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Foi bastante conhecida na antiguidade certa controvérsia que se teria desenvolvido por meio de algumas cartas trocadas entre Cícero e os jovens Calvo e Bruto acerca do gênero oratório, sobre as quais restam dois célebres testemunhos, o de Quintiliano e o de Tácito.110

Grande parte dos estudiosos usa o termo estilo para se referir àquilo que Cícero caracteriza como genus dicendi ou genus orationis. Desse modo, essa controvérsia se torna uma “polêmica de estilo”, e seus partidários fariam parte de um “movimento”. Nessa polêmica, haveria os defensores do gênero “ático” (Calvo, por exemplo), que se contrapunham a Cícero, considerado “representante” de um gênero oratório degenerado, denominado “asiático”. Entre as obras supérstites que testemunham essa polêmica está o Brutus.

Com efeito, é no Brutus que encontramos uma das poucas caracterizações do que seria o genus orationis Asiaticum (325). No diálogo, Cícero afirma que a eloquência nasceu e se desenvolveu (et nata et alta 39) na Ática e se degenerou peregrinando pela

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Ásia (peregrinata tota Asia), reafirmando certa valorização do “ático” em detrimento do “asiático”.111

Mas, afinal, o que é o “aticismo”? Ou melhor, o que defendem os que pretendem ser “aticos”?

A controvérsia entre Cícero e os “aticistas” também gera uma controvérsia entre os estudiosos. No entanto, malgrado as divergências, a interpretação mais comumente aceita é que o que se conhece como “aticismo” na oratória foi um fenômeno peculiar da cultura romana do século I a. C.112 No contexto romano, podemos dizer que o “aticismo” surge

como contraposição ao gênero oratório de Hortênsio e de Cícero113 e que os “aticistas”,

em linhas gerais, se é que assim podem ser chamados, preconizavam a pureza na dicção e a pronúncia urbana e arcaizante (Latinitas, Romanitas, urbanitas, antiquitas), bem como os princípios da analogia em gramática e um genus dicendi, ou genus orationis, tenue, exile, subtile.114

Não se trata, evidentemente, de um “movimento”, mas sim de

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Brutus 51: [De fato, assim que a eloquência foi exportada do Pireu, viajou por todas as ilhas e de tal forma percorreu toda Ásia que se contaminou de hábitos estrangeiros e perdeu toda aquela salubridade e, por assim dizer, sanidade da dicção ática, quase desaprendendo a falar. Foi então que surgiram os oradores asiáticos, não desprezíveis pela fluência nem pela copiosidade, é certo, mas pouco sóbrios e demasiado redundantes; os da ilha de Rodes são mais sóbrios e mais semelhantes aos áticos.] nam ut semel e Piraeo eloquentia evecta est, omnis peragravit insulas atque ita peregrinata tota Asia est, ut se externis oblineret moribus omnemque illam salubritatem Atticae dictionis et quasi sanitatem perderet ac loqui paene dedisceret. hinc Asiatici oratores non contemnendi quidem nec celeritate nec copia, sed parum pressi et nimis redundantes; Rhodii saniores et Atticorum similiores.

112Hendrickson(1926, p. 236): “Roman Atticism was no abrupt or sudden development, though the

name itself, Attici, genus Atticum, etc., seems only to have come into vogue about the middle of the first century B. C., and among Romans at all events was apparently first employed by Calvus in application to himself, through whom it gained currency as the designation of a larger miscellaneous group.”; Kennedy (1962, p. 242): “thus it seems best to regard Atticism as something developed in Rome in the period around 50 B. C.”; Douglas (1966, p. xiii): “it suggests also that the Atticism developed after 54, when De oratore was published, since that work contains no indisputable allusion to the controversy, and perhaps mainly during Cicero’s absences from Rome from on 51 onwards, and that it disappeared as an active movement as suddenly as it had emerged”; Narducci, (1997, p. 125): “un fenomeno peculiare della cultura romana, una moda forse poco più che effimera, sviluppatasi nel deccenio succesivo alla pubblicazione de de oratore (54 a. C.)”; Stroh (2010, p. 219): “Notons déjà que ce n’est qu’à partir de la fin des années – 50 qu’il devint habituel à Rome de désigner un certain style oratoire dégénéré par le vocable ‘asiatique’, les tenants de ce style étant des Asiani ou des Asiatici, qu’on opposait aux nobles Attici.”

113Hendrickson(1926, pp. 237-8): “From various sources therefore and for different reasons we find

Brutus and Calvus, and a considerable group of other orators and public men at Rome (Caesar, Calidius, Cornificius, and a little later Messalla and Asinius) united in opposition to the ideals and style of oratory which Hortensius and Cicero had brought to a kind of classical perfection.”

114Hendrickson(1926, pp. 236-7): “Atticism in its origins was less a matter of style than of diction.

It was purism, a refinement of the earlier cult of Hellenism (῾Ελληνισμ´ος), and so exactly parallel to Latinitas. [...] This cult of purism, of faultless Latinity, was intimately associated with the theoretical study of grammar, and throve at Rome under the rivalries of analogists and anomalists.” Narducci (1997, p. 125): “oltre alla consolidata tradizione di un’eloquenza di stile piano e conciso, l’attenzione

uma, ou mais de uma, concepção oratória que valorizava uns e/ou outros desses preceitos, partilhada por alguns que, por essa razão, seriam considerados “aticistas”. Sobre esses que são considerados ou autodenominados “aticistas”, podemos afirmar que na oratória o principal rival deles é o gênero copioso e exuberante de Hortênsio e Cícero.

A defesa de Cícero diante das acusações dos “aticistas” é um dos propósitos da escrita do Brutus e do Orator.115 No Brutus, ao fazer sua autobiografia, Cícero expõe e justifica

sua concepção oratória. Ao apresentar uma história da oratória, Cícero contrapõe dois gêneros de eloquência “rivais”, que ecoariam a polêmica com os chamados “aticistas”.116