Os eventos que os jovens tomaram conhecimento com facilidade são, em sua maioria, aqueles que foram divulgados pelos veículos de comunicação de massa, em especial a televisão, como o Festival Internacional de Teatro, a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, o Minas ao Luar, Arraial de Belô e o Fan Fest da Copa de 2010.
Não descartamos que o esforço individual do sujeito em buscar a informação poderia levá-lo ao evento, mas, no geral, o jovem não conhecia as possibilidades que a cidade apresenta. O jovem, às vezes, sequer conhece sua cidade.
A rede social64 dos jovens da periferia nem sempre se conecta com a rede dos produtores culturais ou das pessoas que frequentam os eventos e equipamentos
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culturais de uma maneira geral. Um dos jovens chegou a destacar fazer reflexão sobre o acesso à informação relacionado à rede que se está inserido.
(Entrevistadora/mediadora 2) E assim, Facebook, Internet vocês não
veem não? (G2-P11-F) Ah Facebook Comunica (G2-P13-M) Facebook vai da pessoa, se ela só tem amigo funkeiro só vai aparecer funkeiro. Se ele tem os cultural ai pessoa consegue. (Entrevistador/mediador 1) Depende da rede que você está! (G2-P13-M) É porque a rede social fala tudo. Não tem nem como!
Assim a internet, que poderia ser uma arma poderosa de divulgação, também vem apresentando suas limitações e seus guetos. A rede social dos jovens está limitada aos seus pares de vizinhanças, amigos da escola e do trabalho. Buscar outras redes poderia se apresentar como uma possibilidade para ampliação das vivências de lazer e para formação humana. O que nos parece é que, mesmo com todas as possibilidades, existe uma espécie de segregação invisível no espaço urbano periférico, que distancia os jovens das oportunidades que a cidade apresenta para as práticas culturais.
5.5.2 Fiquei sabendo, mas sozinho não rola!
Quando os jovens conseguem romper a barreira do acesso à informação, só a motivação para ir ao evento pareceu não ser suficiente; a distância, a proteção da família, o interesse dos amigos, a segurança e a questão financeira são fatores que determinam a ida ou não ao evento.
Sair do pedaço (MAGNANI, 1984), do lugar (TUAN, 1983) e do bairro (MAYOL, 1996) para encarar vivências de lazer no espaço urbano total da metrópole, não é uma coisa que o jovem faz sem companhia, foi o que descobrimos na fala da maioria dos jovens.
(Entrevistador/mediador 1) O F.I.T. vocês ficaram sabendo? (G1-P5-M) O
F.I.T. eu fiquei sabendo, o FETO também, a Lua Branca.
(Entrevistador/mediador 1) E você foi? (G1-P5-M) Não eu não fui porque,
aquela questão também de não ter companhia, e às vezes eu preferir fazer algo, tipo na casa de alguém ou outra coisa com os amigos que ir lá. Mas geralmente quando o pessoal anima mesmo né! Assim nunca tomei coragem de ir sozinho, ah ninguém tá animado eu vou sozinho. (G1-P2-M) -
Eu também não! É muito difícil! / (…) (G1-P6-F) E acho que é mais por causa de companhia. Eu acho! (G1-P5-M) Companhia também influencia!
(G1-P2-M) É cê tem alguém para ir conversando. Até para você ir, tipo
assim, numa feirinha é assim.
Assim, só gostar da temática do evento não é suficiente para ir vivenciar momentos de lazer sozinhos(as), fora da rede de relações e parentesco, vizinhança, coleguismo e proteção.
(G2-P9-M) Acho que muita gosta do negócio e talvez não vai por ... sei lá
por preguiça. Companhia. (….) Ou até mesmo por companhia né? Por que ir sozinho nem nem. Igual debaixo do viaduto lá que tem, eu não vou mesmo por que as meninas que eu ando não gosta entendeu? (G2-P12-F)
A companhia para ir ao evento também significa segurança. Ir a um evento gratuito sozinho pode representar um risco e os jovens relataram que, na maioria das vezes, não se aventuram em ir a shows sozinhos ou com pouca companhia. Estar com a turma significa estar protegido para caso aconteça algum imprevisto, assim se não tiver um galerão não rola.
(G1-P7-M) Teve o do ano, o show que aconteceu no ano novo. Não, não
sei, o que aconteceu no ano novo (2011/2012), e teve o show da Ivete Sangalo. Eram dois que eu queria mas só que minha companhia, o meu parceiro mesmo que é o meu melhor amigo no dia a dia: “ah não sei depois da confusão só tá eu e ocê lá?
(G1-P6-F) Eu acho assim, por exemplo igual na Praça da Estação tem
muitos eventos de graça, só que o pessoal fica assim “ah vai descer as favelas” (G1-P5-M) Aquele certo pré conceito (G1-P6-F) É um preconceito que já gera entendeu? E assim eles falam assim “não lá vai ser perigoso, vai ter briga vai ter, vai ter tudo”
(G1-P2-M) Vai descer os caras (G1-P7-M) Ai cê desanima entendeu (G1- P2-M) Desanima é! (G1-P7-M) – (…) igual ele falou não ir com intenção de
brigar, é para curtir, se tiver alguma confusão nos vão chegar e separar para evitar a confusão entendeu? Agora igual cê falou show de graça, a gente não gosta de ir, ainda vai com um amigo só? Aí o próprio amigo desanima ocê “ah não sei vão para outra coisa”, ai cê desanima assim e cê “ah então não vão não!” Aí decidi ir para outro lugar e sempre acaba em Praça e em Açai!
O preconceito com os eventos gratuitos é internalizado no imaginário dos jovens como algo onde a moçada vai para brigar e para comercializar drogas, conforme relata um dos participantes sobre os eventos que tinham no bairro de sua
residência, o Jardim Alvorada – Regional Pampulha:
(G1-P1-M) (...) Aí eu vou, olho, penso se é bacana, será que é um lugar
assim que eu posso, porque as vezes com turma ajuda, qualquer coisa tipo briga, não vamos para festa assim para brigar, mas tipo assim, para evitar certas coisas, aí ajuda. Mas aquele negócio ah cê não vai não? Vai ter briga? Vai ter isso? será que é um lugar bacana? Por que hoje em dia também coisas de graça as pessoas (pausa) vão colocar assim, em vez de aproveitar uma coisa bacana, que é uma coisa para ajudar, porque que eles vão lá? Vai fumar umas macoinha, vai vender as drogas, vai começar a brigar, porque ou! O que teve aqui no Jardim Alvorada ali festas públicas e que terminou em mortes, que terminou em briga, então, o que que o jovem vai fazer lá? Então um lugar que é restrito, tem um pouco, que dizer, não é que é segurança total, mas pouco mais de segurança, por isto que o jovem vai pra isto. Não tem jeito.
Aqui podemos fazer uma reflexão sobre a questão da frequência com que estes eventos são realizados nos bairros populares. Será que o fato deles serem escassos na periferia não seria o principal fator gerador da violência? Como algo que raramente acontece, uma festa onde a ideia é quebrar tudo como se o mundo fosse acabar?
Enquanto na regional Centro Sul acontece eventos o ano inteiro, às vezes até competindo a preferência do público, na Regional onde vivem os participantes da pesquisa, em geral, acontece dois eventos por ano, o Pré-Carnaval e o Arraial de Belô, ambos os eventos promovidos diretamente pela Prefeitura.
Mais uma vez cabe a crítica aos produtores culturais da cidade que desenvolvem suas ações dentro da cidade planejada. O que faz com que os produtores culturais realizem os eventos em um mesmo circuito, já que o movimento social conseguiu que diversos equipamentos fossem construídos nos bairros populares? Os produtores culturais poderiam ser os responsáveis pela mudança de paradigma.
O Participante skatista colocou que se for um evento gratuito cultural é mais tranquilo ir.
(G2-P13-M) Depende. Se for gratuito um cultural (G2-P13-M) Não! Se for
um mc catra ou um mc sei lá o que eu não vou não (risos) Agora se for um cultural de boa! (...) (G2-P9-M) Tem muito evento assim gratuito que é bem frequentado. Não é porque é gratuito que vai dar tipo assim povão. É bacana também!
compete com as possibilidades. Sempre tem uma festinha para ir, ela é mais interessante que ir ao teatro ou a qualquer evento cultural, conforme afirmou uma das participantes.
(Entrevistador / Mediador 1) Mas por que você acha que a galera não vai? (G1-P6-F) Por que não é muito cultural E uma coisa do dia a dia que muita
gente vai. Festa? Se você falar festa e teatro o pessoal vai para festa.
Assim a falta de acesso à informação da existência dos eventos - salvo os eventos divulgados em mídias de massa, a companhia para vivenciar o lazer com amigos e disputa com festas que dialogam diretamente com o contexto social dos jovens, são elementos importantes que nos ajudaram a compreender o distanciamento dos jovens dos eventos culturais gratuitos da cidade.