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Tivemos a oportunidade de tentar esclarecer no capítulo precedente que o aceitável em matéria de formação do analista, sob a perspectiva freudo-lacaniana, não segue a lógica do ensino formal, porquanto essa, em termos gerais, tem como fundamento um sistema apoiado na burocracia e na hierarquia, visando à transmis- são de conhecimentos já consagrados, tal qual a lógica de funcionamento, por e- xemplo, na Universidade. Antes, segundo a concepção de Freud, a condição para o exercício da psicanálise é a própria análise do analista. Lacan tenciona ou estende essa orientação e diz que, em tese, toda análise conduzida a seu termo pode produ- zir um analista; é nesse sentido que toda análise é didática.

Nessa produção, trata-se da passagem ligada ao nascimento de um e- vento específico a partir do ato psicanalítico: o desejo de analista, advindo da expe- riência da queda do “sujeito suposto saber” – o outro não sabe, com a concomitante irrupção de sua destituição subjetiva, passagem para sua “autorização” como analis- ta, ainda que só saiba dela pelos seus efeitos, num a posteriori. Ou, nas palavras de

Safouan, trata-se do desejo “[...] de retomar, ao nível do inconsciente de outrem, a experiência feita por seu próprio inconsciente”467. Desse modo, seguindo esse autor, um analista é tão somente aquele que suporta a responsabilidade constitutiva do sujeito que se engajou na análise.

Essa autorização tampouco enseja uma auto-ri(tuali)zação, como explica Lacan na “Nota italiana”468. Seria absurdo conceber, pois, algo do ponto de vista de

uma iniciação, portanto seu aforismo – um analista só se autoriza de si mesmo –, complementado posteriormente com a extensão dessa autorização entre seus pa- res, pressupõe cabalmente que haja analista, mas esse analista não foi nomeado por nenhum outro e nem mesmo por um “eu” ou, muito menos, por uma instituição. É nessa lógica – não há ninguém que possa autorizar um analista – que se insere tal autorização, seguindo Lacan nessa mesma Nota. Trata-se de um momento ligado ao chamado ato analítico, o qual deve ser tomado a partir de uma ética, a do desejo, e nunca emanado de uma técnica ou de uma teoria. Esse embate entre ética e téc-

467 SAFOUAN, M.

Jacques Lacan e a questão da formação dos analistas. Porto Alegre: Artes Médi-

cas, 1985, p. 52.

468 LACAN, J. Nota italiana. In: LACAN, J.

nica esteve e restará sempre presente, devido ao apelo constante em relação à compilação ou modulação de uma técnica psicanalítica com vistas a facilitar a transmissão sob o viés de uma profissão.

Lacan concebe o momento de nascimento desse desejo ou a passagem da condição de analisante a analista – ele até criou um dispositivo, o passe, para realizar o testemunho dessa passagem –, vinculado a um pressuposto lógico refe- renciado nesse ato analítico. Tal ato é um acontecimento que só se sabe dele a par- tir de seus efeitos, algo como se fosse uma ação retardada, ou melhor, diferida, ain- da que não seja uma ação no sentido de algo deliberado. Esse acontecimento não é previsível, muito menos é possível determinar o momento em que ele ocorreu; Freud empregou o termo “nachträglich” para esse tipo de efeito, próximo de nosso uso pa-

ra o termo “a posteriori” ou “só depois”. O ato é correlato de todo o percurso da aná-

lise – da instituição do “sujeito suposto saber” à sua destituição –, ou dizer, da irrup- ção de um saber sem sujeito, esse que seria a tradução de sua forma lógica para o final de análise. Em suma, o autorizar-se analista implica o deslocamento da posição do eu do analista para o exercício de uma função específica que funciona somente no dispositivo analítico.

Também salientamos que Lacan tentou aplicar esse procedimento do pas- se em sua Escola – a Escola Freudiana de Paris –, mas resultou em fracasso, e ele a dissolveu. Desse ponto, concluímos ter chegado a um impasse, pois é inegável que, ao longo da efetivação da doutrina psicanalítica voltada à formação, tanto do lado da

International Psychoanalyse Association (IPA) quanto das diversas vertentes oriun-

das dos seguidores de Lacan em seu retorno à Freud, uma análise é conditio sine

qua non para essa formação. Contudo, resta que a institucionalização ou o modo

como adequar o ensino da teoria psicanalítica e a supervisão ou controle clínico são meandros que perpassam a construção de uma profissão, como qualquer outra.

Freud é taxativo nesse ponto ao expressar sua preocupação com relação à profissionalização da psicanálise, chegando a afirmar em carta a Ferenczi: “A últi- ma máscara de resistência à análise, a máscara médico-profissional, é a mais peri- gosa para o futuro”469. Mais tarde, no texto “Análisis terminable e interminable” (Aná-

lise terminável e interminável)470, de 1937, Freud vai repassar algumas mediações

469 FREUD, S.

Correspondência de Sigmund Freud e Sandor Ferenczi. Rio de Janeiro: Imago, 1994,

p. 320. 470 Idem, 2007a.

presentes nesse impasse concernente à profissionalização e vai constatar que ana- lisar parece compor a tríade de profissões impossíveis, ao lado de educar e gover- nar, e, resignado, ele pergunta e responde: “Então, onde e como adquiriria o pobre diabo aquela aptidão ideal que lhe faz falta em sua profissão? A resposta rezará: na própria análise, com a qual começa sua preparação para a futura atividade”471.

Na verdade, o texto freudiano de 1937 é um acerto de contas quanto ao impasse presente na experiência clínica surgido a partir de sua elaboração sobre o conceito de pulsão de morte, afinal trata-se do mecanismo da compulsão à repetição que resvala no gozo, no real – o irredutível. Sobre esse acerto, cada um que escolha passar pela experiência, ou seja, o futuro suposto profissional, terá que passar não só pela sua própria análise como pelas de outros na sua posição de analista.

Com efeito, deve ficar claro que tais impasses presentes na clínica foram revelados a partir da elaboração desse conceito freudiano que fundamenta sua se- gunda tópica, principalmente a partir do texto “Más allá del principio de placer” (Mais

além do princípio do prazer)472, de 1920. Aqui a mudança de perspectiva recai numa condição de gozo, sendo que justamente o ato analítico, conceito lacaniano retoma- do acima, surge como tradução do que na clínica pode operar como efeito de uma alteração na relação de gozo, com reflexos na própria posição do sujeito. É algo re- lacionado a dar conta do real.

O inventário clínico freudiano, o qual resultou na constatação de que ana- lisar parece ser uma profissão impossível, é um dos pontos fortes exarados no texto de 1937, pelo menos um que já se tornou jargão, tamanha a repetição, sendo que a essa altura não seria leviano dizer que antes se trata de uma Lei. Não uma Lei de- cretada por fora da experiência, mas uma Lei cujo fulcro é a própria repetição de sua experiência. Quanto ao educar e governar, assevera Freud, isso é antigo, há muito já está posto na cultura. Mas, para Lacan, a questão é que os educadores e os go- vernantes que se lançam a essas tarefas não têm a mínima ideia do que fazem, com isso eles podem ser tomados pelo afeto da angústia; com o analisar ainda é pior, pois:

Analisar é uma função ainda mais impossível que as outras. Não sei se vo- cês estão a par, ela se ocupa muito especialmente do que não funciona. Por conseguinte, ela se ocupa dessa coisa que é preciso chamar pelo seu nome

471 FREUD, 2007a, p. 250.

472 Idem. Más allá del principio de placer. In: FREUD, S.

Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu,

– devo dizer que ainda sou o único a tê-la chamado por este nome –, o re- al.473

Para Lacan, o que funciona é o mundo e o que não funciona é o real, este como algo inimaginável – “[...] o próprio do real é não ser imaginado”474 –, pois não é possível dar conta ou formular sobre a relação/proporção sexual (rapport sexuel),

é nisso que Freud tem razão ao falar do que chama sexualidade. Digamos que, pa- ra o falasser (esclarecemos: o ser falante), a sexualidade é sem esperança475. Esse

é o contexto com o qual tem que lidar o psicanalista, não é à toa que Freud usa o epíteto “pobre diabo” e Lacan interroga sobre o que leva um sujeito a querer ocupar um lugar de dejeto, ou melhor, de semblante de objeto “a” e escolher a psicanálise

como profissão.

Haveria um desconhecimento generalizado dos postulantes/candidatos a analistas a respeito do que se trata a psicanálise quando Lacan a alinha ao real, é dizer, à clínica do gozo? Ou, por outro lado, um desconhecimento de que ela não poderia se constituir como um apêndice terapêutico da psiquiatria e das psicologias em voga? Ou o que dá no mesmo e simplesmente constatar que a psicanálise, co- mo profissão, tal qual uma uma terapêutica, é incompatível com a clínica do real? Talvez seja o caso de aplicar o mesmo retorno ao divã, proposto por Freud aos psi- canalistas, e colocar a questão sobre a formação dos analistas em constante divã, o que é dizer, em análise – esse é o lado interminável, daí também porque uma profis- são impossível. Com relação aos analistas, assim diz Freud:

Todo analista deveria, periodicamente, quiçá a cada cinco anos, fazer-se de novo objeto de análise, sem envergonhar-se de dar esse passo. Isto signifi- caria, portanto, que sua própria análise [...] se converteria de uma tarefa terminável (finita) em uma interminável (infinita).476

Nessa linha de raciocínio, se o interminável é aquilo com o qual o analista tem que dar conta em sua formação, o que temos é da natureza de uma repetição – porque se trata, em primeira e última instância, do retorno do pulsional, isso é o que diz Freud – e sabemos com Lacan que a pulsão é do registro do real, donde mais adequado chamar essa dimensão interminável de real. O real pode ser alinhado ao incurável freudiano, ou ao “inanalisável”, chamado por ele de rochedo da castração,

473 LACAN, J.

O triunfo da religião. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005b, p. 63.

474 Idem, ibidem, p. 75. 475 Idem, opus citatum, p. 77. 476 FREUD, 2007a, p. 251.

todavia sabemos que o avanço teórico lacaniano só foi possível estendendo esse real, tornando-o cada vez mais plástico, se é que podemos usar essa imagem para algo que só existe “por fora”.

Esse avanço diz respeito ao próprio campo da formação, haja vista que essa era a destinação do ensino de Lacan. Forçoso esperar, portanto, que as “re- gras” ou “convenções”, assim como os princípios que as fundavam, cujo peso era voltado para a instituição, já tivessem esgotado sua quota de validade, e o momento exigia que fossem estabelecidos outros pressupostos para dar conta dessa clínica que subsumia o real.

Nesse caso, a formação do analista passa por uma reviravolta – o analis- ta passa a se autorizar, relativizando e, ao mesmo tempo, radicalizando o papel da instituição, inserindo no cenário analítico o tempo lógico (a ser tratado no último ca- pítulo) e a questão das sessões curtas, etc. – e Lacan vira um fora da lei – pelo me- nos para a lei em vigor no “Estado ipeísta” –, ou, como o mesmo preferia, um exco- mungado. Essa situação o leva a fundar seu próprio Estado, ou melhor, sua Escola, cuja experiência vem cumprir essa lacuna – a passagem da invenção freudiana do inconsciente, correlata à verdade do sintoma, ao inconsciente como invenção e um “saber-fazer” com o sintoma477, surgida com o avanço teórico realizado por ele. No

entanto, segundo já abordamos no capítulo precedente, o modo como essa experi- ência se realizou não parece ter seguido à risca o script imanente à radicalização

lacaniana em matéria de formação.

Podemos concluir como equivalentes o resultado da explosão do laca- nismo e as dissensões no campo freudiano? Se assim for, será necessário enfatizar que essa reviravolta não foi sem consequências, pois alguns elementos contidos em seu seio já alertavam ou já continham o germe do que deveria ser levado em conta em termos de formação: algo que já está determinado de modo expresso – sem hi- pocrisia, dizia Freud – na doutrina psicanalítica: o tempo e o dinheiro. Ocorre que isso é de extrema relevância no funcionamento de um outro discurso – o do capita- lista. Ponto a ser tratado no último capítulo.

Não obstante, ainda que a experiência de Escola de Lacan tenha resulta- do em fracasso, isso não pode ser lido diretamente como uma repetição do quadro anterior. Para esclarecermos, importa distinguir duas modalidades de repetição: a

primeira, com roupagem de jargão, é estéril, ensimesmada, não atua como media- ção, simplesmente a suprime ou faz de conta que ela não existe. Enquanto que a segunda é a própria experiência como mediação, permitindo a apreensão das singu- laridades478, a partir do enfrentamento constante da tensão advinda desse impasse

em relação à impossibilidade de enquadrar a psicanálise como profissão.

Essas duas modalidades de repetição estão presentes na condução polí- tica dos diversos reveses por que passou a psicanálise na sua tentativa de instituci- onalização, como algo correlato à sua expansão. A primeira modalidade, arriscamos dizer, não atuou como mediação, é estéril em relação à herança freudiana. Ela en- contra paralelo nas diversas tentativas de institucionalização avalizadas pelos her- deiros de Freud nos países europeus e nos Estados Unidos. Essas instituições eram claramente destinadas a formar profissionais, sendo que, mesmo com os desacertos em curso, muitos dos quais advertidos por Freud – como na questão da análise leiga –, a insistência neles foi mantida e parece obedecer a um padrão que se desdobra até hoje, segundo perspectiva presente no trabalho de Roudinesco479. Enquanto que a segunda será remetida à experiência da Escola de Lacan, embora essa tenha seguido uma trilha diferente de suas expectativas, haja vista o que foi teorizado por ele.

A determinação desse paralelo vai levar em conta o fato de que concor- damos ter havido algo próximo do mecanismo do recalque no primeiro caso – pró- prio da clínica do neurótico, lugar da invenção e do limite da clínica freudiana; no segundo caso, há uma tensão que irrompe do real, mas como uma atualização des- te ou como um lembrete de algo que não funciona, pois se funcionar é porque se está no campo do desvio, ou do recalque, visto se tratar de uma forma de negar a

existência da psicanálise, à semelhança dos acontecimentos envolvendo os pós- -freudianos.

Essa atualização seria, em tese, resultado do próprio esgarçamento teóri- co advindo com a clínica de Lacan – uma clínica em que não havia recusa, não ha- via o limite a que se impôs Freud em relação ao psicótico, por exemplo. Lacan ou- sou ouvir o delírio e ousou ir adiante no conceito de inconsciente – estruturado como

478 Nesse caso, remetemos ao entendimento de Kierkegaard em

A repetição. Lisboa: Relógio D’Água,

2009, conforme nota explicativa contida na página 51. E lembramos que Lacan defende que esse conceito do filósofo está contemplado nos desenvolvimentos freudianos sobre a repetição.

uma linguagem – e do real do inconsciente, até o ponto em que o inconsciente se inventa, e aqui ele leva a verdade a tiracolo.

Isso leva a crer que a ausência de limite ou o irrecusável na clínica pode ter causado uma expansão desmedida entre os assistentes de seus seminários e os colaboradores em sua Escola. Não é à toa que essa expansão explodiu com o pró- prio Lacan e uma explosão cujos estilhaços resultaram em diversas frentes de bata- lha do lacanismo, como expresso na avaliação de Roudinesco, elaborada no capítu- lo antecedente. Com efeito, tentar ou forçar a inscrição do irredutível – do real – po- de ter um alto preço.

Em decorrência dessa abertura ao singular ou dessa dialética da repeti- ção, deparamo-nos com duas situações retroalimentadas, ou melhor, um redobra- mento do impossível. A primeira, alertada por Freud, na detecção de uma impossibi- lidade em relação ao analisar, ensinar e governar, à qual podemos fazer correspon- der justamente à tríade que se convencionou em termos da formação – a análise do proponente a analista, o ensino da teoria e o controle ou supervisão clínica. A se- gunda, com Lacan, ao mostrar que a repetição é da dimensão do real, e esse, por sua vez, é o impossível de se escrever no simbólico, ou, como já dissemos, aquele que não cessa de não se escrever nesse registro; repetimos, o real como ausência de sentido (ab-sens). Se o quadro se revela por uma impossibilidade mantida intrin-

secamente a partir de um impossível, o real, significa que não há nessa formulação uma saída que possa impactar essa irredutibilidade de fundo, a não ser esgarçá-la, tensioná-la, fazer com que de algum modo essas contradições se revelem.

Se entendemos que a elaboração dos discursos em Lacan procurou dar

forma ou explicar a estrutura desses impossíveis a partir da extração do “mais-de- -gozar” em cada um dos discursos, ou seja, analisar, educar e governar corresponde

à estrutura do discurso do analista, do universitário e do mestre; ele soma a esses mais um impossível, o fazer desejar, relacionado ao discurso da histérica; é possível então dizer que o quinto discurso – o do capitalista – é o que está fora desses im- possíveis.

Nesse ponto, é necessário esclarecer que há três premissas referentes a esse discurso:

(a) Ele não faz laço social:

Lacan aludiu a esse indivíduo que é completado com o mais-gozar e que, ao ter generalizado essa condição de proletário, desenvolve um tipo de sin-

toma social. Desde que os objetos passam a tem [sic] um acréscimo de go-

zo em sua produção e se criava uma nova maneira de tratar o real, perde a possibilidade de fazer qualquer tipo de laço social na modernidade.480

(b) O agente do discurso comanda o “mais-gozar” no campo da produção,

isso resulta no “[...] poder de gozo que o objeto adquire como mais- -gozar, ele passa a interferir sobre o sujeito”481;

(c) Não há barreira entre a produção e a verdade.

A partir dessas determinações do discurso do capitalista, entendemos que ele suplanta as impossibilidades estruturais dos outros quatro discursos, é como se ele as resolvesse a contento. Assim, ele suspende os efeitos da castração e os efei- tos da divisão do sujeito ao estabelecer uma linha direta entre o objeto causa do de- sejo – objeto “a” e o objeto de consumo482 – o que é dizer, transforma uma perda

irrecuperável em substitutos acessíveis nas prateleiras do mercado. Esse aspecto será elaborado no último capítulo, à luz do que Marx assevera em relação ao dinhei- ro – ele confraterniza as impossibilidades.

Com efeito, o legado da experiência de formação em Freud e Lacan sina- liza ser imperioso manter a tensão entre a impossível profissão do psicanalista e o fato de que efetivamente há procura por formação do analista com vistas a uma pro- fissionalização – isso não escapou a ambos. Lacan, inclusive, tece um comentário assaz pertinente ao comparar as razões que possam levar algumas pessoas a exer- cerem a psicanálise a “[...] senão o estabelecer-se, isto é, receber o que é corrente- mente chamado de grana, para suprir as necessidades dos que estão sob seu en- cargo”483.

Ele entende que nesse quesito Freud manteve-se atento à moral judaica, indicando que o inventor da psicanálise não teria feito nenhuma concessão pertinen- te ao que poderia ser ou ao que poderia parecer mais específico desse campo – o estabelecimento de um profissional que precisa ganhar dinheiro para suprir suas necessidades e de sua família –, exatamente como qualquer outro em relação a qualquer outra profissão. Quanto a esse aspecto, é curiosa a tradução feita por La- can de um fragmento de texto de Freud quanto ao dinheiro, inserido no livro Dinheiro

e Psicanálise, de Pierre Martin – sobre o qual faremos um comentário no capítulo

480 SOUZA, 2008, p. 154. 481 Idem, ibidem, p. 155. 482 TEIXEIRA, M.

Vicissitudes do objeto. Salvador: Ágalma, 2005.

483 LACAN, J. Prefácio à edição inglesa do seminário XI, in

final –, que diz: “Nos assuntos de dinheiro, não posso me permitir qualquer conside- ração”484. E Lacan complementa “eu sou intratável”485. Ele não condescendia nessa

matéria, pois a experiência clínica já havia alertado sobre o caráter libidinal do di- nheiro, de modo que ele precisava ser muito franco e direto nas circunstâncias que envolviam a negociação do pagamento das sessões para que isso não prejudicasse