Nesta etapa, é preciso identificar obstáculos vinculados ao problema social por meio da análise (a) da rede de práticas em que está situado, (b) da relação da semiose com outros elementos da(s) prática(s) específica(s) envolvida(s), e (c) do discurso (a semiose) propriamente dito, o que é feito interdiscursiva, linguística e semioticamente pela:
a) Análise estrutural (a ordem do discurso), e b) Análise interacional/textual
Trata-se, portanto, da análise material do discurso, mas que deve consubstanciar, também, outros aspectos que nele se inserem. O trato com a materialidade textual do discurso exige a percepção e o conhecimento do analista. Os documentários (Bagaço e Tabuleiro de Cana, Xadrez de Cativeiro) são compostos de entrevistas e depoimentos a respeito do trabalho escravo, cuja organização não permitiria uma análise textual- discursiva como proponho. Assim, optei por analisar os documentários em segmentos temáticos.
O material linguístico foi reorganizado em segmentos temáticos orientados (mas não limitados) pela caracterização do trabalho análogo ao de escravo no Brasil, segundo os próprios trabalhadores, e segundo os discursos do entorno: os demais envolvidos na prática, como a representante do sindicato, o gato (recrutador de trabalhadores), as esposas de trabalhadores e membro da CPT.
Esse procedimento me permitiu reunir uma abordagem linguística correlacionada às visões políticas e sociais relevantes para o estudo da mudança social, entendendo o discurso como
[...] o uso de linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais [...] uma prática, não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 90-91).
Considerei a perspectiva de que os “processos de produção, distribuição e consumo textual, e a natureza desses processos varia entre diferentes tipos de discurso de acordo com fatores sociais.” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 106-107).
Assim, cada tema abordado foi reunido por segmento temático, como o aliciamento, as características e condições do trabalho, o salário, a falta de oportunidades etc. Com isso, tornou-se possível a análise discursiva, considerando-se tanto a segmentação
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temática, quanto a força dos enunciados e a coerência dos textos em sua relação com a prática social no contexto dos documentários.
Minha proposta para atender a este objetivo dá-se pelos seguintes aspectos do texto:
I) Identificação do conteúdo temático
A identificação do conteúdo temático do texto se dá pela análise da infraestrutura, ou seja, a camada mais profunda do folhado textual, que é dada “pelo plano mais geral do texto, pelos tipos de discurso que comporta, pelas modalidades de articulação entre esses tipos de discurso e pelas sequências que nele eventualmente aparecem” (BRONCKART, 1999, p. 120). Os temas foram identificados pelas relações de significação provenientes da articulação da estrutura textual (expressão) e pelo significado que dela emana (conteúdo).
A relação expressão (estrutura) e conteúdo (significado) é dada pela verificação dos significados imanentes do próprio texto. Caracteriza-se por uma verificação pela organização linear do conteúdo temático.
II) Tipos de discurso
Neste momento da análise, são verificadas as relações do mundo ordinário com os mundos discursivos (a) implicado, em que aparecem referências dêiticas e (b) autônomo, em que não há presença de referências dêiticas. Esses mundos são relacionados à situação de enunciação que pode ser (a) implicada, em que há marcas da enunciação e (b) teórico, em que não há presença de marcas da situação de enunciação. Esses tipos de discurso são classificados em
a) Discurso interativo, em que se vê conjunção implicada; b) Discurso teórico, em que se vê conjunção autônoma; c) Relato interativo; em se se vê disjunção implicada; e d) Narração, em que se vê disjunção autônoma.
III) Mecanismos enunciativos
Para se chegar a esses tipos de discurso, as relações espaciais e temporais são determinantes. A identificação dos mecanismos enunciativos, que permite para a classificação dos tipos de discurso, seguiu as propostas o ISD, a saber:
a) vozes
As vozes são classificadas como supra-ordenadas, quando presentificam o narrador ou o expositor, e infraordenadas, quando representam instituições sociais ou personagens inseridos no discurso.
Terminologicamente, três representações são marcadas pelas vozes: actante, agente e ator. Segundo Bulea (2010), actante refere-se a qualquer pessoa que pode se implicar no agir; ator, refere-se a um actante com agir específico, dotado de motivo, capacidade
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e intenção para uma ação específica; e agente, que não possui as propriedades do ator e pode ser tanto os próprios actantes quanto quaisquer indivíduos que interajam com o actante durante o discurso.
b) modalizações
As modalizações marcam as posições dos actantes e permitem a verificação de seu grau de engajamento na situação, com indícios de como faz as representações. São classificadas em:
i) lógica: avaliação conteúdo temático pela sua condição de verdade;
ii) deôntica: avalia o conteúdo pelos valores (socioculturais), opiniões e regras vigentes;
iii) pragmática: avalia a responsabilidade de uma entidade; e iv) apreciativa: avalia o conteúdo subjetivamente.
IV) Figuras de ação
A principal função das figuras de ação é promover uma análise da influência exercida pelo agir na dimensão linguística dos tipos de discurso e nas modalidades de elaboração de representação que o actante faz do seu trabalho, e são divididas em
i) ação ocorrência, com forte grau de contextualização;
ii) ação acontecimento passado, com marcas de um agir singular, sem relação com a situação de enunciação,
iii) ação experiência, com referências a experiência do actante,
iv) ação canônica, com marcas de abstração do contexto e do actante que realiza o discurso, e
v) ação definição, com marcas de reflexão, seja de suporte, seja de alvo de uma redefinição feita pelo actante.
Ao final, traço considerações sobre o reflexo das representações do agir, captados pelas figuras de ação, como subsídios para a análise linguística em ACD. Aponto as relações estabelecidas entre discurso e prática social (itens 3.2.3.2.1, 3.2.3.4.1 e 3.2.3.5).
2.4.3 Considerações sobre os porquês da ordem social (ou rede de práticas)