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4. General discussion

4.3 The value of basic need satisfaction

Em 1918, ao receber o convite para trabalhar no Correio Paulistano, em São Paulo, Menotti Del Picchia muda-se sem a família para a Capital. O prestigioso Correio

Paulistano era o diário mais antigo da cidade (1854), um jornal governista pertencente ao

Partido Republicano Paulista, que servia como veículo oficial de expressão do pensamento das oligarquias paulistas no poder. No entanto, por não conseguir o cargo que ambicionava, Menotti transfere-se para Santos, como redator de A Tribuna, onde permanece durante dois anos. Nessa fase, convive com escritores ligados ao parnasianismo e à literatura regionalista, como Ribeiro Couto, Vicente de Carvalho, Martins Fontes, Valdomiro Silveira e Ibrahim Nobre.42

Menotti retorna a São Paulo, como diretor de redação de A Gazeta.43 Como

cronista social, escreve para o Correio Paulistano uma série de artigos, a partir de 1919, com

42 Santos foi o berço de muitas personalidades de destaque: Vicente de Carvalho (1866-1924), “o poeta do mar”,

escritor parnasiano natural da cidade, republicano e abolicionista, foi membro das Academias Paulista e Brasileira de Letras; Martins Fontes (1884-1937), poeta parnasiano santista formado em medicina, fundou com Olavo Bilac em Paris uma agência de propaganda dos produtos brasileiros no meio da década de 1910; Ribeiro Couto (Santos, 1898-1963), escritor e magistrado, marcadamente influenciado pelo simbolismo, exerceu largamente a atividade jornalística. Acometido pela tuberculose e em busca de climas favoráveis à saúde, trabalhou no interior paulista na década de 1920. A partir de 1928, desenvolveu sua carreira diplomática em consulados europeus. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1934. Na década de 1940, será um dos redatores do jornal A Manhã, dirigido pelo amigo de Menotti Del Picchia, Cassiano Ricardo. Ibrahim Nobre e Valdomiro Silveira não nasceram em Santos, mas trabalharam na cidade. Ibrahim Nobre formou-se em direito e tornou-se delegado de polícia no interior do estado, sendo em Santos o titular da Delegacia de Polícia. Sua figura teria inspirado Menotti Del Picchia na construção da personagem de um delegado interiorano que perseguirá o bandido “Dente de Ouro” na novela publicada em 1921, sintetizada neste capítulo. Valdomiro Silveira (1873- 1941) também fomou-se em direito. Foi contista regional que procurou fixar em seus contos os costumes paulistas interioranos. Foi um pioneiro no gênero, pois começou a publicar contos na imprensa sobre os caboclos na década de 1890.

43 A Gazeta foi adquirida por Cásper Líbero (1889-1943), em 1918. Cásper Líbero era filho de um dos

fundadores do Partido Republicano Paulista (PRP), o médico Honório Líbero. Formado em direito na Faculdade do Largo de São Francisco, assumiu o jornalismo como profissão, defendendo desde a década de 1920 um discurso ao mesmo tempo progressista, nacionalista e regionalista, que atribuía a São Paulo a frente no processo de desenvolvimento nacional. Na década de 1920, foi simpatizante do fascismo e, posteriormente, do integralismo.

os pseudônimos “Helios” e “Aristhofanes”, quando se aproxima dos escritores Oswald de Andrade e Mário de Andrade, e do escultor Victor Brecheret.

Menotti associa, em suas memórias, o seu relacionamento amigável com Oswald

de Andrade à publicação e divulgação do poema Juca Mulato.44 A partir de então,

desenvolverá uma intensa convivência não só com Oswald e Mário, mas também com Anita Malfatti e, posteriormente, Tarsila do Amaral, formando com eles o chamado “Grupo dos Cinco” (AMARAL, 2003:66).45 A obra de Brecheret encantará Menotti.46

As crônicas de Menotti para o jornal do PRP, ou seja, para o Correio Paulistano, formam uma miscelânea de notícias e impressões sobre variedades que demonstram uma considerável liberdade de expressão e autoridade no sentido de colocar temas na agenda diária e interferir nas opiniões correntes. Com muitos recursos de linguagem, o autor demonstra capacidade de persuasão, mesmo quando expressa as opiniões mais polêmicas.

Tudo em nós é lenda. O diabo foi Carlos Gomes e Alencar inventarem o tal Peri, o índio romântico que conhece harmonia e contraponto e que, como um

44 No prefácio de O Homem e a Morte, na edição de 1968, Menotti parece ter confundido as críticas feitas sobre Poemas do Vício e da Virtude, em O Pirralho, em 1913, com o poema Moisés, ou trata também de outra crítica

por mim não localizada. De toda forma, as datas memorizadas por Menotti também são confusas, pois o autor só voltará a morar em São Paulo em 1919. “Não conhecia ainda o criador de ‘Memórias de João Miramar’ quando, ainda estudante, na Academia de Direito de São Paulo, publiquei o poema ‘Moisés’. Oswald, então incorporado ao grupo parnasiano de Emílio de Menezes, pela revista ‘O Pirralho’ tornada famosa pelas caricaturas de Voltolino, criticou, com a oswaldiana mordacidade, o poema que já era, de certa forma, uma insurreição lírica. [...] Por dois anos o perdi de vista. Foi, pois, para mim uma surpresa – e, na ocasião, estava almoçando no Hotel Migliori, onde então morava – ver o censor do meu ‘Moisés’ surgir com aquele sorriso que a todos desarmava e a irradiar uma simpatia que a todos seduzia. Apresentou-se e disse em resumo: ‘Daysi lera o ‘Juca Mulato’. Queria conhecer o autor. Daysi era seu último amor e estava muito doente. Acordaria em ir com ele fazer uma visita?” (MENOTTI, 1968:X).

45 No entanto, a relação de nosso autor com algumas dessas personalidades já apontava para certas fragilidades.

“Se havia em nosso movimento um instintivo genial como Oswald, havia um homem de cultura e erudição como Mário de Andrade, profunda e rapidamente informado do que se passava no mundo literário e artístico na Europa como na América. Menotti, de sua parte, não era um homem de formação regular, sistemática. Daí a razão, em textos seus, de citações, lado a lado, de D’Annunzio, Romain Rolland e Taine. Chegamos mesmo a combinar com o Mário que lhe fossem dadas aulas, visando informar Menotti de maneira mais racional. Mas Menotti era a tribuna da Semana. Ele, da redação do Correio Paulistano, conseguia uma divulgação para nossas idéias que jamais teríamos tido sem seu auxílio e colaboração” (depoimento de Rubens Borba de Moraes à Aracy Amaral, em 20.08.1968). Rubens Borba de Moraes era de origem rural aristocrática, com formação na Suíça, e participou dessa fase da história do grupo (AMARAL, 2003:85).

46 Menotti relata seu encontro com Brecheret e suas obras de arte:

“Ninguém o conhecia. Ninguém ouvira falar desse nome afrancesado, pouquissimo nacional e muito sonoro. [...] O primeiro a dar o brado fora Di Cavalcanti. Parara, pasmo, diante de uma medalha comemorativa do centenário, onde os cavalos, a pátria, os gênios da raça faziam grupos maravilhosos. [...]

Hélios, Di e Oswald procuraram-me, anunciando-me a América que havia descoberto. Eu, precavido, desiludido, desconfiei. No outro dia, após um almoço no qual Brecheret – que eu via pela primeira vez – não disse uma palavra, fui ao Palácio das Indústrias. Colheu-me a mesma surpresa! E, com meus quatro amigos, começamos a clarinar a glória de quem era tão grande e tão humilde. São Paulo possuía um dos maiores artistas da América”. (DEL PICCHIA citado em PELLEGRINI, 2000:16)

rouxinol, garganteia nu e emplumado, nas mais complicadas árias do teatro lírico nacional. Foi uma péssima propaganda essa, um mau serviço.

E agora, para conservarmos o prestígio dos nossos historiadores, para apresentarmos ao estrangeiro pau-brasil e índios, precisamos andar encharcando de tinta vermelha pedaços de bálsamo e amarrando às pressas penas de galo nos rins e nas cabeças de caboclos pintados com demãos de ocre e aguarrás (HELIOS, Crônica Social: “Pau Brasil”, 6jul.,1920 in Barreirinhas, 130-131).

Nessa época, um recorte significativo, que mostra não só a postura e a visão de um dos principais cronistas de o Correio Paulistano como de uma parcela mais ampla da elite letrada paulistana em torno da presença dos negros e mestiços na sociedade brasileira pode ser destacado do evento em torno da temporada do conjunto musical “Oito Batutas”, em outubro

de 1919, em visita à capital paulista47 (BESSA, 2005). Até então, não era comum a

apresentação de um grupo de músicos com integrantes marcadamente negros, dentre eles Donga e Pixinguinha, em espaços ocupados e de circulação preponderantemente elitistas.

Como diretor de A Gazeta e cronista social no Correio Paulistano, Menotti esteve diretamente ligado à campanha feita pela imprensa de valorização e apoio ao grupo em excursão por São Paulo.

Instigante é a forma como o filho de imigrantes italianos, já em 1919, constrói a sua identificação “simpática” com relação aos “Oito Batutas”.48 Menotti Del Picchia contrasta

a temporada erudita de apresentações de espetáculos estrangeiros na capital (“Príncipe Ygor”, “Reunier e Dentale”) em alternância com a “temporada caipira”, representada pela música dos “Oito Batutas”, e dá as boas-vindas à segunda, afirmando “melhor compreender os catiras nacionais”, se comparados aos estrangeiros e estrangeirismos cultuados cotidianamente pela elite paulistana (representados no artigo pela música romântica de Puccini e Chopin) e aos “sapateados russos”, recentemente em cartaz. Note-se as metáforas vegetais relacionadas aos músicos “de cor”.

47 Os “Oito Batutas” era formado pelos músicos China (violão e voz), Donga, (violão), Jacob Palmieri (ganzá),

João Pernambuco (violão), Luís de Oliveira (bandola), Nelson Alves (cavaquinho), Pixinguinha (flauta) e Raul Palmieri (violão) (BESSA, 2005).

48 Observe-se que há muita semelhança entre a crônica sobre os Batutas e o exercício literário presente no poema Juca Mulato e algumas das peças de ficção de Menotti.

Ouvi-os ontem. Ao subir as escadas que me conduzem ao eito, um pranto de violões me acariciou o ouvido. Reconheci logo os velhos amigos de antanho, corpos de madeira guardando no seu bojo vibrante a alma sonora de todos os caipiras enamorados... Uma flauta fazia proezas, enquanto as vozes másculas zalumavam, no ritmo igual de uma nênia da selva.

– Quem são?

– Os “oito batutas”...

Imaginei oito Marinuzzis; os últimos batutas que por aqui andavam traziam cabeleira flamejante e casaca impecável... Eram, porém, oito bravos e fortes caboclos nortistas, trazendo a S. Paulo do “Triptico” pucciniano o pranto musicado da roça...

[...]

Eu, que – ironia do azar ou do destino – tenho assento na secção mais elegante do “Correio”, sinto em mim uma alma tão próxima da gente rude, da nossa terra, que ao ouvir o pranto dos violões, se alvoroçam meus nervos em ressurreições interiores e revi, numa evocação retrospectiva, noites claras de lua nos terreiros da fazenda, onde de cócoras, triste e noctâmbulo, o Belarmino, meu ex-pagem, arrancando ao pinho toda a angústia profunda da sua alma de caboclo, cantava trovas ingênuas como esta:

Perguntei se me queria. Suspirou...Ficou calada... Cabocla quando quer bem, Baixa os olhos, não diz nada...

O violão! O canto monótono do caiçara dolente! O gemido da flauta boêmia! Poesia profunda e estranha, que contagia tudo da sua dor imponderável. Tudo isso fiquei a cismar ouvindo os “Oito Batutas”49. [...] (Hélios, Correio Paulistano, 22.10.1919).

Virgínia Bessa nota a diferença de tratamento nos artigos da imprensa sobre a recepção aos “Oito Batutas” entre o Rio de Janeiro e São Paulo: enquanto a imprensa paulista enfatizava o “aspecto sertanejo” e o “caráter regional” do conjunto (note-se que Menotti os

49 Em uma crônica publicada em O Pão de Moloch (1921), Menotti considera o violão como o instrumento da raça,

concordando com o personagem Policarpo Quaresma. É como se o violão representasse uma música autóctone. “Era um grupo, noctâmbulo e boêmio de serenatistas, que tocava no violão – ó o divino instrumento da minha raça! – uma toada caipira, doce como um beijo de Inocência e sadia como um fruto sumarento da minha terra” (1921:82) Inocência é a personagem do romance de Taunay que já fazia parte do imaginário interiorano da época.

denomina “caboclos nortistas”), no Rio de Janeiro o destaque era colocado na variedade sonora apresentada no repertório dos músicos. Em São Paulo, é “curioso notar que nenhuma dessas notícias fez menção ao fato de todos os membros do grupo, com exceção de João Pernambuco, serem cariocas e, vivendo na capital federal, também altamente urbanizados” (BESSA, 2005: 94).

É como se Menotti utilizasse termos metafóricos tácitos, capazes de identificar o grupo de mestiços e negros sem fazer referência direta à identidade racial dos mesmos. Por outro lado, nesse período, a presença dos negros não é assumida como um problema e a mestiçagem, tratada exclusivamente por meio da noção de caboclo, permite a criação de um viés regionalista que dissocia a participação dos negros na problemática da identidade paulista: os negros são identificados como nortistas.

Nas crônicas que publica na mesma época, quando aborda a viabilidade de se produzir uma arte brasileira, Menotti vai declarar serem as manifestações artísticas fruto do estado racial do povo. A condição tumultuária da arte brasileira do período histórico retrospectivo seria resultado da separação das três almas/raças que formariam nossa índole nacional.50

Essa miscelânea – fruto de uma época tumultuária, onde as raças em luta não se haviam acamado no sedimento de uma raça nova e única – anda por aí a atestar a origem complexa de nossa nacionalidade.

Fundidas num só povo, amalgamadas no seu tipo definitivo, modificadas pela reação do ambiente, todas essas levas emigratórias resultaram o tipo nacional que é hoje a expressão etnológica do nosso povo. Unificado, pois, o expoente da nossa raça, assimilado ao meio, é natural que dele brote uma arte espontânea e sua.

Os seus artistas, ao criarem a sua arte, vão procura-la na alma complexa que os anima, remontando, porém, como ponto de partida, as primitivas extrinsecações estéticas do nosso povo. Essa será, naturalmente, a base da nova concepção artística brasileira. (Aristophanes, 2 fev.1920, apud BARREIRINHAS, 1983: 72,73)

50 A dicotomia relacional entre corpo e alma, necessidade e fantasia, é muito freqüente nas crônicas de Menotti,

com análises do tipo: “O homem necessita de sonho para a alma, como de pão para o corpo” (apud BARREIRINHAS, 1983:128; Correio Paulistano, 7 jun.,1920, p. 1).

Menotti vê o caboclo como uma “colcha de retalhos de nacionalidades” (idem, 97). No entanto, não toca na questão do mestiçamento com o negro quando trata do tema, referindo-se, mais freqüentemente, às misturas dos novos imigrantes. Quando fala em origem cabocla trata do assunto como se a mistura fizesse parte de um passado remoto. Daí tratar o caboclo, tanto quanto o índio, como figuras, em via de desaparecimento no contexto do progresso industrial, sobretudo em um estado progressista como São Paulo. Essas raças seriam absorvidas por uma “raça forte”, o tipo “definitivo do brasileiro vencedor” (idem, 103). Nessa fase do pensamento de Menotti, a raça negra não aparece como participante do projeto de assimilação racial em prol de um novo tipo étnico.

A fixação de um tipo étnico definido levaria ao surgimento de uma estética original, formada pelo amálgama de tipos afins. Esse tipo étnico estaria presente, indubitavelmente, em São Paulo, lócus, segundo Menotti, do futurismo racial.

S. Paulo – berço de um futurismo racial, industrial, econômico – é o berço do futurismo cultural, a própria diversidade etnológica de seu povo tirou à índole da coletividade esse carrancismo que anquilosa as nações secularmente cristalizadas em determinadas normas de vida, e o seu cosmopolitismo tornou complexa e violenta a estrutura social da sua existência. A diversidade de características raciais em choque criou uma teoria de fecundas violências e, socialmente, S. Paulo foi o Estado futurista por excelência (Hélios, 11 fev. 1922, apud BARREIRINHAS, 1983:317).

Em janeiro de 1921, Menotti Del Picchia recebe em almoço no Trianon uma homenagem como escritor pela publicação do poema As Máscaras (1921), da qual participaram Oswald de Andrade e outros modernistas, reunidos no ano seguinte para a realização da Semana de Arte Moderna. É agraciado com um discurso de Oswald, que o consagra como um dos escritores inovadores da época e recebe uma máscara de autoria de Brecheret.

Nesse mesmo ano, Menotti lança-se, com o irmão José, no empreendimento cinematográfico, criando a empresa “Independência Filme”, pioneira no cinema falado no Brasil, segundo o próprio autor.51 Sua família passa a residir em São Paulo. Em 1921, vê

51 “Alvorada da Glória”, “Acabaram-se os Otários” e “O Campeão de Futebol” são três filmes lançados pela

“Independência Filmes”. Outro empreendimento do autor na época parece ter sido a participação na revista

Papel e Tinta, com Oswald de Andrade, publicação anunciada pelo cronista “Hélios” em 23 de abril de 1920

encenada no Teatro Municipal de São Paulo a peça teatral de sua autoria, “Suprema Conquista”, pela Companhia Dramática Nacional.