Além dos aspectos relacionados às mudanças socioespaciais e às dinâmicas ocorridas na feira, procuramos, durante as observações de campo e a aplicação dos questionários com os feirantes, identificar os maiores problemas existentes na feira. No contexto da cidade, esse evento hoje não se constitui somente num espaço de comercialização agrícola para a população, mas, também no local concentrador de problemas socioambientais não só no seu espaço como na sua área de influência.
Sendo assim, constatamos que na feira existem inúmeros problemas que vão desde a organização e localização do espaço à falta de infra-estrutura. A partir disto, podemos identificar os principais: a falta de padronização e de condições de trabalho nas bancas; a poluição por resíduos sólidos produzida no espaço da feira; falta de segurança; o intenso fluxo de carroças; a falta de estacionamento nas ruas adjacentes à feira; e os impactos gerados no trânsito da cidade. A falta de padronização e de condições físicas das bancas, por exemplo, foi pontuada pelos feirantes, como um dos maiores problemas, constatado por nós nas observações no local.
Conforme já havíamos ressaltado anteriormente, ao falar sobre o zoneamento e a organização da feira, a grande maioria das bancas existentes nesta é de madeira, com cobertura de lona plástica. Algumas poucas, principalmente no setor de roupas e calçados, é que são de ferro.
Como muitas dessas bancas apresentam uma situação física precária, isto, além de comprometer o trabalho de muitos feirantes, passa a ser um dos prováveis motivos por que os consumidores venham preterindo a feira aos mercadinhos e supermercados. Os feirantes, por sua vez, ressaltam que, devido à irregularidade existente no movimento da feira durante o mês, nem sempre eles têm condições de bancar a reforma de suas bancas ou mesmo construir outra. Ao mesmo tempo, os feirantes reclamam também da promessa de padronização das bancas e dos setores da feira feita pela Prefeitura Municipal. Por duas oportunidades, a SEMSUR desenvolveu projetos de intervenção na feira para melhorar o ambiente
de trabalho tanto para o comerciante como para os consumidores. Esses projetos iriam setorizar definitivamente a feira, distinguindo cada setor com uma cor diferente, enquanto todas as bancas passariam a ter as mesmas dimensões.
No entanto, mesmo o poder público tendo desenvolvido tais projetos, propondo melhorias no seu espaço, o grande desafio, para se poder promover mudanças no local, é conseguir vencer a resistência de alguns poucos feirantes, principalmente os mais antigos e influentes, como também de alguns comerciantes estabelecidos.
A poluição por resíduos sólidos no espaço da feira também foi apontado como problema pelos feirantes. O que observamos ao longo do trabalho é que, à exceção do setor de roupas e calçados, todos os demais setores da feira convivem com a sujeira (FIGURA 24-25).
FIGURA 24-25 – Restos orgânicos presentes no espaço da feira. Foto: Mylena dos Santos, 2006.
Por parte dos consumidores da feira, a presença de resíduos sólidos é considerada como um elemento definidor do local onde se vai efetuar a compra. Isto ocorre, pois, em face da conscientização alcançada pelos consumidores hoje, aqueles feirantes que não observam minimamente as condições de higiene dos seus pontos de comercialização encontram dificuldades para venderem seus produtos.
Num ambiente como a feira, não é muito difícil perceber-se a existência de locais susceptíveis a contaminação. Um ambiente é caracterizado como contaminado quando possui índices elevados de contaminantes químicos ou biológicos, que podem levar risco à saúde humana, ou de determinados organismos, como o caso dos patógenos (coliformes, escherichias, entamoebas), metais pesados
e dos componentes orgânicos identificados em defensivos agrícolas e, conseqüentemente, nos alimentos vendidos (VAZ ET AL, 2003).
Neste sentido, a feira de Macaíba caracteriza-se pela produção permanente de resíduos sólidos nos seus setores de venda (hortifrutigranjeiros, carnes, cereais, artesanato etc.), que são gerados tanto pelos feirantes, desde a recepção e organização dos alimentos nas barracas e/ou no chão, muitas vezes, resultado da falta de conhecimento quanto ao destino mais adequado ao lixo produzido, como pelo consumidor, que por vezes se rende ao consumo de alimentos (comidas variadas, frutas, sorvetes etc.), transformando-se em gerador ao jogar no chão cascas e restos de comida.
Tal estado de coisa torna o espaço da feira desagradável não só para a visão como para o paladar, na medida que os restos de produtos que ficam jogados no chão geram um grande desconforto para quem transita na feira, além de atrairem moscas, mosquitos e cães, que são vetores de doenças.
A falta de segurança no espaço da feira é apontada como outro grave problema. Praticamente todos os feirantes já presenciaram furtos ou assaltos contra outros feirantes ou mesmo freqüentadores da feira. O trabalho de patrulha nesse ambiente fica a cargo de dois seguranças particulares que circulam por todo o espaço. Porém, o número é insuficiente em função da sua área de abrangência.
Constantemente surgem relatos de feirantes que viram furtos a colegas de trabalho e a consumidores e logo em seguida foram ameaçados, a exemplo do que aconteceu com a senhora Francisca Maria Silva Nascimento (55 anos), quando diz que “dia desses um velhinho foi assaltado aqui junto a mim e, como eu vi, o assaltante mandou que eu calasse minha boca porque senão eu seria a próxima”.
Um outro problema apontado pelos feirantes é a intensa movimentação de colocação dos ambulantes e a circulação de carroças pela feira. Os carroceiros são pessoas pagas pelos consumidores para fazerem o transporte de suas compras. Dispostos ao longo da praça “Augusto Severo”, na rua “Pedro Velho”, e ao lado do “Rede Mais Gama”, eles são requisitados todo o tempo para fazerem o serviço de entrega direta.
No entanto, em função da grande concentração de barracas em determinados setores, como os de roupas e calçados e de frutas, legumes e verduras, a grande circulação dos carroceiros torna praticamente impossível o trânsito de pessoas por entre as bancas, sem contar as bicicletas e motocicletas que
também circulam em alguns momentos. A ocupação das calçadas e de alguns espaços entre as bancas pelos ambulantes também dificulta a passagem dos freqüentadores, pois aqueles dispõem suas mercadorias nos locais destinados a circulação, o que torna muito comum o empurra-empurra de pessoas nos horários de maior movimento da feira.
Além dos problemas identificados pelos feirantes no espaço interno da feira, observamos também que tipos de problemas são gerados na sua área de abrangência. Estes estão relacionados, principalmente, ao trânsito da cidade que fica muito comprometido durante a feira e mesmo antes de sua realização.
Um dos grandes problemas enfrentados hoje por Macaíba é a debilidade da infra-estrutura viária. Vimos que até o início do século XX a cidade era privilegiada por uma posição geográfica que lhe garantia ser ponto obrigatório de passagem do Litoral em direção as regiões Agreste, Oeste e Seridó. Mesmo mantendo esta condição, Macaíba ainda apresenta a mesma organização viária desse período, não acompanhando o aumento vertiginoso no número de veículos.
Além disto, por esse município passam importantes rodovias no Estado, como as BRs 226 (também conhecida como “estrada de Mangabeira”) e a 304, que ligam Natal ao interior do Estado; e a RN-106, bastante utilizada por veículos de grande porte que saem ou que chegam do Distrito Industrial de Extremoz. Pelo centro da cidade, circulam, também, ônibus de várias empresas, que fazem o transporte de passageiros até Natal, a exemplo da “Trampolim da Vitória”, e que prestam serviços às inúmeras fábricas localizadas no Centro Industrial Avançado (CIA), além de caçambas e “caçambões” das pedreiras e das empresas de construção civil (FIGURA 26).
Os problemas no trânsito da cidade em função da feira começam na sexta-feira quando o espaço passa a ser organizado. Numa tentativa de amenizar os transtornos causados, a SEMSUR e a Secretaria Municipal de Transito e Transporte (SMTT) entraram em acordo com os feirantes para que a colocação das bancas em seus lugares só ocorra depois da oito da noite, quando diminui o trânsito, embora seja nesse momento que os supermercados da cidade aproveitam para abastecerem os seus depósitos, o que termina por gerar um grande fluxo de caminhões e carretas nessa área.
FIGURA 26 – Circulação de ônibus no horário de organização da feira. Foto: Geovany Dantas, 2007.
A princípio, houve resistência por parte do pessoal da organização para cumprir o acordo. A alegação era de que, como o horário sugerido para iniciar o trabalho era muito tarde e como o espaço ocupado pela feira era grande, não daria tempo para concluir o trabalho. Diante das pressões da SMTT e da SEMSUR, chegou-se a um consenso e o horário estabelecido para o transporte das bancas para as ruas seria de quatros horas da tarde, mas a organização só se iniciaria mesmo as oito horas da noite.
Os problemas também se estendem ao longo do sábado, devido principalmente à falta de estacionamento nas ruas adjacentes, pois todas precisam ser liberadas para receber o intenso fluxo de veículos. Em função de essas ruas do centro de Macaíba serem muitos estreitas, é praticamente impossível o trânsito em mão dupla, problema este agravado pelo grande fluxo de caminhões e carretas que passam pela cidade em direção aos municípios do interior do Estado ou mesmo para outros estados.
É opinião corrente entre alguns comerciantes e até entre populares a necessidade de que a Prefeitura retire a feira do lugar onde se realiza hoje para uma outra área da cidade, como forma de solucionar parte dos problemas no trânsito. No entanto, devemos lembrar que um projeto dessa envergadura necessita de um estudo mais aprofundado para que se possa saber a viabilidade dos possíveis locais para sua instalação; vencer a resistência de boa parte dos feirantes e de alguns comerciantes estabelecidos ao longo das ruas onde se realiza a feira; por fim, e não menos importante, é preciso levar em consideração que a feira não é só um espaço
físico e econômico, mas também um espaço carregado de significado simbólico construído pelos feirantes e pelos consumidores ao longo do tempo, e que, em última instância, representa um dos fatores que fazem a feira persistir ainda hoje.