Como se observa pelo exame da tabela anterior, a primeira corrente de pesquisa sobre empreendedorismo tem como objeto de análise o empreendedor individual. As contribuições dessa corrente incluem, fundamentalmente, estudos normativos ou empíricos destinados a identificar características e traços de personalidade dos empreendedores e diferenças entre empreendedores e não-empreendedores (McClelland, 1967; Collins & Moore, 1964; Litzinger, 1965; McClelland & Winter, 1969; Hornaday & Aboud, 1971; Palmer, 1971; Shapero, 1975; Timmons, 1989; Decarlo & Lyons, 1979; Brockhaus, 1980a, 1980b; Carland et. al., 1984), bem como diferenças entre os negócios criados e administrados por empreendedores e aqueles cujos criadores (e administradores) não se enquadrassem na categoria de empreendedores (Collins & Moore, 1970; Cooper, 1979; Thorne & Ball, 1981, Timmons e Spinelli, 2004; Peters e Waterman, 1982).
Essas características incluem, essencialmente, atitudes e comportamentos que se associa ao empreendedor, seja através de reflexões teóricas sobre o tema, seja a partir de estudos empíricos de empreendedores. Esses comportamentos e atitudes dizem respeito, dentre outros aspectos, a: disposição quanto a aceitação de riscos, desejo de autonomia e independência, criatividade e capacidade de inovação. Carland et all., (1984) apresentam um interessante resumo, reproduzido na tabela 2.2, de características dos empreendedores sugeridas em 18 estudos, cobrindo um intervalo de 140 anos.
Tabela 2.2
Características de Empreendedores identificadas em estudos selecionados
Data do Estudo
Autor(es) Característica Normativa Empírica
1848 Mill Assumir riscos X
1917 Weber Fonte de autoridade formal X
1934 Schumpeter Inovação, iniciativa X
1954 Sutton Desejo de assumir responsabilidade X
Tabela 2.2 (concl.)
1961 McClelland Assumir riscos, necessidade de realização X 1963 Davids Ambição; desejo de independência;
responsabilidade; auto-confiança
X 1964 Pickle Impulso intelectual; interesse por relações
humanas; habilidade para comunicação; conhecimento técnico
X
1971 Palmer Avaliação e mensuração de riscos X
1971 Hornaday & Abud
Necessidade de realização; autonomia; agressividade; desejo de poder; necessidade de reconhecimento; inovador; independente
X
1973 Winter Necessidade de poder X
1974 Borland Crença na sua capacidade de controlar ou influenciar eventos externos (internal locus of control)
X
1974 Liles Necessidade de realização X
1977 Gasse Orientado por valores pessoais X
1978 Timmons Auto-confiança; orientação para objetivos; moderada propensão a aceitação de riscos; internal locus of control; criatividade; inovador
X X
1980 Sexton Energético; ambicioso;atitude positiva em reação à acontecimentos negativos
X 1981 Welsh &
White
Necessidade de controlar; interesse em assumir responsabilidades; auto-confiança; impetuoso; interesse em enfrentar desafios; moderada propensão a aceitação de riscos
X
1982 Dunkelberg & Cooper
Orientado para o crescimento do negócio; independente; habilidades artesanais
X
Fonte: Carland et al., 1984, p. 356
O estudo de Hornaday (1982), incluído na publicação “Encyclopedia of Entrepreneurship” (Kent, Sexton e Vésper, eds., 1982) faz também um levantamento das características
usualmente atribuídas aos empreendedores a partir do exame de estudos realizados ao longo dos anos sessenta e setenta, chegando a catalogar um total de 42 características associadas a empreendedores. Na tabela 2.3 apresenta-se uma lista de 19 características mais freqüentes nos sete estudos examinados por Hornaday (1982), por ordem da freqüência com que são citadas nesses estudos.
Tabela 2.3
Características mais freqüentemente atribuídas aos empreendedores
Ordem Característica
1 Auto-confiança
2 Perseverança, determinação 3 Energia, diligência
4 Poli-valência
5 Capacidade de assumir riscos calculados 6 Necessidade de realização
7 Criatividade
8 Iniciativa
9 Flexibilidade
10 Atitude positiva para enfrentar desafios
11 Independência
12 Visão
13 Dinamismo, liderança
14 Versatilidade, Conhecimento de produto, marketing e tecnologia 15 Capacidade de se relacionar com pessoas
16 Abertura para sugestões e críticas 17 Orientado para lucro
18 Perceptivo
19 Otimismo
Fonte: Hornaday, John A. “Research on living entrepreneurs”, capítulo 2 de “Encyclopedia of Entrepreneurship” (Kent, Sexton e Vésper, eds., 1982)
Ao mesmo tempo em que faziam uma síntese exaustiva dos estudos sobre as características dos empreendedores em seu artigo, Carland et al. (1984) alertaram para as limitações dessa direção de pesquisas sobre empreendedorismo. Os autores observam que pode ser difícil, se não impossível, estabelecer o perfil do empreendedor a partir de características de atitude e comportamento como aquelas mostradas na tabela 2.3. Os autores sugerem, seguindo Vésper (1980), que o mais correto seria pensar em um continuum formado por diferentes combinações de características ao longo do qual vários tipos de empreendedor existiriam. Schollhamer (1982) utiliza essa abordagem ao analisar o que denomina empreendedorismo corporativo, identificando cinco tipos distintos de empreendedorismo (ou mais propriamente estratégias empreendedoras), a saber: administrativo, oportunista, imitativo, aquisitivo e incubativo. Dessas cinco estratégias apenas o empreendedor oportunista e o incubativo (que envolve a criação de novos empreendimentos) se assemelham à visão clássica de empreendedorismo.
Miner (1996), também aborda o empreendedorismo a partir de características e estratégias dos empreendedores, porém inova ao propor quatro categorias de empreendedores: o Realizador Pessoal (Personal Achiever), o empreendedor Executivo (Real Manager), o Super-Vendedor (Supersalesperson) e o Inovador (Idea Generator). Para cada uma dessas categorias, Miner (1996) analisa, através de estudos de casos, suas características distintivas, suas estratégias e possibilidades de sucesso. O trabalho se baseia numa pesquisa empírica junto a 100 empreendedores e oferece uma série de instrumentos metodológicos, dentre eles um questionário que permite ao candidato a empreendedor, ou empreendedor já na ativa, a avaliar seu talento empreendedor, classificando-o numa das quatro categorias propostas pelo autor. Além de argumentar que não existe uma categoria absoluta para o construto “empreendedor”, Carland et all. (1984) discutem também o que deveria ser considerado um negócio (ou uma iniciativa) com “espírito” empreendedor.8 Observam que, com relação a esse aspecto, costumam ocorrer dois equívocos. Um, o de considerar todo novo negócio (geralmente uma pequena empresa) como um fenômeno empreendedor. Outro, oposto ao primeiro, o de considerar que apenas negócios que apresentam grande crescimento, ou que sejam radicalmente inovadores, como um negócio com “espírito” empreendedor. Citando Vésper
8 Está-se adotando aqui essa expressão iniciativas ou negócios com “espírito” empreendedor, como alternativa
(1980) e seu continuum de tipos de empreendedorismo, os autores lembrar que muitos empresários podem deliberadamente desejar manter seu negócio dentro de um determinado tamanho, e ainda assim se tratar de uma empresa com características empreendedoras. Assim, segundo os autores, a verificação do “espírito” empreendedor de um negócio deveria resultar da comparação das características do negócio em pauta com as cinco categorias propostas por Schumpeter (1934), para identificar um negócio empreendedor (ver seção 2.1). Os autores descartam a quarta categoria proposta por Schumpeter – a descoberta de novas fontes de suprimento – por considerá-la muito ambígua e sugerem, então, que um negócio ou empresa seria considerado como tendo “espírito” empreendedor se apresentar pelo menos um dos quatro critérios remanescentes propostos por Schumpeter. Os autores propõem então, para orientar futuras pesquisas, que se faça a distinção entre as quatro categorias seguintes:
Pequenas empresas: uma pequena é qualquer negócio cujo proprietário seja independente,
ou seja, não seja ligado a um grande grupo empresarial, tenha independência de gestão, não tenha posição dominante num determinado segmento de mercado, não desenvolva novos mercados e não seja caracterizado por práticas inovadoras.
Negócios ou Empresas com “espírito” empreendedor: aquele que apresenta pelo menos
uma das quatro categorias de ações empreendedoras identificadas por Schumpeter, ou seja: tenha como objetivo rentabilidade e crescimento e adote práticas estrategicamente inovadoras.
Proprietário de pequena empresa: é um indivíduo que cria e administra um negócio para o
alcance de objetivos pessoais. O negócio deve ser sua principal fonte de renda e consumir a maior parte do seu tempo e recursos. O proprietário percebe o negócio como uma extensão de sua personalidade e intrinsicamente ligado aos objetivos e necessidades familiares.
Empreendedor: Um empreendedor é um indivíduo que cria e administra um negócio com o
objetivo principal de crescer e gerar lucro. Além disso, o empreendedor se caracteriza principalmente por um comportamento inovador e procurará adotar uma visão estratégica na gestão.
A contribuição inovadora de Carland et all., portanto, é questionar a noção de que todo novo negócio seja um negócio empreendedor e que todo empresário seja um empreendedor. Por outro lado, a análise oferecida pelos autores abre espaço também para se incluir com negócios
empreendedores, empreendimentos que não chamariam tanto a atenção por não apresentarem crescimento explosivo ou por não tratarem de inovações tecnológicas radicais.
De fato, em estudo anterior Hornaday (1982) já observava que muito poderia ser aprendido em termos de características de empreendedores e estratégias empreendedoras com a pesquisa de pequenos negócios, moderadamente bem sucedidos. Segundo esse autor, esses negócios são com freqüência mais adequados para serem usados como “role-models” porque estão mais próximos dos pesquisadores e pessoas comuns. O estudo desse grupo de empreendedores, lembra Hornaday pode permitir a identificação de importantes diferenças, não apenas entre empreendedores e não empreendedores, mas também entre esse tipo de empreendedor e os magnatas “super-star”. Nas palavras do próprio autor (Hornaday, 1982, p. 34):
“the study of the top-level entrepreneurs has a great deal of interest and popular appeal, but (...) it is merely the tip of the iceberg. The greater impact can be found bellow the surface among the unsung and relatively un-researched smaller entrepreneur. The balance of attention should be changed if we are to assemble a full picture of the New Entrepreneur”.
Gartner (1985), também questiona a utilidade das pesquisas sobre características de empreendedores, argumentando que as diferenças entre empreendedores podem ser maiores do que as diferenças entre esses e os não-empreendedores. Dessa forma, o foco da pesquisa deveria se voltar para a natureza do processo de criação de empresas. Assim, a pergunta que o pesquisador deve se fazer então é: como cada novo empreendimento criado difere dos outros? Gartner (1985) lembra que a criação de um empreendimento é um fenômeno multidimensional, no qual diferentes variáveis descrevem diferentes dimensões desse fenômeno. O empreendedor, como se verá, é apenas uma dentre as várias dimensões que compõe o quadro de referência de criação de novos empreendimentos. Assim, Gartner sugere que analisar o processo de criação de um novo empreendimento é mais adequado do que estudar a figura do empreendedor.
A estrutura proposta por Gartner considera que a criação de um novo empreendimento resultará da interação de quatro dimensões ou variáveis: a) O indivíduo – a pessoa envolvida na criação de um novo empreendimento (no caso, o empreendedor); b) a Organização – o tipo de empresa que é criado; c) ambiente – a situação que envolve e influencia a nova
organização; d) os processos da nova organização – as ações adotadas pelos indivíduos para iniciar o empreendimento. A figura 2.2 retrata graficamente a estrutura mencionada.
O modelo proposto enfatiza a noção de qualquer novo empreendimento resultará de uma interação (gestalt) das variáveis que compõem as quatro dimensões. Assim, nenhum empreendimento poderá ser corretamente descrito, ou sua complexidade adequadamente considerada, a menos que essas quatro dimensões sejam investigadas e se busque descobrir como as variáveis de cada dimensão interagem com variáveis de outras dimensões. Segundo Gartner, esses esquemas classificatórios e quadros analíticos são maneiras de recuar um passo para obter-se uma visão mais ampla e completa do fenômeno sob análise, num processo análogo à construção de modelos, o qual envolve integração e síntese.
O autor lembra, ademais, que a estrutura de quatro dimensões proposta deve ser vista como um caleidoscópio, um instrumento através do qual se pode ver a enorme variedade de padrões possíveis para a criação de novos empreendimentos. O objetivo é identificar os atributos de cada variável que descrevem como cada novo empreendimento foi criado, de forma que se possa fazer comparações significativas entre o processo de criação de diferentes empreendimentos.
Figura 2.2
Uma estrutura para descrever a criação de novos empreendimentos
Fonte: Gartner (1985)