Diversos discursos políticos têm sido feitos no sentido de viabilizar a arte como fonte de renda ou como fatia de um mercado potencialmente rentável. Não desejamos desarticular esta idéia (até mesmo porque ela tem garantido que investimentos nunca antes feitos na área de cultura estejam sendo efetivados). Contudo, víamos a necessidade de desarmar um discurso em alguns pontos falaciosos. Falaciosos por quê? Em primeiro lugar, o cidadão deve ter o direito a exercer uma prática poética independentemente de sua inserção ou não no mercado de trabalho, ou da absorção de sua produção pelo mercado. Em segundo lugar, existe uma infinidade de cursos profissionalizantes de teatro que vendem a idéia de que o mercado tem potencial para absorver a todos – o que não é verdade. E, em terceiro lugar, a ilusão desta absorção pelo mercado se dá, via de regra, pelo sonho fetichista do reconhecimento público de talentos individuais (o culto da celebridade e, principalmente, o sonho da fama televisiva).
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CHAUÍ, Marilena. Cidadania cultural, O Direito à Cultura. São Paulo, Editora fundação Perseu Abramo, 2006, p. 69.
O pior: no nosso caso, víamos uma reprodução medíocre destes modelos, já equivocados em sua origem, nos equipamentos públicos da SMC. A reprodução de um parâmetro adotado por cursos particulares, em uma versão mais econômica (menos horas de aula, professores menos qualificados, espaços inadequados), sob a égide da utilidade social de uma formação profissionalizante para jovens, é talvez o subproduto mais enganoso deste modelo. Mas também caracteriza o discurso mais absorvível pelas políticas que haviam sido implementadas em gestões anteriores. Ou seja, os funcionários destes equipamentos, habituados a este discurso, tinham dificuldade de compreender a amplitude de uma proposta diferenciada.
Mas, definitivamente, não corroboraríamos estes equívocos. Nossa perspectiva se aliava à idéia de uma pedagogia livre, não profissionalizante. Idéia que tínhamos a partir do exemplo da formulação de fundação da Escola Livre de Teatro de Santo André, talvez nossa segunda maior influência (depois de Weckwerth) para a elaboração do Projeto.
No Livro “Os Caminhos da Criação: Escola Livre de Santo André: 10 anos”41, há um texto datado de 1992, que explica alguns princípios de um projeto piloto da Escola (doravante referida apenas por ELT). O texto menciona uma divisão da maioria das escolas de teatro da Grande São Paulo em duas espécies: as que adotam o modelo acadêmico tradicional, equilibrando formação teórica e prática a partir de uma perspectiva mais histórica do que estética, tomando uma posição mais passiva que ativa em relação aos conteúdos, com professores que, geralmente (principalmente na época em que o texto foi escrito), não exercem mais atividades de criação; ou as que visam profissionalizar os alunos, distribuindo certificados, cada vez em menos tempo, a fim de produzir atores descartáveis para o mercado, especialmente o da mídia televisiva. A
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SANTO ANDRÉ (SP). SECRETARIA DA CULTURA, ESPORTE E LAZER. Os Caminhos da
ELT se posicionava, em sua fundação, num parâmetro diferenciado: alcançar a mobilidade de uma oficina cultural, sem perder de vista a perspectiva formacional do aluno, ou seja, focar o crescimento artístico e de instrumentalização do aluno, sem prender-se a obrigações curriculares pré-fixadas.
A palavra “livre” do nome era novamente invocada. A escola é em primeiro lugar um espaço de formação do indivíduo. A dimensão humana deve anteceder a dimensão profissional. Para isso tornar-se realidade, foi preciso desvincular-se das exigências curriculares do Ministério da Educação e Cultura e desobrigar-se de conferir diplomas profissionais. A ELT afastava-se cada vez mais dos padrões normais de ensino teatral e se lançava na busca da experimentação.42
Além da não-cessão de diplomas, o termo “livre” da ELT realoca a sua produção em função de sua vinculação com uma “concepção aberta, antenada com a produção teatral no Brasil e no mundo e de poder vir a ser um centro de pesquisa, incentivador do processo de experimentação artística”.43 Tal perspectiva também alinhava-se com nossas expectativas em relação ao teatro vocacional, ou seja, compartilhar “princípios” estéticos entre o teatro amador e o teatro mais experimental da cena paulistana, como princípios de pesquisa poética e não como princípios técnicos, de treinamento profissionalizante. Assim, na ELT, os mestres são artistas atuantes que compartilham não apenas seus conhecimentos práticos e teóricos acumulados, mas também seus anseios criativos ligados a um projeto próprio de elaboração estética. A figura do professor como artista não é anulada; ela é, antes, essencial. Ela que trará, para o
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Criação: Escola Livre de Teatro, 10 anos. Santo André: Departamento de Cultura, 2000, p. 9.
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contato com o aprendiz (e também neste termo vemos a referência a um ambiente de atelier), a contundência de um projeto investigativo compartilhado.
Deste modo, o projeto da ELT lançou luzes sobre um anseio nosso: o anseio de romper com uma dicotomia entre o ensino e a prática criativa da arte (tema que aprofundaremos no segundo capítulo desta dissertação). Não é à toa que o termo “artista-orientador”, adotado por nós, surgiu a partir de um texto do mesmo livro (ainda dentro dos princípios de fundação da ELT.).
Além do interesse na experimentação cênica, na pesquisa de linguagens teatrais, o artista-orientador44 deveria vislumbrar a aprendizagem artística não como um processo tradicional de ensino, mas como um percurso em que o aluno se apropriasse do conhecimento com liberdade de utilizá-lo segundo critérios próprios. O aluno, estimulado a se encarar como produtor de arte, deve adquirir a capacidade de organizar e articular as suas necessidades criativas pessoais.45
Este aspecto de uma não-divisão entre o ensino/aprendizagem da arte e a criação artística em si foi adotado de imediato pelo Projeto de Teatro Vocacional e configurou um, entre outros aspectos, de uma visão claramente alinhada a um pensamento crítico e dialético: aspectos de uma política que não dissocia no homem a fruição da produção, a técnica da estética, a estética da política e a forma do conteúdo. E, principalmente, não dissocia processo de produto. Certamente, contribuía para estes primados minha própria formação como atriz.
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Grifo nosso. 45
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