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O censo utilizado no presente estudo continha diversos itens3 dentre os quais apenas

alguns foram selecionados como variável para a realização das análises. Procurou-se utilizar todas as variáveis que pudessem impactar de alguma forma o consumo alimentar e os padrões de atividade física, refletindo-se assim nas medidas antropométricas dos indivíduos amostrados. Devemos lembrar que estas características foram utilizadas para a identificação de agrupamentos socioeconômicos/demográficos entre as UDs (ver item 5.2 deste capítulo). Desta foram, selecionadas as sequintes variáveis:

a) variáveis quantitativas: (1) número de membros coresidentes, (2) número de membros coresidentes que auxiliam na renda e (3) número de itens plantados;

b) variáveis qualitativas: (1) tipos de fontes de renda: 1.a- artesanato;

1.b- aposentadoria e/ou pensão; 1.c- comércio;

1.d- diarista em roça 1.e- extrativismo;

3

1.f- salário;

1.g- subsídios governamentais: incluiu unidades domésticas que declararam receber bolsa- escola ou bolsa-família4;

1.h- prestação de serviço; 1.i- outras fontes.

(2) tipo de produção agrícola: 2.a- apenas subsistência 2.b- subsistência>comércio 2.c-subsistência<comércio 2.d-apenas comércio 2.e-não planta

(3)escolaridade dos chefes de família do sexo masculino e feminino: 3.a- analfabeto e analfabeto funcional;

3.b- alfabetizado;

3.c- fundamental incompleto ou completo; 3.d- médio incompleto ou completo;

(4)profissão dos chefes de família do sexo masculino e feminino – lavrador. 4. Antropologia Nutricional: Antropometria como Método

Este trabalho está inserido em uma abordagem teórica interdisciplinar denominada Antropologia Nutricional. Como campo de estudo, a Antropologia Nutricional está interessada fundamentalmente em entender as inter-relações entre forças biológicas e sociais em moldar o uso dos alimentos e o status nutricional de indivíduos e populações (Pelto et al., 2000). Desta forma, ela reúne pesquisadores que investigam os problemas relacionados à nutrição sob um ponto de vista contextual, combinando teoria e método tanto das ciências naturais quanto da nutrição (Kandel et al., 1980). Assim ela utiliza ferramentas de várias disciplinas, tais como a nutrição, economia agrícola, bioquímica, antropologia física, biomédica, antropologia cultural, sociologia, psicologia, ciência política, entre outras, essenciais para o estudo das dimensões sociais, culturais e psicológicas da produção e distribuição alimentar. (Pelto et al., 1980).

Dentro desta abordagem integrativa, o objeto de estudo desta dissertação foi o status nutricional de populações quilombolas, sendo que o método utilizado para acessá-lo foi a antropometria nutricional. Esta se trata de um método que está interessado nas variações das dimensões, proporções e de alguns aspectos da composição do corpo humano em diferentes idades e situações nutricionais (Jelliffe et al., 1989). Desta forma, as medidas antropométricas podem refletir a ingestão insuficiente ou excessiva de alimentos, a prática de atividades físicas e enfermidades (WHO, 1995).

4O censo foi aplicado durante a transição do subsídio bolsa-escola para o bolsa-família, assim algumas UDs declararam receber o primeiro enquanto outras já recebiam o segundo.

À partir da década de 1960, a antropometria se tornou um método muito utilizado para acessar o status nutricional de indivíduos e populações (Mascie-Taylor & Lasker, 1991). Porém, anteriormente a atenção sobre o uso apropriado deste método estava voltada principalmente para lactentes e crianças, devido à vulnerabilidade do grupo e ao valor do uso deste método para caracterizar o crescimento e o bem-estar. Entretanto, avanços durante as últimas décadas têm demonstrado a relevância da antropometria ao longo da vida, não só para a avaliação do status nutricional individual, mas também para refletir o estado de saúde e circunstâncias econômicas e sociais de grupos populacionais (WHO, 1995).

Desta maneira, a antropometria tem sido o método mais utilizado para o estudo de dois dos problemas nutricionais de maior prevalência no mundo: a desnutrição protéico-calórica, principalmente em crianças e gestantes em países subdesenvolvidos, e a obesidade em todos os grupos etários em países desenvolvidos (Jelliffe et al., 1989; WHO, 1995).

Esse amplo uso do método antropométrico se deve a algumas de suas vantagens: possui baixo custo, é objetivo, não invasivo, de execução relativamente fácil, reproduzível com pouco treinamento e produz resultados quantitativos validáveis (Jelliffe et al., 1989; WHO, 1995; Adams, 2002).

Porém, como todos os métodos, ela também apresenta desvantagens. Dentre elas, é destacamos a imprecisão nas medidas, que pode ser ocasionada por falhas na técnica do observador ou erros na transcrição das medidas. Além disso, a análise de algumas medidas antropométricas requer que se saiba com precisão a idade quando aplicado à crianças e algumas culturas não atribuem importância social a isso. Este método também proporciona um diagnóstico nutricional limitado, principalmente em casos de desnutrição protéico-calórica. Outra desvantagem a ser considerada é a existência de problemas na seleção da população referência adequada (Johnston & Martorell, 1988; Jelliffe et al., 1989; Mascie-Taylor, 1991; WHO, 1986, 1995), o que será melhor discutido posteriormente (item 4.2).

As medidas mais usuais são aquelas feitas para avaliar: (1) a massa corpórea; (2) dimensões lineares, especialmente a estatura e (3) composição corporal e reservas de calorias e proteínas, indicados pelos principais tecidos moles: gordura subcutânea e músculo (Jelliffe et

al., 1989).

A massa corpórea é a medida antropométrica mais utilizada e apresenta a vantagem de ser sensível a influências ambientais momentâneas, como em casos de subnutrição ou sobrenutrição aguda. Ela é composta pela massa magra, órgãos internos, gordura e água corpórea. Porém, devemos considerar que essa medida só pode ser interpretada quando avaliada em conjunto com informações sobre a estrutura e composição corpórea, como medidas de estatura, estrutura óssea (em adultos) e proporções de músculo e gordura e osso (Gordon et al., 1988; Jelliffe et al., 1989; Adams, 2002).

A estatura reflete o crescimento do esqueleto. Falhas na taxa de crescimento e estaturas anormalmente baixas podem refletir condições econômicas precárias, com episódios passados e/ou condições presentes de desnutrição crônica, que podem ser ocasionados por déficit no consumo alimentar e por infecções crônicas ou de repetição (WHO, 1995; Bogin,

1999). Porém, a estatura é um indicador de condições ambientais durante o período de crescimento em longo prazo, e não é sensível, como o peso, a episódios de desnutrição aguda (Jelliffe et al., 1989).

No estudo da composição corpórea, a antropometria pode ser utilizada para criar estimativas sobre a massa muscular e os estoques de gordura (Lohman et al., 1988;Frisancho, 1991). Esses tecidos variam principalmente com a deficiência protéica e com o consumo excessivo ou ineficiente de energia (Jelliffe et al., 1989).

A maior parte do estoque energético humano está concentrado sob a forma de gordura na parte subcutânea, especialmente em crianças. Entretanto, quantidades consideráveis também estão presentes ao redor do fígado e coração, na cavidade abdominal e entre os músculos. Porém, esses estoques de gordura que se localizam em partes mais internas do corpo humano são imensuráveis sem o uso de equipamentos extremamente sofisticados. Já a gordura subcutânea, por não estar aderida aos demais tecidos, pode ser facilmente levantada e medida através do uso de um adipômetro (Harrison et al., 1988; Adams, 2002). Essas medidas proporcionam uma estimativa da gordura superficial e acessível, através da mensuração da camada dupla de pele e gordura, ou prega cutânea (Jelliffe et al., 1989).

Já a massa muscular de um indivíduo pode ser calculada através da medida da circunferência do braço médio. Além de uma estimativa dos estoques de proteína (músculo), essa medida também pode proporcionar uma estimativa dos estoques de energia (gordura) (Callaway et al., 1988). Em contraponto, com a obesidade a circunferência do braço médio seria maior que o normal, como resultado do aumento da gordura subcutânea. Além disso, a circunferência do braço pode ser uma confirmação objetiva de observações clínicas de baixo peso ou obesidade. Em crianças em países em desenvolvimento, que frequentemente possuem pouca gordura subcutânea, a medida reflete principalmente tecidos musculares. Já em adultos, em países industrializados, a circunferência do braço está relacionada sobretudo a estoques de gordura subcutânea (Jelliffe et al., 1989).