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4. Resultater

4.2 Vurdering av funksjonalitet og brukervennlighet av IMx og Observer

4.2.4 Validering av frekvenser

RENATA: Mas você acha que é dom por quê?

G: Porque perto de começar a tocar como ogã, quando me peguei com a coisa, então eu via um primo meu tocando e trazendo essas informações afro. Eu perguntava alguma coisa, ele respondia... Tanto que essas coisas conjugadas, principalmente no keto, que tem umas formulações musicais diferentes, ele foi a primeira pessoa que me apresentou esse lado, essas informações... Querendo ou não, você aprende um toque, o cara já vai identificar com uma cantiga, ele vai explicar aquela cantiga e vai tomando uma proporção que você vai tomando conhecimento mesmo da história. Quando eu cheguei, que eu tinha decidido essa opção pra mim [ele se refere à decisão de ser

iniciado na religião], eu já não era tão cru no assunto. Só faltava

passar pelo processo ritual mesmo porque já na cabeça eu sabia que era um ogã. A primeira pessoa que me falou isso, na verdade, foi este meu primo, mas podia ser que não fosse. Até meu próprio orixá falou que eu era, por incrível que pareça. (Itálico meu).

(Entrevista concedida em 23/09/2008)

Por mais que reconheçam que seus saberes precisam ser adquiridos/aprendidos, ou mais do que isso, para que qualquer coisa possa ser aprendida, os umbandistas afirmam que existe uma força, uma energia que, sendo emanada e constitutiva dos

43 próprios orixás e tudo o mais que existe (a qual denominam “axé”), tudo rege. E, segundo Mãe C., este é o segredo da umbanda, um segredo que se descobre e que se aprende, mas que não se ensina porque só é possível compreendê-lo pela vivência: “as pessoas estão muito acostumadas com respostas certas, tipo prontas, por isso é difícil responder a certas perguntas e convencer as pessoas de que isso é apenas o que eu sei, apenas a minha opinião a respeito da experiência que eu tenho”.

Essa relação entre saber algo que não foi ensinado e conhecer coisas que não se sabe como aprendeu acompanha os mais diferentes momentos da produção umbandista e independe do grau de desenvolvimento. A mãe-pequena Jnt. também fez referência a este “saber de alma” na entrevista que me concedeu:

Os guias são nossos antepassados. Então, é por isso que quando a gente ouve algumas coisas aqui dentro, aqui no terreiro é como se a gente estivesse lembrando de alguma coisa que a gente já viveu.Você vai aprendendo uma coisa, mas que na verdade você já sabe aquilo. Não é uma coisa assim, é... nova, sabe? “Ah, isso aqui eu nunca ouvi falar”. Parece que aquilo que a gente tá ouvindo já tá dentro da gente. E vindo aqui pro terreiro a gente vai lembrando daquilo que tá lá no fundo da mente, tá no nosso passado, com nossos antepassados. [...] Tá na alma da gente. Não tem jeito, não.

(Entrevista concedida em 07/03/2009).

Conheci algumas pessoas que passaram pela “Casa do J.” durante a realização de minha pesquisa de campo que me disseram que sua iniciação na umbanda foi apenas uma preparação para uma feitura posterior no candomblé. A justificativa para esta atitude muitas vezes se encontra no entendimento de que a primeira é uma religião doutrinária e ritualisticamente mais simples do que a segunda, além de ser menos dispendiosa no sentido financeiro, e por tratar de resolver problemas mais imediatos. Contudo, os membros que formam a corrente mediúnica principal da “Casa do J.” são todos umbandistas iniciados ou em vias de iniciação também no candomblé sem que isso signifique que sua atuação na umbanda seja apenas uma “ponte” para a religião dos orixás.

Eles me disseram que foi preciso se filiar ao candomblé porque seu santo (seu orixá) estava cobrando “feitura” devido aos trabalhos espirituais desenvolvidos nos terreiros de umbanda exigirem muito “axé”. Não obstante, de acordo com Dona M., “na umbanda ninguém dá aquilo que não tem”, o que implica que, ao auxiliarem (seja

44 como rodantes, equedes ou ogãs) as entidades nos contínuos trabalhos de assistência espiritual, os filhos-de-santo precisem “gastar” seu próprio axé.

Este grande “gasto” se deve ao fato de que os umbandistas mantêm contato direto e crescente com espíritos e forças de naturezas diversas, transitando continuamente entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Logo, para dar prosseguimento aos trabalhos no terreiro é preciso “reabastecer-se”, o que só é possível “bebendo na fonte dos orixás”, fonte esta que se torna mais abundante quanto mais consumida32. Isto porque quanto maior e mais forte é a ligação entre o orixá e seu filho, mais axé este tem para dar e assim melhorar sua atuação como médium. A “feitura do santo” serve, então, para confirmar e fortalecer o vínculo entre eles.

Esta “feitura”, contudo, não pode ser realizada no mesmo espaço onde as entidades de umbanda se manifestam, já que os orixás não se misturam com eguns33. Por isso buscam o candomblé sem, no entanto, abandonar suas atividades umbandistas, pois mesmo depois de “feito o santo”, os médiuns continuam sendo acompanhados, protegidos e exigidos por seus pretos-velhos, boiadeiros, erês, pombagiras, dentre outros guias espirituais.

Enfim, argumentei aqui quanto à questão de que se a mediunidade – que estou entendendo aqui como a porção conata da iniciação religiosa – não pode ser “inventada”, o seu exercício precisa ser aprendido. Sendo que, a partir dos sentidos atribuídos pelos umbandistas, aprendizagem passa a significar aqui o produto da lapidação de pedras preciosas, da eclosão de um ovo após ter sido cuidadosamente chocado, ou ainda do cultivo de uma sementinha que faz “aflorar a flor”. Assim, a ambigüidade entre dom e iniciação, entre inato e adquirido se dilui quando “levamos efetivamente a sério o que seus praticantes não só fazem como dizem e pensam” (Goldman, 2005).

É verdade que no dia-a-dia do terreiro parece importar mais o saber fazer e não tanto como se chegou a saber. E, conseqüentemente, esta característica da cotidianidade

32 Se pensarmos de acordo com a lógica da dádiva (Mauss, 1974), aquilo que é recebido (que lhe foi

dado) deve ser compartilhado para reforçar a circulação (dar e receber) dos dons.

33 Como será melhor abordado no Capítulo III deste volume, todas as entidades que “baixam” nos

terreiros de umbanda são eguns, já que são espíritos desencarnados. Mas os guias espirituais como preto- velho, caboclo, boiadeiro, dentre outros, não são chamados como tais. De modo geral, a palavra egun é destinada a denominar aqueles espíritos “atrasados”, que não foram doutrinados por nenhuma religião e que, por isso, segundo Dona M., “vagam pelo mundo carregando desordem com sua energia diferente” dos demais.

45 dos terreiros torna “natural” aos olhos exteriores o que é, na verdade, o resultado de peculiares processos de “lapidação”, “eclosão” e “cultivo”. É, portanto, a naturalização exterior de uma prática religiosa tão complexa que torna invisíveis vários aspectos que compõem e os modos de aprender (na) umbanda.

Procurando escapar de visões naturalizadoras do vir a ser umbandista, investi nas abordagens teóricas aqui apresentadas que me ajudam a evidenciar os elementos constitutivos da prática que possibilita a produção de umbandistas. Esta investigação inscreve-se, pois, nessa perspectiva. Busca contribuir para a compreensão da aprendizagem como historicamente constituída e como processo que envolve/entrelaça corpo e cultura, dom e aprendizagem, inato e adquirido.

A adoção das perspectivas analíticas propostas por Lave e Wenger e por Ingold possibilitou tratar da dimensão social da aprendizagem e do tipo de interação que levam as pessoas a aprender. Pensar em termos de aprendizagem situada levou-me a questionar quais são e como se dão as relações sociais que constituem o terreiro de umbanda aqui focalizado, seus diálogos e tensões, e problematizar a onipresença das relações mestre/aprendiz como traço característico da aprendizagem. Já o conceito de

habilidade enfatiza que o conhecimento e o processo de se tornar um praticante habilidoso não podem ser compreendidos somente por aquilo que se revela enquanto

uma ação individual, mas também como uma “obra humana coletiva”.

Com base nestes aportes teóricos, abordo a aprendizagem na e da umbanda, com seus significados, disposições corporais, tipos de atenção, emoções e conhecimentos que caracterizam a prática, como um processo histórica e socialmente construído, e que longe de ser “meramente espontâneo” possui uma estrutura organizacional que desconhecemos. Ou seja, dada a natureza da umbanda — um saber que é comumente percebido a partir do viés da fé e da ideologia do dom, e que por isso costuma ser pensada mais como um saber-ação ou saber-fazer, do que um tipo de conhecimento racionalizado —, neste trabalho procuro dar relevância ao conjunto de elementos que possibilitam compreender o “torna-se umbandista” como um processo de aprendizagem que possui recursos e lógicas próprios.

Este modo de “ler” os processos de produção de umbandistas se tornará mais claro agora que passarei a tratar das contribuições que abordagens teóricas trouxeram para minha pesquisa.

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2.2 - Compreendendo a aprendizagem como constitutiva da