6.2 The Day of the Week Effects
6.2.1 Descriptive Statistic
A indagação exarada no título desta seção é no mínimo estranha, pois vi- mos que é próprio do sintoma repercutir uma verdade, mas o que está colocado é: como essa verdade – em si – seria portadora de um sintoma? Lacan estabelece a ligação da verdade à dimensão (ditmansion) do real, nesse caso a leitura dessa inda-
gação pode ser: a formação do analista: um sintoma do real? Todavia, ele também estabelece a ligação sintoma–real, nesse caso a leitura passa a ser: a formação do analista – um real do real295? Algo esdrúxulo, mas remete ao que há de mais verda- deiro no sujeito – o real de sua condição de falante. A psicanálise faz a mediação desse real, portanto vamos tentar percorrer essa estranheza ao longo da última parte deste capítulo e trazer mais elementos sobre a relação sintoma–verdade e sua liga- ção com a formação do analista.
O percurso da psicanálise tem sido o percurso do sintoma no sujeito, e um sintoma traz em seu bojo algo da verdade desse sujeito, porém essa verdade é de difícil apreensão, ela não será completamente dita. A verdade é condição de uma psi- canálise, ainda que nem sempre isso implique a paz, ao contrário, está mais próxima do “desastre”296 – é isso que a distingue de qualquer psicoterapia, numa palavra: “não
há cura sem verdade”297. Isso certamente tem reflexos na formação do analista, já
que ela depende de uma análise. Então, a formação é o que permite indicar se se tra- ta do campo da psicanálise ou de uma psicoterapia.
Já indicamos que Freud defendia o papel da psicanálise no campo da ver- dade, distante de qualquer ilusão ou engano298. Isso porque, em que pese às tentati- vas do sujeito em negar a castração, será em vão. O mérito da psicanálise consiste em realizar permanentemente essa “denúncia”. Esse prisma é a exata diferença da psicanálise em relação às demais psicoterapias.
295 Lacan (2002b, p. 104) postula que o gozo
ek-siste como o que concerne ao real, ou seja, “O Real,
enquanto ele ek-siste, é dizer, o Real como Real”.
296 BALMÈS, F.
Dios, el sexo y la verdad. Buenos Aires: Nueva Visión, 2008.
297 Idem, ibidem, p. 47. 298 FREUD, 2007a.
Podemos entender Freud quando expressou sua preocupação em relação ao fato de que a terapia não matasse a ciência299. Não é o escopo desta investigação
tratar a questão da cientificidade da psicanálise. No entanto, podemos inferir nesse receio de Freud que o papel da ciência é posta nesse contexto expressando rigor, ou seja, a ligação funciona para manter o lugar daquilo que a psicanálise tem de mais verdadeiro – ou, com o auxílio da letra lacaniana: há um sujeito dividido e há um obje- to que, ao mesmo tempo, é o resto dessa divisão e é o que funda esse sujeito em “es- sência”, mesmo que essa seja um “nada”, porquanto é a marca do que causa seu de- sejo –, como falta e marca de todos os gozos perdidos. Isto é um princípio, em outros termos, o que causa e que dá causa à causa psicanalítica: manter-se fiel à verdade do sujeito dividido.
A concepção sobre a verdade em Lacan passou por mudanças e avanços que alteraram profundamente seu status em face de sua conjunção com o saber in-
consciente até um “não saber” do sexual no inconsciente, posto que sabemos que a paixão pela ignorância é uma das três grandes paixões, junto ao amor e ao ódio.
O avanço lacaniano parte de uma simples determinação – “Eu, a verdade, falo” – a outras mais elaboradas, sobretudo em relação à castração – uma verdade do sexual –, uma verdade que nos é “Estranha, alheia”300, aqui muito próxima à concep-
ção freudiana do Unheimlich301. Será uma verdade denegrida, ela vai sofrer um pro-
cesso de erosão, a ponto de alcançar uma impossibilidade – dizê-la toda –, assim co- mo será estabelecida uma vertente mostrando a verdade em seu flerte com a impo- tência302; afinal aqui essa verdade mantém estreita relação com o saber sobre o gozo.
François Balmès, autor a quem seguimos em seu comentário sobre a verdade em Lacan, faz um excelente resumo desse deslocamento do lugar da verdade ao longo do ensino do mestre francês e destaca um ponto: não ficou elucidada a função da verdade pela posição do analisante:
Verdade que fala, e que fala nas falhas do discurso; verdade como estrutura de ficção; verdade como inscrição no lugar do Outro dos significantes; ve- lamento/desvelamento, repressão/retorno do reprimido; verdade como o que falta a saber, divisão do sujeito; verdade como falta central nesse lugar do Outro, lugar da enunciação inconsciente, inexistência do Outro ou bem o Outro barrado; verdade do sexual que se nomeia castração apesar dos filó-
299 FREUD, S. ¿Pueden los legos ejercer el análisis? In: FREUD, S.
Obras completas. Buenos Ai-
res: Amorrortu, 2006c. v. 20. 300 BALMÈS, 2008.
301 O termo em Freud adquire a perspectiva do familiar estranhado. 302 LACAN, J.
sofos, e que está no coração de toda verdade: em todas estas determina- ções não se distingue claramente a função da verdade pelo lado da palavra analisante, de onde vem a surpresa em torno da associação livre – na ver- dade um engano – até a insistência opaca do sintoma, emergência de ver- dade ancorada no gozo onde resiste ao saber, e sua função na interpreta- ção, lugar de reserva onde a verdade é esperada. Fora desta referência à verdade, a interpretação não é mais que sugestão.303
Nessa síntese de Balmès, podemos ressaltar um ponto crucial no avanço da teorização de Lacan sobre a verdade, ponto que exala o cerne de todo o enunci- ado freudiano a partir da segunda tópica – a relação entre a verdade e o gozo. A menção a essa relação dá lugar ao registro do real304, o qual vai balizar a clínica lacaniana, a partir de sua releitura sobre a pulsão de morte, como possibilidade além da repetição. Nesse caso, não será mais a fala a dar o tom em relação à verdade, mas uma extração do real dessa fala, uma extração do gozo, isso numa estrutura que assume uma forma de buraco “[...] que determina um desejo sem ‘objeto’ e uma contingência com ‘aperitivos’ de gozo”305.
Numa fórmula bem resumida para o início do trabalho em análise, poderí- amos pensar em algo assim: há sintoma, tal qual uma metáfora assumida ou “sofri- da” pelo sujeito, num tom de queixa por esse sofrimento e, ao mesmo tempo, nessa queixa, há algo que assume ares de “ganho da doença”, expressão empregada por Freud, tal qual uma satisfação, um apego, ou um “não querer-saber”; Balmès resu- me esse quadro: “Por um lado sabemos – é o princípio mesmo da análise – que a- quele que vem nos ver não quer o que pede, pois está aferrado a seu sofrimento”306.
Isso significa que há algo nesse sofrimento da ordem do pulsional – Freud alertara sobre essa dificuldade em “Análisis terminable e interminable” (Análise terminável e
interminável)307, algo que escapa ao domínio do sujeito e o que escapa está vincu-
lado ao gozo, ou “amarrado” como gozo. Nesse aspecto, vale retomar o que Lacan diz em “Radiofonia”308 com relação a fazer passar o gozo ao inconsciente para que esse seja contabilizado.
303 BALMÈS, opus citatum, p. 40.
304 Não há um real hipostasiado em Lacan, o real dos primeiros seminários vai adquirindo outros con- tornos, sobretudo relacionado ao conceito de gozo, estabelecendo a ponte com a segunda tópica freudiana e além, com o núcleo duro do real, ou o real do real. Para maiores esclarecimentos, su- gerimos o seminário R.S.I. (LACAN, 2002b), de 1974-1975, ainda não publicado oficialmente, as- sim como o livro de Zizek (2010) sobre o real em Lacan.
305 SOUZA, A.
Os discursos na psicanálise. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008, p. 214.
306 BALMÈS, 2008, p. 52. 307 FREUD, 2007a. 308 LACAN, 2003m.
É no meio desse imbróglio onde a verdade será situada. Com efeito, não podemos esquecer a segunda tópica freudiana ou a tônica na pulsão de morte, ou seja, “[...] o caráter radical da repetição, essa repetição que insiste e caracteriza per- feitamente a realidade psíquica do ser inscrito na linguagem”309. Uma repetição é da
dimensão do real, sendo a linguagem um modo de ter acesso a essa dimensão que porta um pequeno quinhão de gozo. É dessa forma que sabemos, repetimos com Balmès, que “[...] aquele que vem nos ver não quer o que pede, pois está aferrado a seu sofrimento”310. É a isso que concerne uma análise ao estabelecer a relação en- tre sintoma, verdade e gozo.
Posto isso, é importante situarmos dois outros pontos essenciais na ela- boração freudiana com os ajustes de Lacan: o primeiro em relação à posição do su- jeito na doutrina psicanalítica – trata-se sempre de um sujeito que mostra sua Spal- tung, sua divisão, a partir do objeto pequeno “a”. Em Freud, trata-se da Ichspaltung,
ou uma divisão do ego, como negação ou um não querer saber sobre a castração presente nos mecanismos do recalque e do desmentido311.
Para Lacan, o sujeito está em dois lugares, “Se onde não está, ele pensa, se onde ele não pensa, está”312, nesse caso em oposição ao “eu sou e ao eu pen-
so”, da tradição do cogito cartesiano, ou seja, o sujeito é onde não pensa. O objeto “a” é o resto perdido “[...] da articulação significante” que opera a “[...] radical alteri-
dade do ‘si mesmo’”313. Ou o resto que atende pela função dos gozos perdidos, co-
mo pedaço de real que restou da divisão do sujeito operada pela simbolização ou pela função da linguagem, ou seja, do grande Outro314.
Essa elaboração em relação à divisão do sujeito, tendo como resto o ob-
jeto “a”, é imprescindível para o entendimento do que formula Lacan sobre os dis-
cursos e a estrutura de semblante, ponto de interseção com Marx, a partir da cate- goria do mais-valor e da forma como este leu, na concepção de Lacan, a ligação da verdade no sintoma, daí, quanto a isso, ele ter sido o precursor da noção de sintoma em Freud.
309 Idem, 1992b, p. 164. 310 BALMÈS, 2008, p. 52.
311 Esse tema está resumido nos textos: FREUD, S. La escisión del yo em el processo defensivo. In: FREUD, S. Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 2007n. v. 23; e no FREUD, S. Esquema
del psicoanálisis. In: FREUD, S. Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu, 2007j. v. 23.
312 LACAN, 1992b, p. 96-97. 313 TARDITS, 2011, p. 165. 314 LACAN, 2005a.
O segundo ponto encontra-se ligado ao fato de a verdade ter um mito como referencial – o assassinato do pai; vejamos como Balmès o situa: “Mas o as- sassinato do pai [...], que centra a verdade na psicanálise, é um mito que Freud ex- trai da tragédia, consagrando assim a essência mimética do significante mestre de todo o discurso psicanalítico: o pai”315.
Portanto, um pai como função fundadora do significante mestre, no senti- do da inscrição de um referencial como condição da estrutura da linguagem. Isso só é possível porque o pai está morto, daí Lacan formular o que chama o “Nome do Pai”. Safouan esclarece a:
[...] eficiência significativa do nome do pai enquanto simboliza a interdição de gozar a mãe: única eficiência que permite àquele que porta o nome do pai destacar-se da simetria da relação entre irmãos e ao sujeito, ao mesmo tempo que se desprenda do domínio da imagem do semelhante e das rela- ções euoicas que ela induz. Através disso, ela transforma a insuficiência imaginária numa falta simbólica.316
Esses elementos vão proporcionar a Lacan a conclusão de que o pai é uma metáfora317, é isso o determinante no Édipo. Nesse esclarecimento do autor, é importante o fato de o “Nome do Pai” destacar-se da simetria da relação entre ir- mãos, isso retornará neste texto, pois justamente a ausência desse destaque do “Nome do Pai” pode ter efeitos nefastos no laço social.
Lacan conjuga esses fatores e vai mostrar como o laço social se estrutura num discurso sem palavras – trataremos deste ponto no capítulo seguinte –, sinali- zando a extração do real da letra318, ou numa tentativa de inscrição do simbólico no real numa relação gozo–verdade. Para isso, ele criou uma ferramenta ou um concei- to sobre os discursos, mais especificamente sobre quatro discursos: mestre, histéri- ca, analista e universitário – mais um: discurso do capitalista, afirmando que essa é a única forma de testemunhar o real319, entenda-se o real no bojo da estrutura do discurso. Ele também estabelece a ligação de três dos seus discursos – o do mes- tre, do universitário e do analista – aos impossíveis freudianos em termos de profis- são: analisar, educar e governar, adicionando, inclusive, mais um impossível – fazer
315 BALMÈS, opus citatum, p. 40. 316 SAFOUAN, 1991, p. 163-164. 317 LACAN, 1999.
318 Em que pese à sua filiação à àlgebra, ou à própria concepção de matema – um meio “ideal” de transmissão, “ideal”, por conter o real –, acreditamos que esse aspecto de sua elaboração mostra afinidade também com a doutrina taoísta – um discurso sem palavras que conserva o essencial da letra, o real que lhe é imanente, realizando uma inscrição no simbólico.
319 LACAN
desejar –, vinculado ao discurso da histérica, conforme texto “Radiofonia”320, daí
estendermos esse conceito para discorrer sobre a impossibilidade de ter uma análi- se como profissão, no dizer de Freud, e que marca sua posição no discurso psicana- lítico sobre a formação do analista. Ademais, cumpre enfatizar nesse momento que se a estrutura do discurso revela algo do real a partir da relação gozo–verdade, é porque neste lugar é algo do sintoma que transparece.
Vimos que Lacan concebe o conceito de sintoma em Freud – nele o termo é empregado de modo diferente ao do campo médico – a partir de Marx321. A liga- ção é feita segundo sua percepção de que para Marx a noção de sintoma é tida co- mo uma “[...] operação de subversão do que se havia sustentado, até então, através de toda uma tradição, sob o título de conhecimento”322. Para Lacan, há um “engano” denunciado por Marx nessa subversão; ele observou que foi desse modo que o filó- sofo apontou a dimensão do semblante no discurso, o que também inspirou Lacan na elaboração do conceito dos discursos.
Ele afirma que o semblante está no fundamento do próprio discurso, e esse é o que faz laço social, mas não no sentido de que haja semblante de discurso, e sim no sentido de que o próprio discurso aparece como “parece”, ou como simula- cro. Ou ainda, diz Lacan, “Tudo que é discurso só pode dar-se como semblante e nele não se edifica nada que não esteja na base do que é chamado de significan- te”323. O significante é justamente o ponto de partida dos laços sociais, afinal é a
cadeia significante que fundamenta ou faz o ordenamento da ação humana, isto é, a própria linguagem.
Inicialmente o sintoma para Lacan está no campo da linguagem (metáfo- ra), ele relaciona o sujeito com o Outro da transferência (a posição do analista) e estabelece a conexão entre saber inconsciente e verdade. Depois essa conexão se- rá articulada em torno da noção lacaniana “mais-gozar”324, cuja inspiração é da lavra do “mais-valor” em Marx.
320 LACAN, 2003m. 321 MARX, K.
Manuscritos econômico-filosóficos. Rio de Janeiro: Boitempo, 2010.
322 LACAN, 2009, p. 153. 323 Idem, ibidem, p. 15.
324 Mais-gozar: noção desenvolvida por Lacan (2008b) como efeito de discurso, tendo como princípio uma perda e, ao mesmo tempo, um ganho, algo próximo ao Lustgewinn de Freud, conforme ele
explica no seminário Les non-dupes errent (LACAN, 2010c, p. 30): “Unmittelbaren Lustgewinn, ça veut dire ‘un plus-de-jouir, là, immédiat’”. Essa noção parte da mais-valia ou mais-valor, conforme
uma tradução mais próxima do português, conceito marxiano ligado à forma específica do exce- dente ou lucro no contexto particular da produção capitalista. No seminário “R.S.I.” (LACAN,
Essa noção será central em relação ao que propomos neste trabalho: i- dentificar o sintoma da psicanálise na formação do analista, amparando-nos no con- ceito lacaniano dos discursos, já que o percurso de uma análise contempla essa es- trutura, tendo como cerne a ligação entre o mais-gozar e o mais-valor e o fato de que é pela preexistência do discurso do capitalista325 que ambos foram extraídos.
Lacan entende que o ponto em comum entre Freud e Marx é que alguns fatos serão considerados sintomas326, mas qual é a extensão em marcar um fato como o sintoma? No campo do sujeito, o fato se dissolve na fala, e nela se alojam as funções do saber inconsciente e da verdade, e no laço social ele se revela como “[...] em geral, o único modo em que o existente (Bestehende) confirma o seu contrário”327. A citação
de Marx surge num contexto contra a tese de Proudhon e se trata de mostrar que o fato da redução da taxa de juros não reflete uma diminuição ou anulação da força do capital, antes esse fato – a diminuição da taxa de juros – é “[...] apenas um sintoma da supressão do capital, na medida em que é sintoma de sua plena dominação, estra- nhamento que se completa e, por isso, avança para sua abolição”328.
Um sintoma para Marx é o operador da força do que se efetiva como ver- dade. De imediato, poderíamos ler a citação marxiana apenas como uma inconsis- tência lógica, ou como um paradoxo, pois como a dimensão de força do capital, de sua dominação, implica sua abolição? Isso, ao contrário, não estaria mais apropriado se indicasse que avança para sua repetição; nesse caso, consolidando ainda mais sua presença? No destaque, a verdade exposta é a crescente dominação do capital, e essa dominação é tão pujante e tão plena que ela já está subsumida em todo o ce- nário econômico, portanto, se lido a partir da variável diminuição da taxa de juros, isso significa que o capital não carece dessa dependência, é outro motor que o im- pulsiona. Essa diminuição da taxa de juros é a constatação dessa difusão do capital; e, por ser tão abrangente, ele caminha para sua extinção.
A lógica referida em tal passagem lembra um dos célebres aforismos do
Tao Te Ching: o livro do caminho e da virtude329 –, um dos cânones do pensamento
chinês. O aforismo diz que um bom governante é aquele de quem não se conhece o
2002b, p. 103), ele especifica o mais-gozar vinculado a um mais e a um menos, em termos de produção, “Le jouir, si on peut dire, est à horizon de ce plus et de ce moins, c’est un point idéal”.
325 LACAN, 2009. 326 Idem, ibidem. 327 MARX, 2008, p. 148. 328 Idem, ibidem. 329 TSE, L.
nome ou as obras, pois este já está tão difuso em todos os cantos a tal ponto que se- quer se alude a presença de um governante330, o que em determinado momento seria
alusivo à inexistência mesmo desse governante, porque não mais necessário à estru- tura social, já que ser governado por um governante já faz parte dessa estrutura.
Se alguns “fatos” são considerados sintomas no paralelo entre os dois autores realizado por Lacan, é para que estejamos atentos ao fato de que a lingua- gem incorpora, por um lado, o sujeito do inconsciente e, por outro, as relações soci- ais; daí um elo de sustentação para elaborar o conceito dos discursos, com o desta- que para a renúncia de gozo em sua estrutura, conforme Lacan esclarece na primei- ra lição do seminário De um Outro ao outro: “O mais-de-gozar é uma função de re-
núncia ao gozo sob o efeito do discurso. É isso que dá lugar ao objeto a. [...] Assim, o mais - gozar é aquilo que permite isolar a função do objeto ‘a’”331. Dois anos de-
pois, no seminário De um discurso que não fosse do semblante332, ele reafirma a
correspondência entre mais-de-gozar e mais-valor e explica que ambos são detectá- veis a partir do discurso do capitalista. Ressalta ainda, no texto “Sobre a experiência do passe”333, que o mais-de-gozar tem função de fundamento, já que trata da de- pendência do homem à linguagem, portanto “[...] é uma função muito mais radical do que a da mais-valia”334. Numa palavra, o gozo, ou melhor, a sua renúncia, é o que
dá fundamento à estrutura do discurso do analista, ou dizer, é o real que está na ori- gem desse discurso.
A categoria gozo em Lacan está relacionada à dimensão do real335. O
real é uma categoria componente da estrutura da fala, junto ao simbólico e ao ima- ginário. Muitos atributos lhe foram consagrados durante seu ensino para tentar di- zer sobre o real, uma dimensão, inclusive, do indizível: o que só existe por fora do simbólico ou o que resiste à simbolização, no início de seu ensino no seminário Os