4 Metodología
4.5 Validez y fiabilidad
EntreNós- A preparação
Continuamos na sala de aula o diálogo sobre a identificação das situações de isolamentos entre os adolescentes, causados ou não pela recorrência da utilização do celular. Eles fizeram apontamentos sobre o silenciamento das suas vozes na verticalidade da relação entre escola, professores e estudantes, das “ilhas” criadas em alguns grupos de jovens, do conjunto de informações em que estão imersos, a sobrecarga de conteúdos teóricos, o cansaço e o automatismo nas relações interpessoais, causadas geralmente pela velocidade acelerada do trabalho e com a situação do currículo no EM.
A partir desses fatores que movimentavam as inquietações de alguns dos jovens, um grupo de estudantes da turma A propôs realizar ações em performance no horário do recreio. Programa de ações: escolher dois lugares no pátio do recreio, distantes entre si, onde eles permaneceriam inicialmente parados. O fio de conexão entre eles seria o olhar fixo um para o outro. Outras colegas em estado de performance fariam leitura de fragmentos textuais de diferentes livros didáticos, matérias de jornais, feed de notícias do facebook e poesias. Ao mesmo tempo em que estavam próximos pelo ponto fixo no olhar, estavam distantes, uma imobilidade cercada do movimento de outros corpos, identidades,
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urgências e focos, com informações sendo jogadas acelerada e aleatoriamente no espaço de silêncios, misturados ao burburinho de conversas e interações no horário de recreio. Os estudantes também propuseram elementos para somar à composição (objetos e vestuário). Dentre as possibilidades de elementos que poderiam ser usados na performance, chegaram na cadeira escolar; um objeto do cotidiano da sala de aula apoiando a composição da imagem da performance. Tentativas de romper com a linearidade espacial do pátio de recreio, agora um lugar de acontecimentos das ações em performance dos corpos dos estudantes performers em relação aos demais corpos, que (por vezes) também estariam parados em algum canto do pátio. As adolescentes Nathália, Laura, Assíria, Fabiana, Tauane, e o adolescente Álvaro combinaram as ações que passamos a chamar de performance EntreNós.
A ação em performance...
A princípio um recreio como todos os demais: fila para o lanche, estudantes sentados nos bancos compridos da cantina, alguns sentados no chão do palco e outros espalhados pelo pátio, os pibidianos conversando, cumprimentando a todos e caminhando junto a mim enquanto observávamos a certa distância os dois adolescentes, Álvaro e Nathália que andavam carregando uma cadeira de um lado para o outro do pátio. Pausa. Escolheram o lugar. Organizaram-se em linha reta seguindo o combinado: um de frente ao outro, mantendo certa distância, e em seguida, acomodaram vagarosamente a cadeira no chão, olharam ao redor verificando quem se aproximava e/ou os observava. Sentaram- se olhando nos olhos um do outro. Silêncio. A performance estava em acontecimento. Os demais estudantes aproximaram-se buscando ouvir a narrativa das vozes ou dos corpos de Álvaro e Nathália.
Apesar da quantidade de estudantes no pátio (uma média de 700 adolescentes juntos, em horário de recreio, no turno da manhã) havia um caminho vazio entre os performers, uma delimitação silenciosa e de consenso coletivo, sustentada pelos os estudantes. Ali se instaurou um espaço vazio em meio ao movimento, que permanecia em suspensão; apenas os olhares dos estudantes performers em jogo. Álvaro e Nathália eram os primeiros estudantes a performarem na escola. Naquele momento de ansiedade e expectativa alcançaram um estado de presença. Sem nenhum movimento no corpo e na
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voz, os seus olhos traçavam uma linha invisível que delimitava um trajeto entre um e outro capaz de gerar nos demais colegas espectadores o respeito ao espaço criado para a realização da ação em performance. Ryngaert ao discorrer sobre o estado de presença do jogador afirma:
A presença é uma qualidade misteriosa e quase indefinível [...]. Ela não existe sempre pelas características físicas do indivíduo, mas sim em uma energia vibrante, da qual podemos sentir os efeitos mesmo antes de o ator agir ou tomar a palavra, no vigor de seu estar no lugar. (RYNGAERT, 2009, p.55).
Não havia cordas para delimitar um espaço ou demais recursos para configurar um possível palco. A intenção era a de se misturar entre os estudantes espalhados no pátio, mas a postura e o estado de presença entre os olhares dos jovens criaram o corredor vazio. Depois de certo tempo parados e em silêncio, levantaram-se e viraram as carteiras, de costas um para o outro, e o olhar passou a ser direcionado aos espectadores. Pelo que observei, Nathália manteve o olhar direcionado a um ponto fixo à sua frente mantendo- se séria e concentrada na sua ação. Álvaro, permitiu-se dialogar, em sorrisos, com os colegas. E o corredor que estava vazio rapidamente foi preenchido com o deslocamento dos demais adolescentes espectadores.
Nesse momento, as demais estudantes envolvidas na performance aproximaram- se de Álvaro e Nathália começando a ler repetidamente e em ritmo acelerado o conteúdo dos livros didáticos, jornais, reportagens do facebook e mensagens do celular. Aos poucos os performers foram se sobrecarregando de tantas informações, e, cada um em seu tempo, levantou-se e saiu a procura um do outro no meio da multidão de adolescentes. Ao se encontrarem, colocaram as carteiras próximas uma da outra; inicialmente se sentaram de costas um para o outro, de modo que permaneceram olhando para as colegas que falavam insistentemente; em seguida, viraram as cadeiras uma de frente para a outra e, juntos, se sentaram, fecharam os olhos - um pedido de silêncio?; aos poucos, as adolescentes que liam os textos ao redor das cadeiras foram se distanciando e misturando-se aos demais estudantes espectadores.
A partir da ação performática EntreNós, sensibilizei-me para uma escuta mais atenta à criticidade e poética dos secundaristas, surpresa com a organização espacial e ao respeito dos espectadores durante a performance. No espaço da ação e da narrativa realizada pelos estudantes performers observei diálogo com as suas inquietações
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singulares. A performance me possibilitou outro campo de observação para o olhar dos jovens acerca de situações do cotidiano escolar: sobrecarga de informações, isolamentos, encontros e relações interpessoais fragilizadas e distanciadas.
A poética da presença dos corpos em performance semeada no solo daquele território escolar marcava uma sequência de acontecimentos performáticos que se sucederam no decorrer dos anos de 2015 e 2016. Nesse período as performances foram realizadas pelos estudantes secundaristas Nathália, Álvaro e Fabiana juntamente com outros adolescentes da EEU que se sentiram confortáveis em compor diálogos com a comunidade escolar dentro desse campo de trabalho proposto pelos bolsistas e por mim.