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A tecnologia, porém, pode ser usada contra os fins para os quais foi criada, nomeadamente na área das respostas sociais às práticas criminosas. No caso da violência doméstica, pode ser usada pelos agressores em seu próprio benefício. A comissão australiana Victorian Royal Commission into Family Violence37 refere, no relatório de trabalho e recomendações de 2016, que a tecnologia está a tornar-se cada vez mais importante na área da violência familiar, confirmando que os agressores recorrem cada vez mais a esta para dominar e controlar as vítimas, principalmente através da perseguição. Segundo dados de 2016 da Australian Bureau of Statistics38, uma em cada cinco mulheres, com idade superior a 15 anos, sofre de perseguição.

No âmbito da violência doméstica, Woodlock (2015, p. 24) alerta para a necessidade de mais e melhores estudos, assumindo que, no cenário atual, as autoridades competentes nesta área não estão preparadas para tratar deste tipo de casos, chegando a diminuir o stalking tecnológico a uma gravidade ligeira. Burdon & Douglas, (2017) indicam existir provas que algumas autoridades desvalorizam este tipo de abuso,

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Victorian Royal Commission into Family Violence, 2016. Acessível em:

http://www.rcfv.com.au/MediaLibraries/RCFamilyViolence/Reports/Final/RCFV-Summary.pdf

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muitas vezes por desconhecimento e má preparação, levando a situações em que a própria autoridade não assume o caso como um crime ou desencoraja a vítima a apresentar queixa.

Em 2002, nos Estados Unidos, assumiu-se pela primeira vez o uso da tecnologia no contexto da violência doméstica, através do projeto Safety Net Project. Woodlock (2015) esclarece que vários autores assumem a tecnologia, e o seu desenvolvimento, como uma vantagem para as vítimas, no que diz respeito à segurança e à assistência o processo de recuperação do abuso. No entanto, o mesmo autor aponta que a tecnologia pode providenciar aos agressores mais ferramentas e meios de intimidar e controlar as vítimas. A tentativa de contacto por via telefónica ou envio de mensagens não deve ser subestimada:

“Some perpetrators text and repeatedly, creating dread and fear in the victim that the harassment will never end. Some women receive only one text or call daily or weekly, but this can be equally as terrifying in the context of their specific domestic-abuse history” (Woodlock,2015, p. 4).

Citando Hand et al, Woodlock (apud 2015, p. 15) alerta para o potencial uso das tecnologias de informação e comunicação (TIC) por parte dos agressores, podendo-lhes mesmo providenciar oportunidades de controlo das mulheres, criar até uma nova forma de abuso ou colocar, por exemplo, a vítima sob vigilância e escuta. O autor socorre-se de estudos recentes para referir que, nos Estados Unidos, 25% das vítimas de stalking reportaram serem perseguidas via tecnológica, sendo o correio eletrónico um meio prevalente. Num desses estudos é destacado o uso a meios de controlo GPS e câmaras de vigilância de forma a monitorizar a vítima39.

Melander (2010) debruçou-se, por sua vez, sobre grupos de parceiros no universo de 39 alunos, também eles dos Estados Unidos. Os resultados indicaram que esses alunos usavam a tecnologia para perseguir, controlar e assediar os seus parceiros através dos seus telemóveis e redes sociais. Os comportamentos controladores incluíam a monitorização do paceiro ou ex-parceiro através do uso de tecnologia, como o GPS, o envio constante de mensagens de texto, o assédio através da localização, entre outros.

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Woodlock (apud 2015, p. 5) cita Fraser et al para referir que os casos de stalking tecnológico continuarão a subir. Dois estudos citados por Woodlock (apud 2015), feitos em universidades nos EUA, indicam que grande parte dos inquiridos já tinha sofrido algum tipo de perseguição e/ou controlo através da tecnologia pelos seus companheiros ou

Por causa da tecnologia, o autor conclui que os agressores possuem maior controlo sobre as suas vítimas, mesmo quando estão em diferentes localizações.

Numa outra pesquisa, Dimond et al (2010) entrevistaram 10 mulheres vítimas de violência doméstica a viver num abrigo. Da sua recolha de dados concluiu-se que os agressores estão a usar o sinal de GPS, assim como plataformas que permitem o acesso à localização do dispositivo, como por exemplo o Facebook, para monitorizar as vítimas. Embora os investigadores assumam que são necessários mais estudos para perceber como é que os agressores podem usar a tecnologia a seu favor, as vítimas confirmam que é muito difícil esconder a sua localização através das redes sociais, referindo o exemplo das marcações em fotografias partilhadas no Facebook por familiares ou amigos.

Woodlock (2015) explica que o controlo dos agressores através da tecnologia é de tal forma sólido e constante que muitas vezes, depois de terminada a relação, leva a vítima a mudar de número de telefone, a deixar de marcar presença nas redes sociais ou, inclusive, a deixar de ter acesso a dispositivos tecnológicos ligados à Internet, como telemóvel, tablet ou portátil:

“Throught text messages, phones calls, GPS tracking, and social media, perpretrators use mobile techonologies to stalk women, (…) Technology provides not only more opportunities to use this tactic but also a larger range of methods, some of which facilitate abuse. (...) Technology facilitated stalking has wide- ranging implications for victims; women often have to change phone numbers, close Facebook accounts, and relocate to another state or country (…) may seem minor inconveniences, but when situated in a pattern of coercive control, they are further consequences of the tactics perpetrators employ to isolate and intimidate women” (Woodlock, 2015, p. 25-27).