fazendo teatro no NATA mesmo no tempo da Faculdade.
Mas o “conquistense” que passou sua infância e juventude nas terras mineiras, inspirou-se no nome da sua cidade natal e foi conquistar, na vida adulta, os ares da capital paulista, onde sua vida cultural ficou mais intensa, e conta que lá:
em São Paulo tive muita dificuldade de conseguir emprego, era recém formado e etc. Mas consegui uma bolsa de estudos no Museu de Artes de São Paulo (MASP) pra fazer Museografia. Segundo o Pietro Maria Bardi, a seleção foi feita encima da minha possibilidade de aprendizado, porque se não tivesse sido assim, não teria sido escolhido, porque eu não conhecia nada de museus e nem de artes plásticas. Trabalhei por dois anos no Museu de Arte de São Paulo. O meu projeto final nesse curso de Museografia, pelo MASP, foi montar um museu de teatro. Eu consegui do Sábato Magaldi a doação de maquetes de teatro que tinham sido partes da Bienal de Teatro - que existia junto a Bienal de Artes Plásticas. Também consegui um material grande sobre as peças montadas em São Paulo. Eu queria ter começado com este material, depois fazer um processo remissivo e juntar com outro material do passado, mantendo assim um museu que fosse ativo. (...) Cheguei a conseguir o material da Cacilda Becker - a Cacilda tinha morrido recentemente no palco, numa verdadeira morte teatral -, consegui pinturas dela, figurinos e etc... (...) E Lina Bo Bardi, mulher que desenhou o MASP, (...) ia desenhar uma grande exposição e etc sobre tudo isso. Enfim, estava tudo encaminhado, quando aconteceu uma entrevista, minha briga com o Pietro e isso tudo foi por água abaixo. Ou seja, quando briguei com o Bardi eu ia montar o Museu do Teatro, ligado ao MASP. Dei uma entrevista pro Yan Michalski, no Jornal do Brasil, falando sobre essa idéia e isso causou ciúme no grande Pietro Maria Bardi que me cobrou uma explicação sobre essa informação à imprensa, isso resultou num mal estar entre nós e o projeto não foi pra frente. Então, depois disso, (...) vim visitar uns amigos em Brasília e nunca mais saí. E logo em seguida, entrei em contato com a Fundação Cultural daqui.
Assim, João foi se transformando, adquirindo experiências, crescendo seu currículo e acumulando documentações variadas em seu acervo particular. Formando um João Antônio que
que o poeta português Fernando Pessoa escreveu tudo o que ele, João, tinha vontade de escrever um dia; que ouvir Bach é exercitar e ampliar o raciocínio e que o repertório das músicas de Chico Buarque entrega toda sua história, assim como a de muitas outras pessoas.
Narrando experiências que deram, a ele, a cor azul como sendo de sua preferência, mesmo também apreciando todas as outras cores; experiências que o faz se considerar um bom gourmet, um bom apreciador de vinhos e frutos do mar. E foi parte desse homem atual que chegou a Brasília, em 1971, e desde então passou a desenvolver nela sua trajetória profissional, como ele mesmo conta:
Por causa da briga no MASP vim para Brasília. (...) Foi em 71. (...) Eu sou péssimo em datas, mas essa eu não me esqueço, foi em Julho de 71, quando cheguei em Brasília. Vim de ônibus. Eu tava desempregado e tinha esses amigos de Uberaba aqui que podiam, talvez, me arranjar algum trabalho aqui temporário e etc. Vim conhecer também, porque Brasília era uma fantasia pra todos nós, pra todos os brasileiros. Cheguei e me maravilhei por Brasília, foi um pouco “amor a primeira vista”. Eu me assustei muito com a cidade. (...) Sendo gente de teatro, a minha sensação era de tá num palco muito grande, porque Brasília era meio vazia, nessa época, você não tinha muita gente aqui. Então, era um palco muito grande, extremamente iluminado - porque tinha muita luz também - e eu me sentia minúsculo, tendo que dominar esse espaço e essa luz. Isso foi um impacto muito grande, mas também uma maravilha muito grande. Soube da existência da Fundação Cultural que, na época, tinha uma importância muito grande na cidade, porque era quem fazia toda a programação de todas as artes na cidade. (...) Em 1971 a Fundação já estava funcionando bem, era um prediozinho ao lado da Torre de Televisão no espaço onde são os hotéis, ali. Era um prediozinho baixinho que logo depois se mudou para a 508 Sul. Mas eu fui lá, visitei e procurei o Walter Melo que era quem tava na direção da Fundação Cultural e deixei meu currículo com ele. Alguns dias depois houve um crime. Um funcionário da Fundação tava sendo investigado, tinha um processo contra ele e entrou numa reunião dos diretores da Fundação e atirou ao léu, matou duas pessoas e também atingiu o Walter Melo. Ele vai hospitalizado, numa situação terrível... Mesmo assim, nesta situação, o Walter chama o Marco Antonio Guimarães no
Antônio Guimarães: “Tem um currículo de uma pessoa que acabou de chegar... Tá na gaveta da esquerda e não sei quantas mais... Pega esse currículo porque é pra contratar essa pessoa”. Logo depois me contratam e eu passei dez anos na Fundação Cultural e fui pioneiro lá em uma porção de coisas.
Essa imagem de Brasília como sendo um palco muito iluminando nessa fala de João, foi analisada no primeiro capítulo deste trabalho, assim, como a complexidade em torno dessa categoria de pioneiro, sendo constituída de sentidos de origem de pertencimento que em geral vão ao contrário do significado de identidade como uma “multiplamente construída ao longo de discurso, práticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicos” (HALL, 2003, p.108). Mesmo assim, dentro do sentido de ser o primeiro a realizar algo que João Antônio se apresenta, o que na sua observação é um verdadeiro privilégio dado pela vida. Tendo afirmado isso na entrevista e também num artigo intitulado “Formação de atores em Brasília”:
Sou de uma geração de atores formada por Diretores de Teatro, muita leitura e a oportunidade de assistir a muitos espetáculos. Meninos eu vi!!! Assisti as últimas montagens do TBC, quase tudo do Arena, do Oficina, do Asdrúbal Trouxe o Trombone, quase tudo o que se fez em Brasília em matéria de Teatro e Dança, vi as exposições mais importantes e ouvi muita música boa. Participei da criação da Federação Nacional de Teatro Amador e com isso viajei Brasil inteiro vendo tudo. Dirigi excelentes atores e atrizes que muito me ensinaram. Fui dirigido por gente da melhor qualidade. Privilegiado eu??? Não quero me gabar, mas essa foi a minha escola. Mas, Escola mesmo só muito mais tarde quando ganhei uma bolsa de estudos do Governo Francês e pude estudar na École Jacques Lecoq em Paris. Aí vi o quanto um processo mais estruturado de estudo facilita a minha vida. (JOÃO ANTONIO, 2004, p.147).
Suas observações sobre ser o primeiro na criação de algo não param por aí. Contou que a primeira escola de teatro em Brasília, a “Ensaio, Teatro e Dança”, foi de sua criação, assim como foi o primeiro chefe de departamento do curso de Artes Cênicas da Faculdade Dulcina de Moraes e da Universidade de Brasília, como mostram os trechos a seguir:
Eu montei a primeira escola de teatro de Brasília, a “Ensaio, Teatro e Dança”, junto com a Graziela Rodrigues, minha ex-companheira, e um grupo grande de amigos. Inauguramos antes da Dulcina. Então fomos
qualquer pessoa, eram cursos livres de teatro e de dança e funcionava no início da W-3, onde, hoje, tem o Banco Real. Em cima do Banco Real, no terceiro andar e foi um momento extraordinário.
Foi final dos anos 70 e início dos anos 80. Era uma escola de teatro e dança contemporânea. A Graziela Rodrigues que hoje está na UNICAMP dava as aulas na escola de dança. Estávamos eu e ela, voltando da Europa. Eu tava voltando do meu curso na França e ela de um período grande na Espanha, que trabalhou com teatro e dança. (...) Trouxemos para Brasília essa idéia do teatro físico. Do teatro ligado a dança e montamos, também, um espetáculo de grande sucesso que foi o “Graça Bailarina de Jesus”, um outro foi o “SQS 1980, bloco “A””, enfim foram dois trabalhos que saíram desse grupo. Porque não era só uma escola, era um sonho, também. A escola durou (...) quase dois anos, era 1978, final de setenta e oito, setenta e nove, oitenta. Terminou em 1980.
Eu fui o primeiro chefe de departamento da Faculdade Dulcina. Peguei o finalzinho da primeira turma, ali, da Françoise Fourton, e fiquei ali, ainda um período. Depois me dediquei mais a Ensaio. Depois fui chamado pra UnB onde não tinha, também, Departamento de Artes Cênicas que eu, também, tive a honra de fundar. Então eu tive na gênese dessas escolas. (...) No início dos anos 80.
A Ensaio foi um dos sonhos que se realizaram na vida de João Antônio, durante a entrevista, expôs claramente como se se orgulha por estar naquilo que acredita ser a gênese dos processos, em especial quando envolve seus sonhos. Ao contrário de Hugo Rodas, João não evita se avaliar porque diz se considerar um privilegiado por ter estabelecido em sua vida uma ligação com o universo teatral e com o que acredita ser necessário para quem deseja realizar teatro:
Eu fui de uma sorte imensa na vida. Eu acho que pude trazer minha colaboração como administrador, como assessor da Fundação Cultural, com a criação do Teatro Galpão, com a fundação da Federação do Teatro Amador, com o projeto do Teatro das Segundas- Feiras. (...) Foram várias as coisas onde estive no início delas. E assim acho que pude colaborar com o desenvolvimento cultural na cidade.
diretores de Brasília. (...) Dirigi vários espetáculos aqui, também (...) e na formação das pessoas tendo tido a primeira escola de teatro de Brasília. Tendo participado do início do Dulcina. Tendo criado o Departamento de Artes Cênicas da Universidade e Brasília. Então eu fico extremamente feliz de poder ter estado nesses lugares, nesses momentos, ter tido a oportunidade de estar no início dessas coisas... Me orgulha, me deixa extremamente feliz.
Uma outra coisa estranha é que eu sei que eu faço parte dessa história. Então, sempre que se fala da história do teatro brasiliense, alguém vem me procurar e eu já me sinto o idoso, velhinho falando sobre a história, o início das coisas e etc. (risos). Mas é uma coisa maravilhosa poder fazer isso.
Sempre estive ligado ao teatro, o que é um privilégio extraordinário. E é um privilégio porque é arte, depois porque é uma arte coletiva - a gente não trabalha sozinho, só trabalha com gente – e eu acho a tribo do teatro formada por gente extraordinária de conviver, porque a gente coloca as emoções pra fora, xinga, briga, diz na sua cara as coisas e não guarda rancores e... isso é uma delícia de poder conviver com essas pessoas. E o teatro te leva a ter uma vida, também, extraordinária. Porque pra você fazer bem o teatro, você tem que ouvir boa música, você tem que ver boas exposições, freqüentar museus, etc. Ler do bom e do melhor. Então eu tive a possibilidade de ter contato com a melhor arte possível.
Apesar de na introdução deste capítulo ter analisado a questão do legado desses fazeres teatrais em Brasília, chamo a atenção novamente para essas falas, por mim destacadas, de João em relação ao saber que faz parte dessa história do teatro em Brasília em que se sentir velhinho faz parte de um legado que considera maravilhoso, porque falar sobre essas e várias outras histórias compartilhando assim experiências, momentos, lutas e belezas implícitas nessas trajetórias cênicas dessa cidade.
Mesmo sabendo que avaliar um teatro como bom ou mau, é uma atividade que requer critérios de qualidade bem estabelecidos e discutidos sobre vários elementos de composição cênica, João Antônio sinaliza que em suas noções perpassam saberes e experimentos fixos daquilo que representam símbolos já reconhecidos por seus atributos positivos na sociedade em geral, articulando significados relacionados a status social e cultural. Entretanto, João é um privilegiado que compartilha o caminho que leva a esse lado das benesses do teatro:
sessenta e recomendo: acho que já falei que é um privilégio poder fazer isso tudo que fiz minha vida inteira, por isso, acho que quem tem o desejo de entrar nesse universo tem que entrar de peito aberto. Porque os deuses do teatro cobram muito. Você é obrigado a ter disciplina, a exercer um trabalho árduo, a estudar profundamente e tem que ter uma vida extremamente rica. E isso dá muito trabalho, na verdade é uma cobrança muito grande. Mas os deuses devolvem muito mais do que esse trabalho que porventura você chega a desenvolver. Porque os deuses do teatro, quando você os reverencia, te cobrem de prazeres, de riquezas e de uma vida maravilhosa. Eu não tenho, absolutamente, nada a reclamar de toda essa minha vida.
Se esses deuses do teatro cobriram a vida de João Antônio com todos esses prazeres, deve ter sido porque ele os reverenciou à sua maneira, apresentada acima. Não foi à toa que nosso encontro foi cheio de risos e de momentos onde a emoção surgiu à flor da memória narrada.