A “polifonia” das imagens dos grupos da Biblioteca Pública Alceu Amoroso Lima e da Biblioteca da Vila Manchester também deve ser considerada no quadro problemático do desejo da Comunidade. Poderíamos argumentar que tais imagens são reflexo da chamada democracia estandardizada da opinião pública, regida pela dominação das informações, nos termos de Virilio, ou como um sintoma do periodismo criticado por Benjamim, que ocupa o lugar da experiência real. Uma insistência em frases feitas que povoam as manchetes midiáticas (que no caso compunham, entre outras, as colagens das diversas imagens, na maioria tiradas de revistas) poderia nos levar a esta leitura. Mas algo, para além disso, pode ser considerado. No momento em que estas imagens passam a figurar em ordem não-hierárquica, numa organização caótica de temas e contextos, produzindo uma poluição visual estonteante que se autodenomina “coletivo”, devemos olhar o fato com um pouco mais de atenção. Em nosso entender, um procedimento crítico, ainda que bastante embrionário, está se operando. Em primeiro lugar, a ação do recorte e da montagem cria um discurso ativo que atua pela disjunção, pelo espaçamento e pelo posterior cotejamento dos fragmentos. Assim, a informação deixa de ser meramente transmitida para figurar como fragmento significado. E embora estes fragmentos não adquiram a contundência de um discurso crítico articulado, eles formalmente vão operar com crítica à massificação da informação. O coletivo, portanto, seria um aglomerado de fragmentos de informação, mostrando o condicionamento do indivíduo à lógica do sistema, mas constituindo-se como novo discurso apropriado pela ação de significação desta fragmentação. Apenas no coletivo é possível se cotejar obsessivamente estes fragmentos, a ponto de, pela insistência no procedimento, criar uma nova camada de significado que rompe as molduras do próprio meio da informação (os recortes ultrapassando os limites do papel).
A operação neste caso se dá no campo da forma. Armin Petras, dramaturgo alemão, em texto já citado, constrói um quadro interessante que nos lembra esta operação:
Os objetos só nos são dados dentro dos limites da sensibilidade – jamais poderemos ultrapassá-los/
Quanto mais nos apropriarmos de representações sensíveis tanto menos poderemos ser surpreendidos e tanto mais as modificações nas nossas vidas poderão tornar-se experiências possíveis e tanto antes estaremos em condições de aprender a lidar com as
inevitáveis e destruidoras catástrofes/
Isso significa reconhecê-las com o auxílio de representações sensíveis disponíveis como possibilidade de mundo e contrapor uma película de novas imagens ao inevitável choque que nos conduz a essa crise e que cava um buraco negro de medo em nossos corpos/ ao fundo delas esse buraco negro cria sim uma nova imagem que se não nos possibilita a sobrevivência ao menos não necessariamente a impede /
“A diferença só existe entre o que já é e o que ainda não é conhecido”, diz lênin(sic)/
não é possível entender o organismo se só for tomado como um todo
que é a mera soma de suas partes –
o todo é mais do que a soma de suas partes o todo é o organismo.102
102
PETRAS, Armin (Fritz Kater). Feche os Olhos e Voe ou Guerra Brava 5 – Guerracegasimplexo. Ato 2, Cena 2. Tradução de Christine Roerig. Não publicado.
Aqui vemos a imagem de um buraco negro como uma densidade coercitiva e absorvente, que pelo excesso das informações suga para dentro toda luz das iniciativas singulares. Contudo, no seu reverso podemos presumir (e seria um exercício interessante), como os astrônomos, outra realidade, uma dimensão espelhada onde novas projeções podem surgir. E o que esta nova dimensão poderia projetar para fora do buraco? Que nova imagem seria esta?
Assim nós teríamos duas ações possíveis para lidar com este excesso de informações: por um lado trabalhar por uma seleção cada vez mais reduzida, mais focada, naquilo que verdadeiramente nos interessa, mas, por outro, não podemos nos furtar a perceber que, talvez, pela consciência do bombardeio a que somos submetidos, pudéssemos converter esta ausência de significação em uma experiência do excesso. Ou seja, perceber que lidamos com detritos de algo maior que não conseguimos visualizar, mas que, pela operação de choque destes detritos, talvez pudéssemos operar o “escovar a História a contrapelo”, que Benjamim sugere. Assim, o anjo da história para Benjamim vê, ao contrário de nós, que vemos uma cadeia de acontecimentos, uma
(...) catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa aos nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irreversivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é que chamamos progresso.103
103
BENJAMIM, Walter. Sobre o Conceito da História. In: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo:
O postulado do progresso quer que prossigamos na confiança de que este amontoado de informações componha uma sucessão homogênea de acontecimentos. Mas talvez devêssemos olhá-lo, não como capítulos de uma história que esta sendo narrada de um ponto de vista exterior e totalizante, mas como indício das sucessivas derrotas daqueles que não têm voz na narrativa. Deste modo, a operação do choque destes fragmentos talvez pudesse projetar, mesmo que por instantes, a fantasmagoria dos mortos no combate. E talvez, assim, percebêssemos que este quadro, se não lega ao grupo uma identidade comum e igualitária, que seria a anulação da diferença, ao menos possibilita ao coletivo compartilhar a experiência da própria derrota e fragmentação.
Evidentemente esta leitura da auto-imagem destes grupos é muito elucubrativa, talvez excessivamente poética, para a consciência que tínhamos na época. Todavia, era certo que percebíamos nesta expressão algo mais vivo que a simples reprodução da “democracia estandardizada da emoção pública”. Apenas não sabíamos por quê.