Considerar critérios para a construção desta prosopografia não foi fácil e será sempre objecto de análise crítica. Porquê estes e não outros contemporâneos de Adriano Moreira? O principal critério usado nesta escolha foi o de seleccionar figuras também elas ligadas à polí- tica ultramarina. Pretendemos, desta forma, apontar caminhos diferentes num tempo comum a vários vultos intelectuais e políticos. Por outro lado, entendemos que a confrontação entre ideias diferentes para a mesma realidade, a da manutenção das Províncias Ultramarinas, seria clarificadora das opções de Adriano Moreira no campo político e, com especial enfoque, no que respeita à política Ultramarina.
À geração de Adriano Alves Moreira, nascido na década de 1920 (1922), pertence um leque de intelectuais e políticos de renome e de consagração maior. Trata-se de um grupo de individualidades que, nos diferentes planos do saber e da acção, marcaram o seu tempo, dei- xando para a posteridade traços indeléveis. Tal é a vastidão destas personalidades que se torna difícil selecionar algumas delas. Não queremos ser injustos, mas temos plena consciência da incapacidade de elaborar uma selecção abrangente e elucidativa do tempo de Adriano Moreira. Optamos, aceitando desde já as críticas, por apresentar o percurso de algumas dessas indivi- dualidades. Trata-se, justamente, de um vasto grupo de individualidades que, de uma ou outra forma, nas mais variadas vertentes da acção humana, influenciam o seu tempo, alguns na justa medida em que intervieram no decurso das coisas e das questões acerca delas. Adriano Moreira refere isto mesmo quando afirma o seguinte: “A nossa geração do Liceu teve o primeiro desafio para se preocupar com o mundo, com a Guerra Civil Espanhola (…)”.81
81 Adriano Moreira na Academia das Ciências de Lisboa, por ocasião do lançamento do livro Nove ensaios
Adriano Moreira sobressai tanto no campo ideológico e de defesa de valores humanistas, como no campo político, nomeadamente naquele que, de perto, se entrelaçou com as questões coloniais. Foi justamente neste campo que a sua acção deixou as maiores marcas. Interveio enquanto intelectual e político. Nesta última vertente, em particular, na qualidade de Minis- tro do Ultramar. As reformas administrativas, educacionais e mesmo orgânicas dos territórios ultramarinos expuseram-no ao universo da crítica interna e externa. Neste campo, a nossa pre- ocupação é encontrar alguns pontos de contacto ou de afastamento com personalidades suas contemporâneas que apresentem percursos diferenciados.
Passamos, agora, à análise que nos propomos realizar. Iniciemos esta reflexão, come- çando com um dos grandes vultos intelectuais do século XX em Portugal, António José Saraiva. Nasceu em Leiria, a 31 de Dezembro de 1917, tendo falecido em Lisboa, em 199382. Marcou o seu tempo em particular na esfera intelectual, sendo, ainda hoje, um importante ponto de referência no campo da História da Cultura Portuguesa, em particular da esfera literária. Para além das muitas publicações, aquela que mais terá marcado as gerações que ensinou na Univer- sidade foi História da Literatura Portuguesa, que elaborou em conjunto com Óscar Lopes. Em 1942, era já Doutor em Filologia Românica.
António Saraiva optou, desde cedo, por ter, a par com a vida académica e intelectual, uma atitude cívica e política activa. De facto, as duas vertentes da vida interligam-se quando se trata de indivíduos conscientes da plenitude das potencialidades e das obrigações do ser humano. Como desde cedo se mostrou opositor ao pensamento e política de Salazar, tendo apoiado assumidamente a candidatura oposicionista de Norton de Matos para a Presidência da República em 1949, acabaria por sofrer represálias que o atingiram até no aspecto laboral. Acabou por ser impedido de ensinar no país. Ideologicamente, alinhou o seu pensamento pela via esquerdista, chegando mesmo a filiar-se no Partido Comunista Português, de onde haveria de sair algum tempo depois. O seu percurso de homem crítico haveria de conduzi-lo ao exílio em França, logo em 1960, e depois na Holanda. Neste último país, tornou-se professor univer- sitário. O seu regresso a Portugal só se dá após a revolução de 25 de Abril de 1974. A partir daí, ingressa na Universidade como Professor Catedrático. Trata-se, assim, de uma personalidade com um percurso diferenciado do de Adriano Moreira, já que assentava em bases ideológicas diametralmente opostas.
Importa estabelecer algumas correlações com outros contemporâneos de António José Saraiva e comparar percursos. Desde logo nos vem à mente a figura de seu irmão, José Her- mano Saraiva, formado em Direito e em História e franco colaborador do regime ditatorial de Salazar. Foi mesmo titular de alguns cargos governativos: deputado, procurador à Câmara Corporativa e Ministro da Educação, entre 1968 e 1970. Neste aspecto, os destinos de José Hermano Saraiva distanciaram-se dos de seu irmão, mas aproximaram-se dos de Adriano Mo- reira, no ponto em que ambos foram homens do regime e ambos transitaram para a democra-
iict.pt/archive/doc/adrianoMoreira-ACL-9Ensaios.pdf. Consultado em 15 de Março de 2014.
82 SARAIVA, António José, (Leiria, 1917 – Lisboa, 1993). In BARRETO, António Barreto e MÓNICA, Maria
Filomena; DICIONÁRIO DE HISTÓRIA DE PORTUGAL, (coord.), suplemento 9, Edição de Livraria Figueirinhas, 1ª edição, Lisboa, 2000,pp. 402 e 403.
cia com alguma facilidade e aceitação.
Tratando-se, pois, de dois homens ministros da ditadura, as animosidades foram uma constante. Isto mesmo refere José Hermano Saraiva, quando lhe é perguntado da seguinte forma:
“E assim chega a ministro da Educação. Mas antes de ser ministro fora reitor do Liceu D. João de Castro e antes ainda tinha estado no ICSPU, na Junqueira. Foi uma década muito marcada pelo ensino…
Foi. Gostei muito de estar no ISCSPU. Mas arranjou um inimigo para a vida.
Arranjei um inimigo, sem razão nenhuma. Nenhuma! O prof. Adriano Moreira, que era o director, sabia que eu era um dos predilectos do Dr. Salazar, porque o Dr. Salazar me deu muitas palavras de consideração. Por exemplo, na sessão comemorativa dos 40 anos do regime, como disse atrás, eu é que fiz o discurso na Câmara Corporativa. E ao sair com o Supico, o Salazar disse-lhe: “pode dizer ao Saraiva que eu na minha vida nunca tive inveja de ser um grande orador. Mas hoje tive”. Foi este discurso que eu depois tive de repetir de madrugada. (…). O prof. Adriano Moreira estava furioso e começou a fazer-me umas patifariazinhas. Daquelas escolares: “Olhe você não pode dar esta cadeira tem de dar aquela”. Eu preparava aquilo, levava lá o esquema e ele dizia; Mas esta cadeira não é sua”. Mas foi você que me disse… . “Eu não disse nada”. Fez-me isto quatro vezes”.83
Interessa-nos, pois, tecer alguns comentários ao relacionamento que estes dois homens do regime desenvolveram entre si e que, de forma clara, ilustra bem aquele que era o clima de concorrência entre os homens do poder e que rodeavam o ditador. Percebe-se, se levarmos em conta as palavras de José Hermano Saraiva, que a competição entre este e Adriano Moreira era grande. O desaguisado entre ambos era igual ou semelhante a outros que tentaremos trazer à luz neste trabalho. Percebe-se o quanto se manobrava em torno do velho ditador no sentido de disputar lugares e, certamente, tentando ser o delfim que lhe iria suceder. Deste epíteto gozou, nomeadamente, Adriano Moreira, o que ao tempo não agradaria a outros seus concorrentes. As manobras de bastidores na política são sempre mais importantes que aquelas que são públicas. Os jogos políticos fazem-se mais nos gabinetes do que nas plateias.
O desentendimento entre os dois duraria para o resto da vida de ambos. Isto mesmo ficou decidido na conversa que ambos terão levado a cabo ainda no tempo do ISCSPU e que passamos a transcrever nas palavras de Hermano Saraiva:
“[…] Dei a cadeira mas fui ter com ele e disse-lhe: “O que vale mais, um amigo ou um em- prego?”. Ele não percebeu. Respondeu: “Depende do emprego e do amigo”. “O amigo é você, de tantos anos, o emprego é isto. Portanto, venho entregar-lhe o emprego para conservar o amigo”.
83 Entrevista de José Hermano Saraiva, (1ª parte) [em linha]. Sol. Lisboa, 20 de Julho de 2012. Disponível
Estendi-lhe a mão e fui-me embora. Nunca mais nos falámos”.84
Na verdade, nem sempre as relações de poder são compatíveis com as amizades. Por ve- zes, as primeiras sobrepõem-se às segundas, o que, a avaliar pela entrevista de José Hermano Saraiva, a que recorremos, terá sido o caso. Por outro lado, embora ambos tenham sido minis- tros do Estado Novo, na verdade, os percursos foram visivelmente diferentes. José Hermano Saraiva sempre se assumiu como salazarista convicto e defensor dos princípios em que o Estado Novo assentava. Por seu turno, Adriano Moreira soube adaptar-se aos tempos, ainda que, indu- bitavelmente, se manifestasse conservador, mas pouco situacionista.
Um outro intelectual contemporâneo de Adriano Moreira, justamente da mesma idade e, ao tempo em que escrevemos as presentes palavras, ainda vivo, é Eduardo Lourenço. Intelec- tual de renome, originário de uma aldeia pobre e isolada da Beira Alta, faz lembrar as origens de Adriano Moreira – ambos saíram do Portugal profundo. Há entre estes dois homens forte divergência ideológica que, parece-nos, sempre foi clara. Ainda na Universidade em Coimbra, Eduardo Lourenço mostrou algum desencanto com o rumo da política do Estado Novo. Quis o destino que, após um estágio na Universidade de Bordéus, em 1949, se lhe abrissem as portas em várias universidades, o que lhe permitiu radicar-se em França, de onde regressou, em 1988, como professor jubilado.
Após uma breve procura acerca de algumas referências biográficas de Eduardo Lourenço, queremos, agora, identificar os principais traços politico-ideológicos deste intelectual. Homem de esquerda, nunca escondeu as suas mais incisivas críticas ao modelo governativo do Estado Novo português e também não poupou críticas à política colonial seguida pelo governo do seu país. Desde cedo comprometido com os ideais democráticos, Eduardo Lourenço apoiou, de forma assumida, a via do socialismo democrático. Esta ideia é veiculada por Miguel Real em Eduardo Lourenço e o conceito de “colonialismo orgânico”:
“Desde ‘Europa ou o Diálogo que nos falta’, de Heterodoxia I, publicado em 1949, que a opção política de Eduardo Lourenço é indubitavelmente pelo sistema democrático. Em 1958, no texto analítico referente às Forças Armadas portuguesas, de novo revigora a pulsão democrática de Eduardo Lourenço, repetida no texto ‘A nova República deve nascer adulta’ publicado em 1959 no jornal paulista Portugal Democrático, onde o autor apela para a construção de uma democracia europeia em Portugal”.85
De igual modo, conhecemos a posição do pensador relativamente às questões coloniais. Considera, assim, a necessidade de resolver a questão de forma negociada e em conformidade com a Carta das Nações. A este propósito, escreve Miguel Real:
84 Ib., Ibid.
85 REAL, Miguel - Eduardo Lourenço e o conceito de “colonialismo orgânico” [em linha]. Sintra, 2008.
Disponível em http://www.eduardolourenco.com/6_oradores/oradores_PDF/Miguel_Real.pdf. Consultado em 08 de Setembro de 2014.
“Em 1960, […] interpretando a viagem a Portugal do Presidente do Brasil, Juscelino Kubits- chek no artigo ‘Brasil – caução do colonialismo’, publicado no jornal oposicionista português de São Paulo, Portugal Livre, Eduardo Lourenço considera que, no interior do ‘irrealismo prodígios’ desenvolvido pela ‘mitologia’ heróica e patrioteira portuguesa do Estado Novo, Portugal ‘não é acidental mas essencialmente colonialista, único no mundo […] tragicamente conforme a essa vocação…’”.86
Pelo que se apresenta, apesar de contemporâneos, Adriano Moreira e Eduardo Lourenço terão percorrido caminhos ideológico-políticos bem diversos. Adriano Moreira sistematicamen- te colocado ao lado do regime, de acordo com ideais que defendia. Já Eduardo Lourenço, ape- sar de origens em tudo semelhantes a Adriano Moreira, envereda pela oposição democrática de esquerda a uma ditadura que perturbava os espíritos mais esclarecidos, em particular, após a Segunda Guerra Mundial.
O anti-colonialismo torna-se cada vez mais evidente na obra de Eduardo Lourenço. Isto mesmo escreve Miguel Real em Democracia e Anti-colonialismo em Eduardo Lourenço: 1959- 1963:
“O texto ‘O Exército ou a Cortina da Ordem’, de 1958, constitui o primeiro ensaio escrito de Eduardo Lourenço da sua directa e frontal oposição ao regime político do Estado Novo. Porém, devido à sua tardia publicação, integrado no livro Os Militares e o Poder (1975), o empenhamento político de Eduardo Lourenço a favor de um futuro regime democrático em Portugal, na passagem entre as décadas de 50 e 60, como que teria ficado ocultado se não tivessem sido publicados, em 1959 e 1960, nos jornais Portugal Democrático e Portugal Livre, ambos de S. Paulo, no Brasil, dois artigos de carácter político, que a constituem, estes sim, como a mais directa intervenção pública de Eduardo Lourenço contra o regime de Oliveira Salazar na passagem entre as décadas de 50 e 60”.87
Eduardo Lourenço tinha plena consciência de que dificilmente o regime ditatorial portu- guês consentiria alterações no Império, mesmo sofrendo as crescentes pressões internacionais. Havia, pois, que lutar por um Portugal moderno, europeu e, nesta justa medida, democrático. Nestes propósitos, distinguiu-se Eduardo Lourenço do pensamento de Adriano Moreira, o que lhe valeu um percurso mais combativo ligado a uma mudança de paradigma governativo alterá- vel apenas com a revolução de Abril de 1974.
Eduardo Lourenço manifestava, por diversas vezes, e através de distintos meios as suas convicções políticas anti-salazarismo. Fê-lo, com igual vigor, em relação à questão colonial, desmistificando a questão do “Modelo Brasileiro”. O pensador entende que, com grande fre- quência, o Estado Novo se serviu do mito do sucesso da miscigenação brasileira para explicar a
86 Ib., Ibid.
87 Miguel Real [em linha], disponível em www: http://recil.grupolusofona.pt/bitstram/handle/10437/2382/
bondade das opções colonialistas em África, nomeadamente. Critica profundamente a visita do Presidente brasileiro kubitschek a Portugal em 1960, vendo nela uma promoção do colonialismo salazarista, sendo que a mesma coincide com as «Comemorações Henriquinas». Tratou-se, na opinião do autor, da promoção da missão histórica da colonização lusa, e, simultaneamente da apresentação do modelo brasileiro defendido pelo luso-tropicalismo. Numa carta dirigida aos amigos Miguel Urbano Rodrigues e Victor Cunha Rego, intitulada “Brasil – caução do colonialis- mo português”, o autor escreve:
“[…] Qual seja a figura que o Brasil do presidente Kubitschek assumiu vindo receber em Lisboa, em 1960, de mãos dadas com Salazar, os convidados às «Comemorações Henriquinas», é claro como água: é a de caução do Colonialismo. E isto é mil vezes mais grave e imperdoável do que a falta moral e política de injectar através da mesma presença mais um balão de oxigénio a uma hipócrita política totalitária. […] O Brasil era a última das Nações a poder participar sem se renegar na sua essência, no insultante e louco festival de colonialismo que são as «Comemorações Henriquinas». Mas por isso mesmo era a única que não podia faltar sem que as «Comemorações» perdessem todo o sentido para que foram orquestradas. Toda a vitória de Salazar é resumida pela ingénua confissão dos seus escribas religando a celebração à presença do presidente do Brasil”88.
A oposição de Eduardo Lourenço à justificação lusotropicalista que o Estado português assume e às manifestações imperialistas que o mesmo Estado leva a terreiro chocam de forma clara com a posição de Adriano Moreira em relação ao mesmo assunto. Este encontra-se colado à posição oficial do regime que aceita, divulga e até cauciona89.
Na obra já citada e na referida carta dirigida a Miguel Urbano Rodrigues e a Victor Cunha Rego, Eduardo Lourenço expressa ainda mais a sua repugnância pelo espírito colonialista do regime político português. Escreve:
“ Meus caros amigos, é isto que importa frisar e já nada tem com a visita de Kubitschek: a hipocrisia sem nome do nosso colonialismo na qual todos participamos, a tal ponto que uma gaffe como a de Kubitschek é por assim dizer sustentada, sem que isso o desculpe, pela generalidade dos portugueses. […] Quando se pensa que o Portugal Livre é um jornal confessadamente antico- lonialista, pode fazer-se ideia da alienação profunda da nossa consciência de portugueses, mesmo
88 LOURENÇO, Eduardo - Do Brasil Fascínio e Miragem, Organização e prefácio de Maria de Lourdes Soa-
res. Gradiva, 1.ª edição, Lisboa, 2015, pp. 116 e 117.
89 O texto referenciado pode ser considerado a primeira publicação de Eduardo Lourenço assinada com o
seu nome em que se posiciona frontalmente em oposição ao regime salazarista, uma vez que O Exército ou a cortina da ordem, escrito em 1958 ou 1959, só seria publicado em Os Militares e o Poder (1975) e A Nova República deve nascer adulta foi publicado sob pseudónimo no Portugal Democrático (1959). Id.,
Ibid., p. 109.
KUBITSCHEK, de Oliveira (Jucelino) – Presidente da República do Brasil (n. Diamantina, Minas Gerais, 1902). Descendente de checos por via materna. Formou-se em Medicina, em Minas Gerais (1927) e estagiou em Paris, Viena e Berlim. […] Presidente da República do Brasil (1956-1961). […] Visitou oficialmente Portugal de 6 a 8.11.1960, tendo sido feito (8.8.1960) doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra. Retirado de Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, 11.º volume (Iroqueses-Libânio), Verbo, s/d., p.1214.
os mais corajosos, lúcidos e democráticos. A maior miséria do colonialismo é que ele coloniza os colonizadores”90.
Torna-se efectiva a oposição ideológica e pragmática entre Eduardo Lourenço e Adriano Moreira. Igualmente contemporâneo de Adriano Moreira, se bem que mais velho, foi um dos maiores vultos da Igreja portuguesa do século XX: D. António Ferreira Gomes (1906-1989), bis- po do Porto. Trata-se de um homem cuja formação se encontra profundamente ancorada na doutrina social da Igreja e nos escritos de eminentes pensadores, como o Papa Leão XIII, autor da Encíclica Rerum Novarum91. Este homem da Igreja é, igualmente, um homem político, na
medida em que procura alcançar a verdade e a justiça social através da ética e da moral. O pensamento dos filósofos Karl Marx, Nietzche e mesmo do psicanalista Freud foram objecto de estudo e debate nos trabalhos de D. António Ferreira Gomes. Em diálogo com as doutrinas sociais e políticas em voga no seu tempo, tentou organizar um pensamento coerente, de acordo com os ditames do Concílio Vaticano II. Tratou-se, justamente, de adaptar a praxis da Igreja Católica às realidades mais terrenas e sociais com que o mundo se ia debatendo, ao fim de duas guerras mundiais num só século. Certo de que o seu caminho era a defesa dos mais pobres, D. António Ferreira Gomes revela, desde muito cedo, a oposição ao regime de António de Oliveira Salazar. Ancorado em princípios filosóficos como os que se prendem com o direito natural dos povos à autodeterminação e, em simultâneo, na doutrina da Cúria Romana depois do Concílio Vaticano II, ainda que a base das suas ideias seja anterior à magna reunião da Igreja católica, o bispo do Porto mostra a sua indignação face ao poder vigente. Fá-lo de forma ve- emente, chegando mesmo a escrever a Salazar, criticando o acto eleitoral desencadeado em 1958 e a “derrota” de Humberto Delgado. A sua atitude viria a valer-lhe o exílio. Sem dúvida, foi um reformista face às questões ultramarinas, mas pouco alinhado com as soluções propostas pelos sucessivos ministros do Ultramar, incluindo as de Adriano Moreira. Quanto à têmpera da personalidade de D. António Ferreira Gomes, a mesma espelha-se nas seguintes frases por ele criadas: “De joelhos diante de Deus, de pé diante dos homens” e “Fostes resgatados por grande preço, não queirais tornar-vos servos dos homens”.92”
A alternativa extremamente crítica assumida por Dom António Ferreira Gomes face a uma ditadura que perdurava para lá do razoável e do admissível influenciou decisivamente a posição de muitos católicos em Portugal. Quando um alto dignatário da Igreja rompe com a tra- dicional aliança entre Estado e Igreja, dá um sinal claro da obrigação que cada cristão tem na tomada de posições face ao poder e à sociedade. Foi isso que aconteceu. A opção do bispo do