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Conforme Marchesi (2008), ao atingirem sua maturidade profissional, muitos professores veem-se despidos das ilusões e expectativas a respeito da sua prática. Não raras vezes passam a avaliar as consequências pessoais do seu afinco e dedicação ao trabalho, concluindo, em muitos casos, que o esforço foi maior que a recompensa, e que nem os alunos, nem as famílias, tão pouco a administração, valorizaram seus anos de magistério. Independentemente do período de experiência profissional, a insatisfação em relação ao trabalho docente pode ser atribuída a vários fatores, contudo, cabe ressaltarmos um dado importante. Para o autor (p. 21-22), 80% dos professores consideram que nem a sociedade nem os responsáveis educacionais os valorizam, dizendo que:

Uma porcentagem notável de professores dá muito pouco valor ao seu trabalho e não se sente satisfeita pela atividade que desempenha, apesar de afirmar nas pesquisas que não trocaria de profissão. A desmoralização de um grupo significativo de docentes expressa igualmente a sua falta de confiança na tarefa de ensinar e a perda de sentido da ação educadora. Uma desmoralização que tem suas bases na repetida mensagem de os professores não disporem de formação suficiente para enfrentar as dificuldades do ensino, na queixa contínua de determinados setores da sociedade e da comunidade educacional sobre o funcionamento do ensino, na falta de exigência e de estímulos profissionais, na manutenção de uma organização e distribuição do tempo de docência ancorados em épocas passadas, no esquecimento da importância de repensar-se, uma e outra vez, o sentido da atividade docente. As urgências e exigências acumuladas durante anos levam muitos professores a

perderem de vista as razões do seu trabalho e esquecerem o necessário compromisso com os alunos que envolve a atividade docente. Normalmente esses alunos são aqueles cujos comportamentos e atitudes os professores consideram desviantes e, inclusive, incompatíveis com os objetivos que o próprio sistema educacional estabelece.

O impacto causado pelas circunstâncias em que as práticas diárias da escola se apresentam aos nossos estagiários é muito forte, causando uma série de controvérsias a respeito do que projetaram para a sua atuação como professores, diante daquilo que veem e ouvem dos futuros colegas de profissão. Iniciar a carreira docente enfrentado o descrédito do próprio grupo em relação ao seu trabalho, o desânimo, a resignação, e o desrespeito, são fatores significativos que levam ao desenvolvimento do mal-estar sentido pelos profissionais em formação ou início de carreira.

Fico decepcionado quando vejo alguns professores já formados dizerem que os planejamentos e propostas pedagógicas são tudo balelas, e que na verdade quando o professor já está formado e atuando em muitas turmas, não há como se proceder desta forma, o que se faz é um planejamento feito através da cópia do livro didático, e que ficará intacto por toda a carreira do professor. Também afirmam que não vale a pena se dedicar mais, visto que os salários são baixos e os alunos são mal educados e desinteressados. (RELATÓRIO 25, p. 24).

Percebeu-se ser necessário um bom planejamento, apesar da constatação de que os profissionais que estão atuando a mais tempo na sala de aula pensam não ser necessário fazer o planejamento das aulas, não havendo por parte dos profissionais a percepção de que é preciso considerar que de um ano para o outro alguns objetivos precisam ser redefinidos levando-se em consideração as mudanças que estão ocorrendo no mundo e com a própria população escolar. (RELATÓRIO 66, p. 20).

Em muitos casos, a representação feita a respeito dos professores que toma visibilidade entre os iniciantes na carreira docente é a do profissional desmotivado, que sofre dos sintomas de um sistema que o oprime, devido ao sem número de problemas enfrentados no seu ambiente de trabalho. Em algumas situações, são descritos professores que não tem a devida seriedade em suas práticas, tão pouco o comprometimento para com os educandos, desrespeitando a todos que a ele confiam a tarefa de educar. A relação feita professor/funcionário público é outra forma de representação dos professores, sendo então atribuída à estabilidade no emprego, a inércia e o descaso, que muitas vezes se verificam em situações do cotidiano escolar.

Para os acadêmicos que vão à escola em situação de estágio, cria-se um paradoxo entre aquilo que se idealiza em relação à profissão e aquilo que se vê nos futuros colegas de trabalho. Temem em reproduzir os mesmos vícios observados, já no início da carreira

“desrespeito a educação”, faltando com todos os compromissos assumidos quando da escolha

e preparação para serem professores. Se por um lado são desrespeitados, por outro os próprios professores desrespeitam-se, ao negarem para si, e para os estudantes, a plenitude da prática educativa e todo o seu potencial transformador.

Pude perceber também a dificuldade de inserir novos pensamentos e quebrar paradigmas existentes no sistema educacional, pois pude observar vários profissionais que como em toda profissão, estão somente esperando o tempo passar, tomando cafezinho na sala dos professores. (RELATÓRIO 26, p. 18). Escolas públicas sem a mínima estrutura e falta de professores, remuneração péssima. Profissionais não comprometidos com o educando, crianças totalmente desmotivadas sem nenhuma expectativa de futuro (...) (RELATÓRIO 73, p. 20). Durante as observações da prática me chamou a atenção o desrespeito com relação a educação, tanto por parte do estado, como por um grande número de profissionais. A sala dos professores parece ser um lugar para falar mal dos alunos, criticar seu comportamento. (RELATÓRIO 65, p. 23).

Sabe-se que o ensino público no Brasil, como a maioria dos órgãos públicos, não funciona como deveriam, ou seja, com seriedade e comprometimento por parte de seus profissionais. (RELATÓRIO 95, p. 19).

A direção está mais preocupada com a tranqüilidade, o domínio de classe, as notas, do que com o aprendizado. Muitos professores lá estão para não perder a

“boquinha”. Isto é, o salário no final do mês, uma vez que são funcionários do

governo do estado. (RELATÓRIO 37, p. 25).

Esse primeiro contato com a prática docente mostrou-se muito produtivo para nós, pois podemos visualizar alguns problemas que já eram sabidos e outros que surgiram como novos para nós, como por exemplo, professores acomodados com a situação perante o ensino. (RELATÓRIO 5, p. 17).

Mas o que podemos verificar na prática é que há uma tentativa por parte de alguns

professores de por em sala de aula tais teorias (PCN’s, Paulo Freire, Piaget)

estudadas na universidade ou nos cursos de capacitação oferecidos pela escola. Porém, esses professores enfrentam algumas dificuldades, como por exemplo, o não hábito do educando, ou seja, os alunos estão acostumados a receber todos os conhecimentos prontos e de forma tradicional, o que acaba gerando um choque de métodos. Entretanto, há também alguns professores que demonstram total desconhecimento sobre qualquer teoria de ensino e aprendizagem. Algumas vezes citam um ou outro autor, mas na prática da sala de aula não o introduzem. (RELATÓRIO 8, p. 24).

[...] não há limites para a construção de conhecimentos na sala de aula, mas sim, resistência no que se refere a aplicação de propostas pedagógicas no ensino de história. (RELATÓRIO 19, p. 16).

Esteve (1999), adverte que a inibição e o absentismo aparecem, entre os professores, como reações frequentes diante da tensão derivada do trabalho docente. Tais práticas, normalmente motivadas por circunstâncias relacionadas ao stress experimentado diariamente pelos profissionais da educação, acarretariam em uma despersonalização do magistério, tornando a relação com os alunos mais superficiais, reduzidas ao âmbito dos conteúdos. Entre os fatores relacionados à diminuição da satisfação em relação ao trabalho, e consequentemente a diluição do compromisso com a formação integral dos estudantes, podemos destacar a falta de relacionamento com os colegas de profissão e as dificuldades

encontradas já nos primeiros anos da carreira docente. Diz o autor (1999, p. 69), que professores mais experientes evitam situações de tensão e zonas conflitivas, atribuindo aos novatos o encargo das tarefas mais difíceis e, portanto:

[...] os professores iniciantes, com mais insegurança e menos experiência, tenham que começar sua carreira profissional nos postos mais difíceis, onde se oferecem menos oportunidades de êxito, nas piores condições de trabalho. Habitualmente nos horários em que ninguém quer e com aulas de menos condições, já que os veteranos escolhem primeiro.

Nos relatos em destaque, observa-se que a representação feita pelos estagiários a respeito dos seus futuros colegas de profissão é a do profissional que não se atualiza e que desconhece ou não se interessa pelo conhecimento pedagógico. Em muitos casos este profissional limita-se a repassar informações aos estudantes, deixando de promover um ensino de qualidade que motive a todos, e faça da escola um local pleno para o aprendizado e o desenvolvimento do conhecimento. Em muitos casos, o que se descreve são pessoas desmotivadas, professores cansados e insatisfeitos com o seu trabalho, vencidos pelo desrespeito ao seu ofício e pelo desinteresse dos estudantes.

[...] mesmo que ainda tenham profissionais comprometidos com a qualidade do ensino, existe o descaso. [...] muitos professores se sentem cansados e frustrados, por vários motivos, principalmente salários baixos, até mesmo os próprios alunos não sentem motivação para o ensino. (RELATÓRIO 33, p. 17).

Pude perceber a fragilidade do sistema educacional, o descaso e a insatisfação geral dos educadores quanto ao seu ofício. [...] pessoas presas a um sistema que as escraviza. (RELATÓRIO 48, p. 22).

A sala dos professores pode ser considerada como um espaço importantíssimo no qual se tem exatamente a dimensão da atividade de ser professor e as necessidades, dificuldades e desafios dessa atividade. A sala dos professores, ponto de encontro antes e durante o intervalo (recreio), ela pode ser considerada

como o “termômetro da escola”, pois se tem a oportunidade de ouvir o “desabafo”

dos professores com situações envolvendo os alunos, a indisciplina e principalmente a frustração pelo baixo desempenho dos alunos. (RELATÓRIO 55, p. 25).

Em algumas situações, são relatadas práticas de reversão das situações anteriormente descritas, sendo evidenciadas as tentativas dos professores em desenvolver o seu trabalho de forma que fiquem asseguradas aos estudantes as condições mínimas necessárias a educação. Ainda assim, e por maior que seja a vontade de fazer da sua prática algo prazeroso e importante para o alunado, acabam, em muitos casos, encontrando barreiras que o desmotivam e, não raras vezes, os fazem sucumbir diante da dificuldade de se fazer entender e desenvolver o seu trabalho.

Merece destaque, uma vez que nos parece algo alarmante em relação à atual tessitura das realidades escolares, e mais especificamente da sala de aula, o fato de um estagiário, num misto de desabafo e pedido de socorro, dizer-nos que o professor tem o “direito” de explicar a matéria, o que seria o mesmo que dizer que esse profissional já não se encontra legitimado em seus saberes, e que os alunos pouco (ou nada) veem de valor e sentido naquilo que ele tem a lhes oferecer.

Não podemos culpar os professores pelo fracasso da escola quando eles são desrespeitados por seus alunos, não conseguindo realizar o trabalho da forma que gostariam. (RELATÓRIO 16, p. 27).

O professor faz o melhor trabalho possível e dignifica a profissão, que vem sendo dilacerada pela falta de reconhecimento salarial. (39).

O corpo docente se empenha na transmissão dos conhecimentos de forma direta e clara, mas constata-se que alguns alunos não se interessam pela aula, consequentemente prejudicando a absorção do conteúdo pelos atentos à disciplina que a professora ministra. (RELATÓRIO 91, p. 21).

Penso que cada professor tem o direito de explicar a matéria, mas para isso tem que dar as regras da sala de aula, senão eles não respeitam e tomam conta da aula. (RELATÓRIO 104, p. 25).

Conforme Karnal (2003), em meio ao enfrentamento estabelecido entre o ideal e o real, toda profissão tem sua perda de aura, e isso não é diferente na carreira docente, onde o desgaste inerente ao contato diário na formação de pessoas, acaba por tornar o problema ainda mais grave. Para ele, é preciso que se estabeleça uma reflexão contínua na prática dos profissionais da educação, dando o devido destaque as questões relativas às mudanças e permanências necessárias ao pleno exercício da docência, destacando que:

Talvez pela concepção de tempo e uma sensibilidade específica para o social, os professores da área de Humanas parecem muito angustiados com sua situação. A boa vontade da mudança esbarra tanto nos vícios tradicionais da escola como na resistência multifacetada de pais, direção, colegas e alunos. O inovador que espera ser saudado messianicamente acaba, com mais freqüência, encontrando comentários

como: “Para de enrolar e começa a dar aula!”. Muitas iniciativas são abortadas

porque o renovador não consegue ver ou avaliar o peso extraordinário da tradição. Rompendo abruptamente com ela, corre o risco de perder o contato com o real na sala e, no limite, perder seu emprego caso trabalhe no setor privado. Não rompendo com a tradição, o professor angustia-se com o indescritível rosto de tédio do seu aluno que espelha uma monotonia crescente a cada ano de magistério. [...] qual a validade de uma cultura formal para eles (os estudantes)? Em nosso contexto, esta frase equivale a indagar: qual a validade da história e do que eu faço para meu aluno e para mim? Como eu posso despertar no jovem tanto o interesse pela cultura mais formal como a capacidade e os instrumentos para analisar o mundo que o cerca? Talvez a pior pergunta seja a inversão desta: como eu vou descobrir qual a validade de tudo isso? Sim, porque é possível que o desânimo de um aluno seja apenas parte de um complexo maior que me inclua. (2003, p. 10).