7)
Fraco. A maioria não se interessa. (P12)
Eu avalio os alunos como médio, porque muitos alunos não têm interesse. (P17)
O desinteresse pelas matérias escolares é grande pelo que podemos
observar nas escolas e o inglês faz parte desse contexto. (P21)
Por sua vez, o interesse faz com que os alunos se tornem “copistas”, como nos revelam essas professoras:
São copistas – alguns poucos fazem as atividades e os outros copiam. (P10) [os alunos] são muito rebeldes, fazem só cópia da matéria depois da aula e
falham nas provas. Os que se interessam têm notas, os outros ficam sem nota, até de participação. (P15)
A falta de interesse dos alunos é vista por P12 como conseqüência da falta de perspectiva de utilização do inglês pelos alunos:
Eles não vêem utilidade na língua, apesar de estarem em contato com ela
P12 também vê como possível causa do desinteresse do aluno pela aprendizagem do inglês, a crença que o próprio aluno tem de sua falta de aptidão para aprender uma LE:
[...] eles alegam que mal sabem falar o português, vão aprender inglês?
Esta crença parece ser também compartilhada por professores de outras disciplinas, pelo que podemos observar no relato de P18:
Às vezes [os professores de outras disciplinas] comentam que os alunos não
sabem escrever nada, nem português direito e como eu quero ensinar inglês?(P18)
Estas falas nos remetem ao artigo de Moita Lopes intitulado “Eles não aprendem
português quanto mais inglês” (MOITA LOPES, 1996), no qual o autor reflete sobre a
ideologia da falta de aptidão dos alunos de escolas públicas para a aprendizagem de LEs. Concordamos com Moita Lopes quando o autor afirma que tal ideologia colabora para que o indivíduo oriundo de classes menos favorecidas acredite possuir deficiências que, por serem próprias de sua natureza, o impedem de alterar o processo histórico, fazendo com que assuma o papel de objeto e não de sujeito de sua própria história. O que se pretende, quando as causas das dificuldades da aprendizagem de uma LE são colocadas na deficiência lingüística do aluno, é escamotear uma estrutura social injusta, a qual deveria ser o foco de atenção dessa discussão.
Alguns pesquisadores, de acordo com Moita Lopes (1996), também têm discutido o papel central que a motivação ocupa no sucesso da aprendizagem de LEs, em detrimento do conceito de aptidão lingüística como fator determinante para se aprender um idioma. No caso do contexto que envolve esta pesquisa, ponderamos que o fator motivacional está estreitamente relacionado às possíveis causas do insucesso da aprendizagem dos alunos, considerando-se que o desinteresse deles foi exaustivamente mencionado nos depoimentos dos professores.
Outro fato bastante citado pelos professores, que também parece prejudicar o processo do ensino de inglês é o constante retorno que os professores fazem ao ensino do verbo “to be”:
Todo ano é a mesma coisa, sempre preciso começar explicando o verbo “to be” porque eles não aprendem! [...] De repente você dá um textinho
minúsculo de vestibular pra eles, eles se vêem apavorados... eles não conseguem fazer, eles não vêem porque aquilo lá. Eles pegam o dicionário, eles procuram o que que é o “we”, o que que é “am”. Sabe, vem te perguntar o que é “am”. Eles não sabem, eles não sabem!! (P1 – entrevista)
Muitas vezes, mesmo diante do “esforço” do professor em retomar o ensino do verbo “to be” diversas vezes, parece existir uma aparente estagnação da aprendizagem dos alunos nesse conteúdo. É o que desabafa P18:
Fazem muito pouco progresso. Não aprendem muito mais do que o verbo
“to be”, isso quando aprendem. (P18)
Em pesquisa sobre as identidades dos professores de inglês da escola pública, Sousa (2006) também observa que o verbo “to be” tem se mostrado um grande dilema no ensino de inglês nas escolas públicas brasileiras, pois os professores tentam, desesperadamente, ensinar o primeiro conteúdo que os alunos supostamente deveriam saber, para então darem continuidade ao seu programa de ensino. Como, de acordo com os professores, os alunos “nunca aprendem o verbo ‘to be’”, o ensino parece não progredir, e o que se vê é a frustração do professor do Ensino Médio, que fica sem saber o que fazer com a falta de conhecimento “básico” dos alunos. É o que podemos verificar na fala angustiada de P1 e de outros professores:
Eu acho que da 5ª à 8ª série, eu não sei como é que é por aí, mas eles
chegam no 1º ano eles não sabem nada, nada! Então você tem que começar tudo de novo. Então já começa a dificuldade aí. [...]. Então você viu a minha situação, né? E eu tenho que fazer um milagre? Num dá, né?
Eu nunca consegui fazer milagre! (P1 em entrevista ao comentar sobre o fato de os alunos do Ensino Médio não saberem o verbo “to be”)
Noto que os alunos chegam ao ensino médio sem base alguma e o trabalho
[o aluno] não acumula conhecimentos e sem pré-requisitos fica impossível
prosseguir; a todo momento é necessário explicar tudo de novo. (P7) [...] quando chegam no [ensino] médio, não conseguem assimilar, você
repete sempre a mesma coisa praticamente e nada. (P16)
Acreditamos poder inferir que a angústia sentida pelos professores pelo fato de não conseguirem avançar para além do verbo “to be”, é compartilhada pelos alunos que, provavelmente, devem se sentir frustrados e desestimulados por não verem progresso no aprendizado do inglês. Sousa (2006) nos oferece um exemplo no qual podemos observar que o foco excessivo no verbo “to be” parece também incomodar os alunos:
E33: O que você acha da aula da professora Lúcia?
A1234: Eu acho muito legal, porque ela ensina a gente completamente
direito, tudo. Porque, assim, no ano passado a gente só aprendia o verbo “to be”. Chegou no primeiro dia, ela disse: “Hoje vocês não vão aprender o verbo ‘to be’, hoje vocês vão aprender outros tipos de verbo”. Ela faz
várias brincadeiras com a gente, ela é super legal. Ela ensina a gente, ela é muito di... muito boa a aula dela.
E: E dos outros professores você não gostava35 muito?
A12: De inglês? Não. Porque eles não ensinavam, assim... só o verbo “to
be”. Toda hora verbo “to be”, verbo “to be”, então, não dava. (SOUSA,
2006, p.39 – grifos no original)
É muito interessante notarmos nesse trecho de entrevista, como a aluna aprova a forma de trabalho da professora que dirige a atenção dos alunos para outros conteúdos da língua que também considera relevantes, que não sejam o verbo “to be”, e como parece estar motivada para aprender o idioma.
Para certos professores, outro fator que determina o baixo aproveitamento dos alunos é a falta de estudo, que tem como causa, segundo alguns docentes, a progressão continuada.
[O aproveitamento dos alunos é] péssimo, pois como já disse, foi retirado dos alunos em geral a obrigação de se estudar. (P2)
33 E: entrevistadora
34 A12: aluna entrevistada
35 A autora explica que utilizou o termo “gostar” nas entrevistas com alunos, porque esta pareceu ser uma forma mais natural de indagar a respeito de como vêem o trabalho de seus professores.
Fraco, devido à progressão continuada. (P16)
Os alunos não têm o hábito de estudar, portanto o rendimento é baixo, para a maioria. (P19)
Dentre outros fatores citados pelos docentes e que podem estar relacionados ao baixo rendimento dos alunos, temos: a rotatividade dos professores, a carência de recursos materiais, a falta de compromisso de alguns professores e alunos e o pequeno número de aulas semanais. Vejamos os depoimentos de P9 e P22 nos quais tais fatores são mencionados:
Acho que o aproveitamento é pequeno devido à grande rotatividade dos
professores, falta de material adequado e, muitas vezes, falta de compromisso de alguns professores e alunos. (P9)
Acho que alguns fatores influenciam o aproveitamento do ensino de inglês: o primeiro deles é o interesse do próprio aluno, que pode fazer com que ele tenha um grande aproveitamento. Entretanto, outro fator que muitas vezes prejudica a disciplina é o número reduzido de aulas semanais e, além disso, a deficiência em termos de recursos. (P22)
Concluímos este item com o depoimento de P22, revelador da preocupante situação do ensino de inglês na escola pública:
Infelizmente, o aluno da escola pública, de um modo geral, pouco aproveita
o curso de inglês. (P22)
Passaremos agora, a discorrer sobre a visão que o professor tem da importância do ensino de inglês na escola pública.