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Quando resolvemos continuar pesquisando sobre as práticas de lazer dos jovens de bairros populares, a intencionalidade era buscar possíveis respostas para o fenômeno da não apropriação deste seguimento etário e social aos eventos culturais gratuitos, e aos equipamentos públicos65 de lazer e cultura da cidade de Belo Horizonte.

Assim o problema central desta pesquisa foi buscar a resposta para a seguinte indagação: O que de fato faz com que os jovens da periferia não frequentem os eventos e equipamentos públicos de Lazer da cidade, fazendo a opção de tecerem suas redes de sociabilidade em locais, equipamentos/espaços de lazer privados?

Decidimos que era importante buscar pistas para esta resposta resgatando a história do planejamento urbano de Belo Horizonte, que é muito similar a de outras cidades do Brasil e da América Latina. Os seguimentos populares que foram expulsos, excluídos e perseguidos da cidade planejada em sua fundação, foram obrigados a fundarem outra cidade, com suas próprias redes de lazer e sociabilidade. Até nos dias atuais é visível o reflexo desta segregação socioespacial, talvez este seja um dos fatores determinantes e que ainda separa a maioria dos moradores de bairros populares dos da elite, que passando de geração a geração, divide e segrega as populações da cidade, impedindo que ambas se encontrem nos eventos culturais e equipamentos de lazer.

A centralização dos equipamentos de lazer e cultura, presentes na porção da cidade que fora planejada, reservada às elites, ainda é uma realidade até os dias atuais, o que nos leva a reflexões sobre algumas práticas de lazer dos jovens na atualidade, talvez fruto da herança de seus familiares que foram expulsos da cidade planejada. Se tivéssemos mais tempo para também resgatar a história de vida das

65 Neste trabalho Equipamento Público de lazer são aqueles mantidos pelo Governo Municipal, Estadual e Federal.

famílias destes jovens poderíamos ter mais elementos e pistas sobre os reais motivos da baixa frequência aos equipamentos culturais do centro de Belo Horizonte. Até aqui conseguimos captar, a partir dos depoimentos coletados e das interações dos grupos focais, as seguintes informações.

Relacionado ao tempo, por ser um grupo de jovens, composto em sua maioria por estudantes do noturno, o tempo social é ocupado predominantemente pelo trabalho, pela qualificação profissional e pela escola. Identificamos que há uma tensão entres esses tempos que, segundo os jovens, limitam as possibilidades de vivências de lazer.

O trabalho foi descrito como uma experiência que vai à contramão do que é prazeroso, visto como algo extremamente negativo. É fora do contexto trabalhista que os jovens encontram com os amigos em um tempo/espaço disponível66, tido por eles como uma válvula de escape em contraposição ao trabalho.

A preparação para o ingresso ao mundo do trabalho, o que corresponde à qualificação profissional, também foi descrito como algo que consome parte considerável do tempo dos sujeitos que participam da pesquisa. Este novo compromisso inaugura a redução do tempo de lazer e de desfrute aos equipamentos de esporte, lazer e cultura próximos às suas residências.

Se o tempo na escola, somado ao trabalho e a qualificação profissional, passaram a ocupar um lugar considerável no tempo social dos jovens, criar um tempo disponível para práticas de lazer significa para os entrevistados transgredir as regras. Identificamos que durante a semana é comum os jovens matarem aula para encontrarem com os amigos e vivenciar momentos de lazer e sociabilidade.

Sobre a relação dos jovens com os equipamentos públicos e privados, descobrimos que não existe domínio absoluto do privado em detrimento ao público. A investigação mostrou que os jovens não frequentam os equipamentos públicos próximos as suas residências porque, além de serem escassos, eles não apresentam condições de infraestrutura e segurança que os motivem a utilizá-los. Esta constatação veio com o relato da utilização, por exemplo, da Orla da Lagoa da Pampulha, como o Parque Francisco Lins Rego, também conhecido como Parque

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Ecológico da Pampulha e a Praça do Cabral, na Regional Ressaca, do Município de Contagem. Ambos locais estão relativamente distantes de suas residências, porém mais próximos que o centro da cidade de Belo Horizonte.

Também foi possível identificar que os equipamentos próximos às residências dos jovens foram bastante frequentados no período da infância, como foi o caso do Parque Ursulina de Andrade Melo e do Jardim Zoológico. E que o uso foi sendo reduzido na medida em que os jovens passaram a assumir outras obrigações sociais para além da escolar, como a qualificação profissional e o trabalho.

Na conversa coletiva, os jovens também avaliaram os equipamentos próximos à sua residência e a relação do poder público com a comunidade. Nesta direção apresentaram que os equipamentos devem ser bem cuidados, com manutenções permanentes, com segurança e criar ambiente propício para que as pessoas se conheçam, fazer novas amizades. Além disto, a funcionalidade prática, ou seja, se ele atende o indivíduo ou ao seu grupo. Citaram a falta de diálogo da Prefeitura com as pessoas que vão utilizar os equipamentos, que nem sempre é construído de forma a atender a expectativa dos usuários.

Os equipamentos de lazer do centro da cidade – antiga cidade planejada, que foram definidos pela juventude como do tipo cultural, apareceram na memória dos jovens em um tempo distante. Na maioria dos casos o contato foi quando a Escola do Ensino Fundamental promovia excursões e/ou visitas técnicas. Mas estas visitas não foram suficientes para fazer com que uma relação fosse criada e o vínculo com o equipamento estabelecido. Também identificamos que o ar de santuário e de sacralização é um fator que intimida a aproximação.

Os equipamentos e espaços da Regional Centro Sul que não tem horário de funcionamento, tais como o viaduto Santa Tereza, a Praça da Estação e a Praça Sete de Setembro, apareceram na fala dos jovens como lugares que eles frequentaram em um tempo recente, talvez por não terem a institucionalização de regras de uso e horário. Também identificamos que a visita foi relacionada com a realização de algum evento.

Durante a coleta de dados, buscamos informações relacionadas ao horário de funcionamento dos equipamentos da cidade, o que nos chamou bastante atenção. Em sua grande maioria as atividades diárias são encerradas às 18:00h,

horário em que não somente os jovens, mas a maioria da população, ainda está chegando do expediente de trabalho. Este é mais um fator de restrição de acesso das populações.

Próximo à residência dos jovens, as Pracinhas e a Rua se tornaram o espaço de encontro, que podem ser utilizados a qualquer momento e com mais liberdade que um equipamento institucionalizado. A liberdade de uso é realizada de acordo com os interesses e o horário que os jovens estão disponíveis. São os espaços praticados67 dos jovens dos bairros populares, se convertendo em equipamento específico de lazer, embora não tenham sido construídas para esta finalidade.

O uso da rua e das praças também está ligado à questão dos espaços da cidade estar cada vez mais mercantilizados. E acreditamos que este fato pode estar também ligado às poucas possibilidades de espaço e equipamento de lazer que os moradores dos bairros populares têm próximo às suas residências.

O contexto social que os jovens cresceram está distante daquilo que Buere (1997) chamou de Cidade do Lazer, ou seja, a região central da cidade, que desde a sua fundação concentrou equipamentos reservados às elites e extratos médios da sociedade Belo Horizontina no início do século XX. Além de distante da residência dos jovens, Julião (1992), afirmou que quando Belo Horizonte foi fundada, nos espaços centrais existia uma lógica segregacionista que delimitava o limite entre ricos e pobres. Este fator pode ter influenciado as práticas de lazer dos primeiros habitantes da região e, por herança, ter permeado nas gerações seguintes, chegando a influenciar, até os dias de hoje, as práticas de lazer, os usos e as formas de identificação, ocupação e empoderamento dos espaços pela juventude contemporânea.

Se o centro da cidade, espaço econômico, representava o lugar das elites, onde os moradores dos bairros populares frequentavam somente para trabalharem, o bairro, o local de moradia e a rua representavam e representam o espaço da vizinhança68, um lugar69, um pedaço70, que ao longo dos anos foi

67 CERTEAU (1996) 68 BUTLIMER (1986) 69 TUAN (1983)

adquirindo profundo significado, devido ao acúmulo de sentimentos e de experiências vivenciados.

Os pontos colocados como motivos de utilização da rua como espaço/equipamento de lazer pelos jovens podem ser complementados por análises de outros depoimentos do grupo focal, como por exemplo, à associação lazer, álcool e drogas, inclusive pelos jovens que praticam esportes e da negação e proibição desta possibilidade de associação na maioria dos equipamentos específicos de lazer mantidos pelo poder público.

Durante período anterior à coleta de dados, busquei aproximação com o seguimento etário juvenil, frequentando algumas de suas festas. No geral eram locais onde se pagava valor fixo e em troca se tinha comida e bebidas liberadas, ao som de muito funk carioca, música sertaneja universitária e música eletrônica - o funk com mais frequência que qualquer outro estilo musical. O abuso de álcool e drogas nas festas me fazia refletir que dificilmente um equipamento específico de lazer público, com suas regras e restrições de uso e horário iria satisfazer, na mesma proporção, a expectativa de prazer e liberdade que os jovens buscavam naquelas festas.

Uma das festas chamou bastante atenção por ter sido realizada em uma rua/beco de uma vila da Regional Noroeste da cidade. Nesta festa, que não tinha catracas e nem bilheteria, aberta a qualquer interessado, o chopp, o big apple com schweppes e as drogas eram distribuídas e consumidas gratuitamente, de forma excessiva pelos presentes. Os jovens promotores da festa exibiam armas de fogo e impunham um aparente domínio sobre aquele território, absolutamente livre das institucionalizações, regras de uso e comportamentos que os equipamentos públicos e privados impõem.

Assim, quando a questão é escolher entre ir em festinha organizada pelos próprios jovens e ir em um evento que eles denominaram do “tipo cultural”, em um equipamento específico de lazer, que na maioria das vezes é distante de suas residências, ficou claro que a primeira possibilidade, na maioria das vezes, irá prevalecer. O sucesso da rua e das pracinhas pode estar ligado à transgressão e ao

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fato delas serem sinônimos de liberdade, onde os jovens podem ir quando quiserem sem restrição de horário e do que podem ou não consumir. Assim, o esvaziamento dos equipamentos de esporte, lazer e cultura, pelo seguimento juvenil, pode estar relacionado às restrições de uso e horário de funcionamento.

Sobre os eventos identificamos que os jovens ao escolherem ir para a um determinado evento ou equipamento, preza pela companhia e pela segurança. Dificilmente irá se aventurar na metrópole total sozinho, em espaços e pedaços longe de sua residência. Assim, a motivação do grupo é um fator determinante nas escolhas das vivências de lazer. Se aventurar sozinho em eventos, sem a galera, foi colocado como fator de risco, especialmente para caso ocorra uma situação de briga, onde os pares serão acionados para mediarem ou separar uma possível confusão. Também identificamos que há preconceito por parte dos jovens em frequentarem eventos gratuitos, associados por eles como locais de brigas e confusões.

Outra constatação foi que a informação sobre os eventos culturais gratuitos não chegam aos jovens com facilidade, mesmo em um contexto de uso intenso de tecnologias da informação e comunicação. A internet com suas redes sociais virtuais, que poderia se apresentar como possibilidade para disseminação de conteúdo, vem apresentando suas limitações e seus guetos. A rede dos produtores culturais não se conecta com a rede dos jovens moradores dos bairros populares.

Observando como é feita a distribuição do material de divulgação dos eventos culturais da cidade, especialmente os patrocinados com recursos públicos das leis de incentivo a cultura, observamos que eles são divulgados em um círculo restrito, aparentemente para um potencial público consumidor de cultura. Então ficamos pensando: por que além dos eventos serem centralizados na antiga porção planejada da cidade, os produtores também restringem sua divulgação?

A resposta dos jovens deixou claro que o material de divulgação dos eventos culturais não está acessível ao seguimento social, fazendo com que a informação não chegue com facilidade até eles. O veículo de comunicação de massa apareceu como a grande referência e é através dele que ficam sabendo dos eventos gratuitos e privados da cidade. Assim, é necessário refletir que não basta democratizar somente os espaços e equipamentos de lazer, é necessário

democratizar o acesso à informação e à programação destes locais.

No que diz respeito à mobilidade urbana, nos deparamos com perfis bastante diversos, o que nos impede de afirmar que existe homogeneidade entre as práticas de deslocamento até os equipamentos de lazer, sejam eles públicos ou privados. Identificamos jovens que afirmaram que a questão financeira para acessar os equipamentos da região central da cidade é um fator limitador, bem como jovens que se deslocam para circuitos de lazer de bairros distantes de suas residências, dentro de Belo Horizonte e para cidades da região metropolitana como Betim, Nova Lima e Contagem.

Chamou-nos atenção jovens que priorizam suas práticas de lazer e sociabilidade próximos a suas residência, motivados pelos maiores rigores da lei seca. O que nos remete a refletir que a ausência de políticas públicas de mobilidade urbana para o lazer, associadas a suas práticas de consumo da juventude, pode estar aprofundando e/ou criando uma nova segregação socioespacial na cidade de Belo Horizonte, se estendendo para a região metropolitana.

Esta investigação vem contribuir para que gestores públicos e produtores culturais da Cidade de Belo Horizonte e Região Metropolitana, (re)pensem as práticas e as políticas de Esporte, Lazer e Cultura para a Juventude, que dificilmente terão sucesso se não forem articuladas na perspectiva de descentralização e democratização das ações, sob a perspectiva do diálogo com os jovens e com as instituições que estão ao seu redor, principalmente com a família e a escola.

A título de sugestão, a descentralização dos equipamentos de esporte, lazer e cultura que vem sendo conquistadas pelos movimentos sociais de base comunitária, principalmente pelo Orçamento Participativo, tem que vir acompanhada por política de animação sociocultural, dialogando principalmente com os anseios das comunidades locais.

Os centros culturais poderiam trabalhar em uma perspectiva de ampliar seu raio de atuação dentro dos territórios ao invés de desenvolverem ações somente dentro do equipamento, haja vista que eles estão distantes dos bairros dos jovens entrevistados, além de também estabelecer parceria com coletivos culturais, outros órgãos da administração municipal e associações privadas sem fins lucrativos.

ambiente e cultura se articulem, a fim de potencializar o uso dos equipamentos de lazer que, por ser uma temática interdisciplinar, necessariamente precisa do diálogo intersetorial, no caso de Belo Horizonte, entre a Fundação de Parques, a Fundação Zoobotânica, a Fundação Municipal de Cultura, a Secretaria de Esporte e Lazer e Empresa de Transporte e Trânsito.

A Secretaria do Estado de Educação também deveria assumir protagonismo em parceria com as políticas públicas de lazer para juventude, uma vez que são nas Escolas Estaduais que encontram o contingente massivo dos jovens de bairros populares, principalmente os estudantes do Ensino Médio Regular e do EJA – Educação de Jovens e Adultos. Um trabalho articulado poderia ampliar e diversificar as possibilidades de uso do tempo de lazer da juventude para além das festinhas, além de buscar novo sentido do tempo escolar para a juventude.

Os equipamentos culturais do hipercentro deveriam promover ações de massa focadas na formação dos jovens do ensino médio. Se o maior centro cultural de Belo Horizonte, o Palácio das Artes, é desconhecido pela maioria dos jovens entrevistados, os centros culturais locais e outros equipamentos de lazer seguem a mesma lógica.

Outro tema diretamente relacionado é pensar a mobilidade urbana no âmbito da metrópole Belo Horizontina. Pensar políticas de passe livre e tarifa zero para a juventude, extrapolando a questão estudantil, o que seguramente seria um importante mecanismo para democratizar o lazer, levando-os aos diversos equipamentos de esporte, lazer e cultura, além de promover a fruição da produção cultural que, por consequência, promoveria o intercâmbio de jovens de diversas regiões da cidade. Esperamos que este trabalho abra novos caminhos e inspire pesquisadores, gestores públicos e produtores culturais interessados na temática lazer e juventude.

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