A estréia de Cassiano Ricardo como poeta deu-se com o livro Dentro da Noite (1915), publicado quando tinha 20 anos.94 O acadêmico Garcia Redondo, em carta endereçada
ao autor, que viria a ser publicada como prefácio do livro, assinala o caráter profundamente melancólico do poeta estreante. Segundo Garcia Redondo, a obra não poderia ser considerada um espelho da existência, por não retratar a alternância própria da vida entre riso e dor, pois traduzia unicamente tristeza e desânimo. Na verdade, o clima sombrio e de culto à melancolia e ao fúnebre contrariava mesmo o receituário parnasiano.95
Expressões como “visão do poente”, “spleen”, “crepúsculo”, “luz fria e funérea”, “íntimus dolor”, “dor da natureza” e “vultos de ciprestes” são algumas das inúmeras imagens entristecidas que recheiam a obra.
É notória já nesse primeiro livro a presença de um jogo poético contrastando cores, que ganham auras particulares. Algumas vezes, essas imagens surgem explicitamente associadas ao monoteísmo. Concomitantemente, a obra é especialmente marcada pela recorrência de imagens de personificação da natureza. No contexto de melancolia poética em que o autor se expressa, a tristeza aparece como intrínseca aos fenômenos naturais, que se humanizam e assumem o estatuto de sujeitos.
O ocaso tem a cor de estranhas ametistas desfeitas pelo céu tristíssimo e profundo... Nesta hora – hão de dizê-lo ao certo os panteístas a tristeza de Deus pressente-se no mundo... (1915: 13)
94 Vários são os homenageados por poemas no livro de Cassiano Ricardo, como era praxe na época. O primeiro
da lista é Arthur Caetano da Silva, cunhado do autor, seguido por Juarez Almada Fagundes, Luiz Xavier Telles, Gonçalves Vianna e muitos outros (conta-se mais de vinte homenageados no seu livro de estréia, dentre os quais Spencer Vampré). Essas homenagens testemunham, com efeito, a preocupação de Cassiano em inserir-se em um amplo círculo social, parte da estratégia de demonstração de relações sociais de prestígio. O exemplar existente na Biblioteca Mário de Andrade contém a dedicatória ao Dr. Arthur Motta, datada de dezembro de 1915.
95 Ao contrário dos livros de estréia de Menotti, Cassiano é saudado e cataloga uma série de críticas elogiosas a
todas as suas obras iniciais, que reiteram o domínio da técnica parnasiana a que foi capaz o autor. Armando Prado o considera, em virtude de seus poemas, um “artista de raça”.
Cassiano revela sensibilidade em relação a certas situações especiais à condição humana, como melancolia, loucura, iminência da morte e deficiência física – como expressa no poema para a ceguinha, cuja dor da alma afirma compreender (1915:21), ou no poema em que parece ouvir dois velhinhos despedirem-se da vida –, em atitude romântica. As cores assinalam características intangíveis na matéria.
O outro, num gesto mudo, agita as mãos trementes... Os seus cabelos são quais flocos de arminho. feitos da nívea cor das coisas inocentes... E numa invocação, suave como um carinho, passa como que ouvindo o adeus da natureza, como que procurando um estranho caminho,
um caminho talhado entre a Sombra e a Tristeza... (1915: 38)
A concepção de uma natureza portadora de uma “alma”, à semelhança dos seres humanos, propicia a expansão da tristeza do escritor à “alma incompreendida dos vegetais...” (1915: 20). Essas analogias entre a dor humana e a dor das “coisas” fazem com que a tristeza do homem e a tristeza do poeta surjam como extensão da tristeza intrínseca e natural no mundo. A tristeza do mundo expressa-se no enigma da noite e no mistério da poética panteísta do autor.
as Árvores senis e pensativas,
imersas num cismar próprio de coisas vivas. [...]
As Árvores, nesta hora, eu as contemplo quais vultos a rezar, no misterioso templo da Noite erma e profunda... (1915: 117)
Pouca relação é possível deduzir entre a realidade social de Cassiano Ricardo e a poesia de Dentro da Noite.96
96 Em entrevista concedida a Silveira Peixoto, em 1941, Cassiano Ricardo considerou a obra Dentro da Noite
como pertencente a sua fase lírica. A partir de O Evangelho de Pan (1917), entraria na fase parnasiana (Revista
O jovem Cassiano, então com 20 anos, não se refere, nem sequer de passagem, a nenhuma figura próxima da família ou a seus amigos, não tendo incluído em seu livro de estréia nenhum poema de amor, nenhuma experiência erótica explícita. Os toques esparsos de misticismo não chegam a caracterizar um sentimento bem definido de religiosidade. Tampouco incorporou algum elemento das paisagens naturais de sua região, nem alusões a personagens do universo de experiências infantis e de primeira mocidade numa cidade do interior (MICELI, 2004:181).
Em um mundo melancólico, habitado por fadas e conchas saudosas, onde “a noite sonha”, “as flores desmaiam”, “o céu fulgura”, a fuga da realidade social por meio da poesia parnasiana de expressão panteísta parece surgir como a saída mais honrosa para uma sensibilidade que aparenta pouca abertura para uma escritura mundana de sua condição. A poesia, instância da beleza, minimamente também se relaciona de maneira direta com a vida.
Aliás, os poemas do primeiro livro de Cassiano, com suas sílfides, ondinas e sereias, mais parecem dialogar com o imaginário associado a uma mitologia nórdica e escandinava, às vezes cristã, do que propriamente com os mitos greco-romanos. De toda forma, “exilado do mundo” (1915:49), o poeta identifica-se e situa-se “dentro da noite”. Imagens relacionadas ao sombrio, à solidão e ao luto serão uma âncora freqüente nas poesias do autor, tributárias não só do parnasianismo como também do simbolismo.
Concentrado em meu ser, longe dos homens, sinto a ilusória emoção, o indefinido anseio
de procurar ouvir o segredo indistinto
que a paisagem noturna esconde no seu seio... E há momentos de calma, em que eu pressinto, No silêncio das coisas naturais,
ou no êxtase do meu recolhimento, neste contemplativo isolamento,