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7 Validitet, reliabilitet og konstruksjon av indekser

7.1 Validitet

A completa obra poética de Cecília Meireles é essencialmente universalizante, daí o grande reconhecimento do seu valor e da sua posição no cenário literário brasileiro. Esse feitio universalizante iniciou-se com a obra Espectros (1919).

Cecília, nesta época, contava com apenas dezoito anos e nenhuma experiência no campo literário. Por muito tempo, esta obra não teve sua reedição. Somente com a edição da Poesia Completa, realizada pela Nova Fronteira, em 2004, tivemos a satisfação de conhecê-la. Mas, já, neste pequeno volume, composto de sonetos, brilham o espírito e o coração de uma poesia firme, melodiosa, vigorosa em imagens.

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Em entrevista ao jornalista Haroldo Maranhão, da Folha do Norte, de Belém, Pará, a 10 de abril de 1949, Cecília responde à pergunta:89

“— Quais as raízes espirituais da sua poesia?

— Os autores nunca sabem dizer bem essas coisas, porque, na verdade, a poesia, praticada de um modo “vital”, está isenta das claridades da lógica. O poeta dificilmente pode “raciocinar” sobre a sua própria poesia. Essa é a função do crítico, intermediário na mensagem artística. Em todo caso, se for possível considerar “raízes espirituais” aquilo de que mais gosto, ou que mais repercute em mim, lembrarei o Oriente clássico e os gregos; toda a Idade Média; os clássicos de todas as línguas; os românticos ingleses; os simbolistas franceses e alemães. E principalmente a literatura popular do mundo inteiro e os livros sagrados.”

Neste trecho, temos o privilégio de ouvir do poeta sua predileção estética e temática. Focalizamos, na sua fala, a preferência pelo Oriente clássico, pelos gregos e pelos livros sagrados. Restringimo-nos a eles, pois cabem aos propósitos da pesquisa.

Ainda adolescente, com apenas dezoito anos, Cecília apresenta-nos por meio do opúsculo Espectros (1919) a imagem soberana e tradicional de um faquir indiano, que tem por epígrafe — Brâmane. Nosso poeta ainda não havia viajado à Índia, mas traduz a beleza e a profundidade dessa cultura. Leiamos:

Plena mata. Silêncio. Nem um pio De ave ou bulir de folha. Unicamente Ao longe, em suspiroso murmúrio, Do Ganges rola a fúlgida serpente. Sem ter no pétreo corpo um arrepio, Nu, braços no ar, de joelhos, fartamente, Esparsa a barba ao peito, na silente Mata, o Brâmane sonha. Pelo estio, Ao sol, que os céus abrasa e o chão calcina Impassível, a sílaba divina

Murmura ... E a cólera hibernal do vento Não ousa à barba estremecer um fio Do esquelético hindu, rígido e frio, Que contempla, extasiado, o firmamento. (Poesia Completa, Vol.1. Espectros, p.16)

A influência oriental, nascida de buscas existenciais, delineou o tom escritural ceciliano. Uma escritura poética impregnada por uma atitude contemplativa, com lições de vida e uma disciplina de alma que se exercita pela prática da renúncia.

Em “Brâmane”, a voz poética, transporta-se à Índia, descreve pelo efeito da memória leitora, referenciada pela absorção plural dos códigos infinitos, o diálogo coletivizado das culturas. A cena do yogue em meditação profunda é-nos mostrada em sua inteireza imagética, e a sensação etérea e suspensa do seu efeito também.

Mas, é a própria Cecília que fala da sua preferência pelos livros sagrados; neste caso específico, a literatura sagrada da Índia como o Baghavad-Gita e os Upanishades, o que revela o caráter elevadamente espiritual deste poema e de todos que se seguem — configurando a espinha dorsal da sua obra poética.

Os temas vida e morte estarão sempre amparados pela visão espiritualista. Sua identidade, sua personalidade moldada por tudo que a circundava, — heranças familiares, vivências históricas, sociais e culturais, foi provocada também pelo movimento das leituras empreendidas. O ethos ceciliano, depois de nutrido “da substância dos outros”90— expressão usada por Valéry — encontra o seu caminho.

No discurso proferido a Haroldo Maranhão, Cecília inicia sua fala não se diferenciando de nenhum outro artista. Leiamos novamente o trecho: “Os autores nunca sabem bem dizer essas coisas, porque, na verdade, a poesia, praticada de um modo “vital” está isenta das claridades da lógica. O poeta dificilmente pode “raciocinar” sobre a sua própria poesia. (...) Em todo caso, se for possível considerar “raízes espirituais”...”. Ou seja, todo artista necessita distinguir-se dos outros. Há uma aparente negação das possíveis influências, mas que, num segundo momento, o poeta não se esquiva desdizer. O que é comum, pois a negação acontece pelo mecanismo psicológico do orgulho, até mesmo porque a influência, por si só, não é condição única e suficiente para o processo criativo.

O que demonstra Harold Bloom, em A Angústia da Influência (1991), quando se refere ao processo inicial da criação poética. Seu estudo parte do pressuposto de que é preciso conhecer “o poeta como poeta”, ou seja, sua identidade autóctona. Para isso, concentra-se no caminho percorrido por esse poeta, considerando o que ele chama de “desapropriação”, ou seja, a influência poética. Estabelecido isso, utiliza como parâmetros noções nietzchianas e freudianas.

O “poeta forte” não foi forte sempre, a princípio foi fraco, pois começou como um homem natural, só posteriormente, por meio da linguagem pôde se intensificar e se auto-

realizar. Essa linguagem nunca é livre, vem de uma língua forjada por seus precursores, estabelecendo e governando relações múltiplas, no caso dos poetas:91 “as relações entre poetas como poetas”, ou como queria Shelley:92 “de que toda linguagem é a relíquia de um poema cíclico abandonado”.

No entanto, este “poema cíclico abandonado” não é retomado tal qual, há uma continuidade antitética, uma descontinuidade capaz de suscitar a imaginação esvaziada, momento necessário para o que seguir-se-á, que é a noção de força criativa no sentido de busca da individuação que, acarreta, sem dúvida, dor e melancolia, pois é o embate de luta com os mortos, os precursores, mas que retornam agora com outras vozes.

A angústia da influência ocorre àqueles que contestam a existência dos seus precursores; àqueles que perseguem a Identidade. Tal Identidade existe, porém, não é somente singular, mas plural também, pois a filiação se reafirma ao mesmo tempo que se nega. Os íntimos escriturais serão sempre diferentes, embora devedores entre si.

Analogamente, um filho é uma resposta a seus pais, como um poeta é uma resposta a um poeta precursor, no entanto, cada um é cada um. Um poeta não precisa “parecer” com seu precursor, aliás, não precisa nem ter lido ou conhecido seu precursor, assim como um filho não precisa “parecer” com seus pais.

A influência poética procede sempre de uma desleitura do poeta anterior, um ato de correção criativa que é, na verdade, necessariamente, uma interpretação distorcida. Tal prática poética ocorre também à prática crítica. Bloom pensa que “toda crítica é uma poesia em prosa”, pois a crítica nada mais é do que uma “abertura no precursor”, no sentido de que é a busca por descobrir os caminhos secretos que levam um poema a outro; em paralelo, é o que pensa a Estética da Recepção, quando busca discutir a importância do texto, seu efeito sobre o leitor e como este o interpreta. O texto como sistema de combinação necessita do leitor, cabe a ele preencher os vazios deixados pelo próprio sistema. São os vazios que93 “possibilitam as relações entre as perspectivas de representação do texto e incitam o leitor a coordenar estas perspectivas”. Assim, o leitor é o responsável pela continuidade da literatura, pois, é a partir das suas experiências acumuladas, de seu repertório social e cultural que se estabelece o

91 BLOOM, Harold. A Angústia da Influência 1991. p.56. 92 Apud BLOOM, Harold. A Angústia da Influência 1991. p.56.

horizonte de expectativa, entende-se por isso:94 “tudo o que pode ser vislumbrado a partir de uma perspectiva”. O leitor, a partir do seu repertório, do seu horizonte de expectativa, confere ao texto nova visão, visão esta que se altera a cada nova recepção.

Parecem-nos pertinentes tais colocações, quando as relacionamos ao Cântico XXIV, de Cânticos, objeto da nossa pesquisa:

Não digas: Este que me deu corpo é meu pai. Esta que me deu corpo é minha mãe.

Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram Em espírito.

E esses foram sem número. Sem nome.

De todos os tempos.

Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje. Todos os que já viveram.

E andam fazendo-te dia a dia. Os de hoje, os de amanhã.

E os homens, e as coisas todas silenciosas. A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos. O teu mundo não tem pólos.

E tu és o próprio mundo.

(MEIRELES, Cecília. Poesia Completa.Vol.I. Cânticos, p.133)

O eu poético parece retomar o “poema cíclico abandonado” de que falou Shelley, todo fato gera ramificações, ou seja: “Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje”.

O exercício místico manteve-se ao longo da trajetória literária de Cecília Meireles; a partir da obra Viagem, escrita em 1939, verificam-se outras preocupações líricas, no entanto, não houve abandono do que vinha realizando e acreditando, até mesmo porque o teor transcendente que emana em torno do ser, do tempo, do espaço, da vida, da morte, estarão presentes em todas as obras. Os princípios éticos e as perquirições filosóficas estão registradas nas várias cartas que o poeta enviou aos amigos. Como o trecho abaixo, de uma carta enviada à amiga escritora, Lúcia Machado de Almeida:95

A Índia é um espetáculo fabuloso — e impossível de descrever numa carta. Além do cenário humano, há os museus, os bazares, os monumentos... uma sucessão de coisas. Não me espantei muito porque já sabia de tudo isso pela leitura.

Portanto, as ressonâncias, particularmente, orientais firmaram-se ainda mais quando o poeta teve a oportunidade de visitar a Índia, a convite do primeiro-ministro Nehru e participar de um simpósio sobre a obra de Gandhi.

94 JOBIM, José Luiz. Palavras da Crítica. Tendências e Conceitos no Estudo da Literatura. 1992, p.241. 95Revista Ângulo. No.90 Ano 2001. p.31