5.1 Viser funnene endring?
5.1.1 Lite endring
dinamismo econômico26
Os diferentes regimes tecnológicos identificados por Nelson e Winter (1982) e os distintos regimes de crescimento propostos por Audretsch e Fritsch (2000), estão associados, como se viu acima, ao papel atribuído à atividade empreendedora nos processos de inovação e geração de emprego. A relação entre o dinamismo do sistema econômico e o papel da atividade empreendedora é discutida de forma ainda mais radical no trabalho de Audretsch e Thurik (2004), em que os autores propõem que, de fato, é possível identificar-se dois tipos de sistemas econômicos. Um, mais tradicional, e que vigorou até os anos 70 nos países desenvolvido, que os autores denominam de economia da gestão, e o outro, associado à economia do conhecimento e que se delineia a partir dos anos 80, identificado por Audretsch e Thurik (2004) como economia do empreendedorismo.
Como lembram Audretsch e Thurik (2004) os primeiros três quartos do século vinte foram marcados pela predominância da grande empresa, pela produção em massa de produtos padronizados e pela eficiência do sistema econômico assegurada pelas economias de escala e
26 Como já mencionado anteriormente, as denominações economia da gestão e economia do empreendedorismo,
referem-se à tradução das expressões em inglês “managed economy” e “entrepreneurial economy”, respectivamente.
de escopo. A economia da gestão seria, então, a resposta política, social e econômica a um sistema econômico dominado pelas forças da produção em larga escala e refletindo a predominância dos fatores de produção tradicionais, ou seja, o capital e o trabalho, no caso deste último, predominando a mão de obra de baixa qualificação. Nesse contexto, a sabedoria convencional da época, bem como a literatura econômica e gerencial predominantes, atribuíam um papel negativo às pequenas empresas e assim, indiretamente, ao empreendedorismo. Dentre os fatores negativos atribuídos às pequenas e médias empresas nessa literatura, Audretsch e Thurik (2004) destacam:
• pequenas empresas seriam menos eficientes do que suas contrapartes de grande porte; • pequenas empresas pagam baixos salários para seus empregados;
• pequenas empresas estariam apenas marginalmente envolvidos em atividades de inovação; e
• a importância relativa das pequenas empresas no sistema empresarial estaria declinando, tanto nos Estados Unidos como na Europa.
Apesar dessa avaliação negativa, observam Audretsch e Thurik (2004), diferentes estudos empíricos constataram uma reversão da tendência do declínio das pequenas empresas a partir do final dos anos 70, quando a participação das pequenas empresas no sistema empresarial e a participação do número de proprietários de negócios como percentagem da força de trabalho, começa a aumentar nos Estados Unidos e em vários países da Europa. Os autores argumentam que o re-surgimento do empreendedorismo, evidenciado pelo crescimento do número de pequenas empresas e pelo aumento do número de proprietários de empresas relativamente à força de trabalho, deveu-se a dois fatores. O primeiro foi a crescente globalização da economia mundial observada nesse período e o segundo, o deslocamento das vantagens competitivas de uma abordagem de economia de escala e produção em massa, para uma abordagem de atividade econômica baseada no conhecimento.
Uma discussão mais detalhada deste tópico pode ser encontrada em Brock e Evans (1989), que identificaram seis hipóteses que explicariam as mudanças ocorridas nesse período:
• mudanças tecnológicas que reduzem a importância das economias de escala na industria;
• a crescente globablização, acompanhada do aumento da competição por empresas estrangeiras, tornando os mercados de bens e serviços mais voláteis;
• a mudança na composição da força de trabalho, na direção de uma maior participação de mulheres, imigrantes, jovens e trabalhadores seniores, parece ser mais compatível com pequenas empresas do que com grandes empresas, tendo em vista que esses segmentos da força de trabalho tendem a atribuir um valor maior à flexibilidade no trabalho, o que seria mais usual nas pequenas empresas;
• uma mudança no perfil do consumo que passa a dar mais valor a produtos que atendem a necessidades e desejos específicos, ao invés de produtos padronizados, também estimula o surgimento de pequenas empresas para atuarem em nichos específicos;
• desregulamentação e privatização de setores e empresas, facilitando a entrada de novas e pequenas empresas em mercados anteriormente protegidos e inacessíveis; • a importância crescente da inovação, especialmente nos países de renda mais elevada,
que contribui ainda mais para reduzir a importância da produção em grande escala e incentiva a atividade empreendedora.
Assim, de acordo com Audretsch e Thurik (2004), o sistema econômico mais apropriado a esse novo desenho de mercado, preferências de consumidores, intensa inovação tecnológica e de estímulo à atividade empreendedora seria melhor caracterizado como uma economia do empreendedorismo.
Em seu trabalho, Audretsch e Thurik (2004) desenvolvem um referencial analítico mais detalhado para comparar os dois tipos de sistemas econômicos propostos. Esse referencial é baseado em quatro categorias, a saber: forças subjacentes, ambiente externo, como as firmas funcionam e políticas governamentais. Essas quatro categorias se desdobram em quatorze dimensões que permitem contrastar a economia da gestão com a economia do empreendorismo. A tabela 2.9, mostrada a seguir, sumariza a comparação entre os dois sistemas, a partir do referencial analítico proposto.
Tabela 2.9
Diferenças entre a economia do empreendorismo e a economia da gestão
Categoria Economia do
Empreendedorismo
Economia da Gestão
Forças subjacentes Economia local
Mudança
Emprego e altos salários
Globalização Continuidade
Trabalho ou altos salários
Ambiente externo Turbulência
Diversidade Heterogeneidade Estabilidade Especialização Homogeneidade Como as firmas funcionam Motivação Transações através do mercado Competição e cooperação Flexibilidade Controle Transações através de empresas Competição ou cooperação Escala
Políticas governamentais Estimular
Voltada para inputs (insumos)
Abrangência local
Voltadas para
empreendedores
Restritivas
Voltada para a produção (resultados)
Abrangência nacional Voltadas para as empresas existentes
Fonte: Audretsch e Thurik (2004), p. 13
Os autores argumentam, por fim, que o modelo de economia do empreendedorismo pode ser uma referência mais adequada do que o modelo da economia da gestão para explicar e considerar o papel do empreendedorismo nas economias contemporâneas e desenvolvidas.