5 Assessment of Green Growth
5.3 Critique of Green Growth and Decoupling
5.3.1 Arvesen et. al
Id., Palavras e Coisas. [S.l : s.n], 1956.
desabafa. (MAGGIO, 2006, p.1).
Entretanto, vale destacar que nesse currículo notavelmente emoldurado, apresentam-se, também, conexões com o ambiente político de cada tempo, em especial o da ditadura militar brasileira. Inclusive, B. contou claramente na entrevista que é apontado por alguns de ter-se envolvido e participado desse período político:
- Pessoas em geral dizem frases do tipo: “Não sei como é que você B. de Paiva... um cara que tem toda uma cabeça voltada pra... pra... pras coisas... Você ficou [do lado do] governo autoritário...” Ou “Rapaz, tu serviste a ditadura!!!!”.
Eu digo sempre: - Não, rapaz! Eu não servi à ditadura, não! As minhas peças de teatro provam que eu não servi à ditadura. O meu trabalho prova que eu não servi à ditadura. Agora, eu não quero saber de democracia, de ditadura, de cristianismo, de porra nenhuma. Eu to aqui para criar o meu sonho, que é fazer um curso superior [de teatro para as pessoas]. Essa ditadura, vai acabar. Daqui a mais um pedacinho, já ta se acabando.
Por expor suas próprias considerações, relatar sua memória e também tentar atingir uma imortalidade, B. pretende deixar seu legado registrado num livro, como já analisei na introdução deste capítulo e reitero novamente por meio das falas dele:
Tô tentando vê se até o fim do ano ou no começo do ano que vem, eu publico um livro de memórias. Que chamar-se-á: “B Ponto O Grafias” ou “As Besteiras do B”. Quer dizer então que já se define o B [no título]... Eu queria ver se fazia isso, mostrando uma série de coisas que eu vi e que eu presenciei... Tô com um bocado de coisas escritas... E eu tenho também umas cinco ou seis peças que eu gostaria de editá- las, certo?! Porque o que ficará de mim será o que eu escrevi. Quer dizer, eu dou uma entrevista como essa aqui. É... Uma entrevista franca, aberta e comento uma série de coisas que chegam ao ritual da particularidade. Mas eu gostaria de ter, na verdade, uma oportunidade de criar uma coisa que permanecesse, mas não por vaidade. Porque a única coisa boa que Deus fez é que todos nós morremos, né?! Quer dizer, a gente vai embora um dia... Mas que pelo menos eu tenha a vontade de... Se não de formar, ou de transformar, pelo menos, de reformar algumas coisas. Eu acho que hoje em dia a visão da cultura
besteiras que eu venha a escrever, eu vou definir, coerentemente, uma série de coisas acontecidas... Eu tenho muito documento, eu tenho muita presença de pessoas, de fatos, de acidentes, de coisas que a gente guardou e guarda ainda... De quem tem 72 anos.
Sem dúvida fatos, histórias, memórias e conhecimento são elementos que não faltam na trajetória de vida desse homem que mesmo com a saúde debilitada e usando uma prótese de perna, continua na ativa e à frente da presidência da FBT. Registros documentais que comprovam suas vivências encontram-se guardados em sua casa num acervo de 8 km lineares de documentos9,
que ele faz questão de guardar, organizar, e apresentar todos os detalhes a quem chega para uma visita.
Aliás, é inevitável não perceber o acervo, que se inicia antes da porta de entrada da casa (com quadros, fotografias, cartazes, livros, panfletos, programas teatrais, máscaras, esculturas entre outros) e se prolonga por um cômodo onde centenas de caixas-arquivo armazenam a história da FBT e de várias outras facetas das atividades cênicas realizadas no Brasil e, especialmente, em Brasília. Hoje, efetivamente, abrir as portas da casa de B. é acessar esses prestimosos documentos. Numa clara demonstração visual que sua vida, resguardada no âmbito mais privado do seu cotidiano, no lar, abriga e comporta os sentidos públicos dos contextos documentais ali guardados.
O espaço acaba sendo um verdadeiro relicário de imagens visuais e textuais, que extrapolam seu grande valor material, num acervo encantador. Como, dentre vários exemplos possíveis de serem citados, um disco, em LP de vinil, com a interpretação de Glauce Rocha da peça “O Belo Indiferente”10, escrita por Jean Cocteau e traduzida por Daniel Rocha. Uma obra
especial que nos possibilita ouvir a grande atriz, perceber a interpretação nas modulações de sua voz, apreender um repertório dramático da época e, mais ainda, manusear um suporte criativo que preservou, em parte, essa arte tão efêmera que é o teatro.
Quiçá B. continue estimulado e realmente escreva suas besteiras ou doidices como gosta de brincar ao classificar suas idéias e/ou ações. Que B., um dia, consiga financiamento para contar com auxílio de profissionais que tratem, organizem e disseminem seus tesouros do "relicário" - que
9 Cuja composição é aproximadamente a seguinte: 1719m. de imagens; 8.645m. de livros; 30
peças de museus; 1890m. de documentação; 40 tubos de jornais; 2,40m. de discos em vinil e 2,10m. de slides. Luciene Carrijo e eu medimos esse acervo, em maio de 2006.
10 Vale ressaltar que o LP que foi distribuído gratuitamente à sociedade na época e à mim na
entrevista, foi planejado em parceria com o Ministério da Educação e da Cultura, pelo Centro Audiovisual da FEFIEG, quando B. ainda era reitor. LP – FEFIEG/ MEC – 001. COCTEAU, Jean. “O Belo Indiferente”, Intérprete Glauce Rocha, Trad., Daniel Rocha, Rio de Janeiro: Tapecar gravações S/A, 1975.
amorosa desse homem pelo universo teatral.
Refiro-me ao seu acervo como "relicário" porque um dos significados desta palavra propõe a idéia de uma caixa ou outro lugar próprio para guardar preciosidades de valores material e afetivo, elementos que revestem e constituem os sentidos das relíquias do acervo do B.. Que um dia, abrir essa caixa-relicário, não seja só para compartilhá-lo com quem esteja autorizado a circular por sua intimidade familiar, em sua casa, mas seja para socializá-lo com o público, em um espaço amplo e adequado para abrigar esses tesouros tão entrelaçados à sua vida. Assim, contando e disseminando a todos as histórias de B. e, por conseguinte, de nossa sociedade. Num abrir de caixa com resultados inversos ao de Pandora, na verdade, proporcionando-nos oportunidades de percebermos e interpretarmos vários bastidores de cenas culturais de ontem e de hoje.