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4. RESULTS AND DISCUSSION

4.2. Local people’s values, perceptions and support towards the community and state

4.2.1. Values and perceptions

Voltaire foi outro autor que destinou esforços para o desenvolvimento de uma tradição da tolerância no cenário político ocidental. Na obra "Tratado sobre a tolerância", o autor inicia sua investida descrevendo a injustiça cometida contra Jean Calas, motivada pela intolerância religiosa. Jean Calas, um homem idoso, protestante assim como sua família, foi acusado de assassinar o próprio filho em virtude da suposta intenção desse em converter-se ao catolicismo. No caso descrito na obra, seu filho Marc-Antoine teria sido, então, supostamente enforcado pelo próprio pai, com a ajuda do irmão Pierre e de um jovem amigo da família, também protestante, de sobrenome Lavaisse40.

Segundo Voltaire, Jean Calas foi condenado à morte na roda dos suplícios, tendo negado até o fim dos seus dias o suposto homicídio de seu filho. Apesar da flagrante inocência, de acordo com os dados do processo em que fora submetido, o tribunal de Toulouse vinculou-se às supertições religiosas para impingir-lhe a pena capital, aniquilando assim a família de Calas. A intolerância religiosa seria, portanto, protagonista de uma injusta e violenta condenação e da legitimação da pena capital (pena essa que pode ser tida como a maior marca do desejo de soberania, como veremos tardiamente). Como contraponto, o autor consagra a tolerância como o "apanágio da humanidade"41, famoso enunciado que se tornou uma das primordiais marcas de seu pensamento.

Voltaire, assim como Locke, chega à conclusão de que a intolerância dos cristãos é uma ação que contradiz os ensinamentos de “doçura, paciência e indulgência” impulsionados por Jesus Cristo42. "Pergunto, agora, se é a tolerância ou a intolerância que é de direito divino? Se quereis vos assemelhar a Jesus Cristo, sede mártires, não carrascos"43.

39 Não pretendo aqui esgotar as possibilidades de tensionamento da tolerância em Locke, embora trabalhe aqui a

obra central do autor sobre o ponto. Meu objetivo é o de tão somente demonstrar a importância do autor no desenvolvimento da temática, ainda que de forma breve, ressaltanto as implicações produtivas de sua contribuição, bem como os limites.

40 VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p. 3-19.

41 Idem. Dicionário filosófico. Versão ebook. Dísponível em:

<http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/filosofico.html> Acesso em junho de 2014.

42 Idem. Tratado sobre a tolerância. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p.91. 43 Ibidem, p.94.

31 Com efeito, o próprio Voltaire, em seu "Dicionário filosófico" ao tratar sobre o verbete "tolerância", não percebe os cristãos em geral como seres que recepcionaram a lição da tolerância auferida por Jesus de Nazaré. Voltaire interpreta Tomás de Aquino como um pensador que trazia consigo o desejo de que "toda a terra devia ser cristã" e os que assim não o fosse seriam "inimigos de toda a terra, até que se convertessem" 44. Ademais, Voltaire percebe o paralelismo do cristão em relação à tolerância ao afirmar que o cristianismo propõe a tolerância ao mais intolerantes: "de todas as religiões, a cristã é, sem dúvida, aquela que mais deve inspirar tolerância, embora até hoje os cristãos tenham sido os mais intolerantes de todos os homens"45.

Derrida tensiona a relação ambivalente entre o conceito de tolerância e o cristianismo assim como a percepção de Voltaire:

O conceito de tolerância, stricto sensu, pertence, antes de tudo, a uma espécie de domesticidade cristã. É literalmente, faço questão de usar esta palavra, um segredo da comunidade cristã. Foi impressa, publicada e posta em circulação em nome da fé cristã e não poderia existir sem relação com a ascendência pura como coisa cristã. A lição da tolerância foi, antes de mais nada, uma lição exemplar que o cristão pensava poder dar, de forma exclusiva, ao mundo, ainda que ele próprio muitas vezes, tivesse de aprender a entendê-la. Neste aspecto, do mesmo modo que a Aufkärung, as Luzes foram de essência cristã. Quando trata da tolerância (...) Voltaire reserva à religião cristã um duplo privilégio. Por um lado, ela é, com toda a certeza, exemplarmente tolerante, ensina a tolerância melhor do que qualquer outra religião. Em suma, um pouco à maneira de Kant, isso mesmo, Voltaire parece pensar que o cristianismo é a única religião "moral", uma vez que é a primeira a ter o dever e o poder de dar o exemplo. Daí, a ingenuidade, por vezes, a tolice daqueles que sloganizam Voltaire e se colocam sob a sua bandeira no combate da modernidade crítica - e, ainda mais gravemente, de seu futuro. Com efeito, por outro lado, essa lição voltaireana foi dirigida, antes de tudo, aos cristãos, "os mais intolerantes de todos os homens"46. Veremos em linhas gerais a seguir como, com Rousseau, o tema da tolerância ganha um traço de maior sofisticação e aderência, tendo o seu modelo de liberdade e de política, em larga medida, recepcionado pelo Ocidente até os dias atuais. Dentre os pensadores iluministas, fundamentais para pensarmos a tolerância na época das luzes, o destaque será dado de forma mais acurada ao pensamento de Rousseau em virtude desse filósofo ter sido um dos principais responsáveis pelo projeto e modelo político contratual do qual se valeram e se valem muitos posicionamentos liberais ainda em vigor, pela tradição dos chamados "direitos humanos

44Idem. Dicionário filosófico, op. cit.

45Ibidem.

46 DERRIDA, Jacques. Fé e saber. As duas fontes da “religião” nos limites da simples razão. In: DERRIDA,

32 universais" e, até mesmo, da reapropriação da ideia de soberania implantada pelo paradigma das Nações Unidas47.