Não é a toa que o escritor Monteiro Lobato (Taubaté, São Paulo, 1882-1948) deu nome e vida à sua Emília. Muito inspirado por Rousseau com suas idéias libertadoras, ele cria uma boneca sem juízo (e não uma personagem humana), colocando em sua boca palavras de ordem, ironias, críticas sociais, políticas e culturais; como um bobo da corte que tinha a concessão de falar verdades jamais pronunciadas por qualquer outra pessoa sem ser guilhotinado. Mas a Emilia de Monteiro Lobato tinha, sobretudo, liberdade para sonhar. Tinha o pozinho do
pirlimpimpim, tinha a audácia de uma criança viva, livre, criativa. Talvez fosse até um alter
ego do próprio autor impossibilitado de se expressar, pois preso e cassado em seus direitos de cidadão – aliás, como Rousseau, que teve seu livro Emílio condenado logo do lançamento em Paris.
Nivaldete F. da Costa (s/d)37 em artigo intitulado “Emília” e “Emílio”: um face a face entre
Lobato e Rousseau, descreve a influência do pensamento de Rousseau sobre a obra infanto
juvenil de Monteiro Lobato (aqui nos referimos ao conjunto de livros que resultou no “Sitio do Pica-pau Amarelo”, série de televisão muito vista na minha infância e ainda em exibição).
Segundo a autora, Lobato, como Rousseau, era uma pessoa contestadora e corajosa com os seus ideais. Trabalhou como adido comercial nos Estados Unidos durante cinco anos e, ao retornar (em 1931) escreveu o seu livro “América”, evidentemente encantado com o progresso econômico desse país. Logo depois, em 1936, lança “O Escândalo do Petróleo”, “em que expõe suas idéias sobre a questão energética do Brasil” (COSTA, s/d, p. 03). Mesmo sob o jugo de um governo ditatorial (Estado Novo), Lobato escreveu uma carta dirigida a “Getúlio Vargas, na qual critica a política do ditador em relação ao petróleo” (Ib.). Por isso foi calado.
Segundo a autora, entristecido, Monteiro Lobato encontra forças na literatura infantil e retoma um antigo projeto iniciado com o livro “A Menina do Narizinho Arrebitado” de 1921. Foi nele que Lobato faz nascer a Emília, personagem irrequieta, dona de uma liberdade revolucionária38, detentora de muitas vontades e planos de transformação. Mas sobretudo Emília possuía aquilo que exatamente foi tolhido do seu autor: a liberdade de expressão. Emília, que inicialmente não falava, após tomar a pílula do Dr. Caramujo, começou a falar torrencialmente: “diz asneiras enormes, e também coisas tão sábias que Dona Benta fica a pensar” (LOBATO apud COSTA, s/d, p. 4). Segundo a autora,
(...) é de substância verbal que Lobato mais nutre “Emília”. A força pedagógica da boneca é a liberdade de expressão; a palavra não sitiada; a palavra divergente, no mais das vezes; a palavra abstrusa39 ou sensata; em outros momentos, eivada de imaginação, mas sempre criadora. A boneca é, enfim, como ela mesma se define, “a Independência ou Morte” (p. 04, aspas do original).
Se de um lado Monteiro Lobato imaginou a Emília plena de idéias e loucas explicações para tudo, do outro, concebeu a sua boneca como uma criança que está repleta de indagações: “vivia pedindo que lhe contassem a história de tudo – do tapete, do cuco, do armário” (p. 08).
Sem dúvida, essa natureza das crianças, de ser humano solicitador, arguidor, nos é exemplar. Se de um lado elas nos revelam a sua fragilidade diante das coisas, pois carentes de conhecimento e sentido, de outro nos revelam uma postura muito particular, realmente e humanamente íntegra. Nas crianças as perguntas são sinceras, isto é, sem interferência e 38
Comentamos a pouco sobre os perigos de termos crianças livres entre nós. Crianças que têm o espontâneo em sua natureza, quando citamos Maria Amélia Pereira (1996, p. 11): (...) “o brincar contém algo muito importante, envolve uma dimensão extremamente revolucionária que é o espontâneo, sendo, portanto, perigoso deixá-lo acontecer”.
39 ... a palavra abstrusa [de difícil compreensão, obscura (In. <http://pt.wiktionary.org/wiki/abstruso>)], ou sensata; em outros momentos, eivada de imaginação [contaminada, manchada (In.
<http://www.dicionarioinformal.com.br/buscar.php?palavra=eivado>)], mas sempre criadora. Visto em 27/07/2011.
preconceito. São capazes de se colocarem diante das coisas e das questões com total abertura e crença. Por isso são – se não formos justos com elas –, facilmente enganadas.
Gostaria de fechar aqui esse pequeno tópico com a passagem que talvez tenha, de certa forma, inspirado Maria Amélia Pereira, deixando ressaltar a preocupação que o seu autor já naqueles tempos trazia:
A natureza quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se quisermos perverter essa ordem, produziremos frutos temporões, que não estarão maduros e nem terão sabor, e não tardarão em se corromper; teremos jovens doutores e crianças velhas. A infância tem maneiras de ver, de pensar e de sentir que lhe são próprias; nada é menos sensato do que querer substituir essas maneiras pelas nossas. (...) Com efeito, de que lhe serviria a razão nessa idade? Ela é o freio da força, e a criança não precisa de freio (ROUSSEAU 2004, p. 91-92).
Não posso porém, finalizar esse parágrafo concordando com Rousseau sobre a questão de que a razão não serviria às crianças nessa idade. No meu entender não há divisões, não existe a criança sem a razão. Toda a elaboração mental, toda a organização cerebral daquilo que a impacta, com tudo ao seu redor, as suas perguntas, seus sentimentos, as suas conclusões, são já desde os primeiros tempos, uma forma de uso da razão. Porém, talvez, não como nós adultos a concebemos. Pereira (2009), esclarece um pouco esse tema colocando a criança no seu lugar mais adequado: o momento do brincar. A criança não é um ser irracional, ela é um ser que brinca:
(...) para o sistema, brincar não é um processo de conhecimento – é uma atividade recreativa. É a questão do tempo livre: se a criança não tem nada melhor para fazer, vai brincar. Por isso que eu me preocupo com a questão da consciência sobre a cultura na infância. A língua da infância é o brincar e, para que as pedagogias entrem nessa linguagem, é preciso que elas desenvolvam a inteligência que a criança tem quando brinca (p. 34).