É olhar o horizonte sem medo e mergulhar em liberdade no voo das águias.
Paulina Chiziane Levando em conta a importância do mito na vida humana e como uma boa parcela das literaturas africanas lança mão do universo mitológico para explicar o mundo na estrutura e no teor textual, percebe-se que o comparatismo é um valioso instrumento para nos aproximarmos do universo literário adjacente às sociedades orais onde a memória coletiva remonta um tempo mítico-religioso. Como se sabe, o comparatismo literário, “não é um método específico, mas um procedimento mental que
favorece a generalização ou a diferenciação. É um ato lógico-formal do pensar diferencial (processualmente indutivo) paralelo a uma atitude totalizadora (dedutiva).” (CARVALHAL, 2006, p. 7). Por conseguinte, comparar não é apenas um procedimento em si, mas um recurso analítico para explorar inúmeros campos do trabalho científico. Tânia Franco Carvalhal, refletindo acerca dos avanços da metodologia crítica da literatura comparada, conclui que, nos estudos mais recentes,
o comparativismo deixa de ser visto apenas como o confronto entre obras ou autores. Também não se restringe à perseguição de uma imagem, de um tema, de um verso, de um fragmento, ou à análise da imagem/miragem que uma literatura faz de outras. Paralelamente a estudos como esses, que chegam a bom término com o reforço teórico-crítico indispensável, a literatura comparada ambiciona um alcance ainda maior, que é o de contribuir para a elucidação de questões literárias que exijam perspectivas amplas. Assim, a investigação de um mesmo problema em diferentes contextos literários permite que se ampliem os horizontes do conhecimento estético ao mesmo tempo que, pela análise contrastiva, favorece a visão crítica das literaturas nacionais. (CARVALHAL, 2006, p. 87, grifos nossos)
Se o papel do crítico é a investigação de questões literárias que exijam perspectivas amplas, acreditamos ser proveitoso explorar os elementos da obra As
Andorinhas a partir da amplitude de novos horizontes do conhecimento estético, em
nosso caso, a partir dos arquétipos míticos. No entanto, a proposta do estudo não é apenas recolher no mito um mundo de estórias encantadas alienadas das especificidades da História. Tampouco tem a intenção de propor um sistema de análise simplista classificando as narrativas míticas como fruto da imaginação coletiva nascidas para superar ou simbolizar as intempéries do processo histórico. Antes de tudo, validamos
nossa análise no reconhecimento de que “a criação e a sobrevivência do mito é obra do inconsciente que se torna parte da vida cultural de um povo” (FEIJÓ, 1984, p. 20). Em conformidade com essa perspectiva, em O Homem e seus Símbolos, Carl Jung reconhece que os mesmos arquétipos míticos são reincidentes em diversas culturas, embora distantes no espaço geográfico ou no tempo histórico, portando o mito um caráter universal. Sobre o mito do herói, ele explica:
O mito universal do herói, por exemplo, refere-se sempre a um homem ou um homem-deus poderoso e possante que vence o mal, apresentado na forma de dragões, serpentes, monstros, demônios, etc. e que sempre livra seu povo da destruição e da morte. A narração ou recitação ritual de cerimônias e de textos sagrados e o culto da figura do herói, compreendendo danças, música, hinos, orações e sacrifícios, prendem a audiência num clima de emoções numinosas (como se fora um encantamento mágico), exaltando o indivíduo até sua identificação com o herói. Se tentarmos ver este tipo de situação com olhos de crente talvez possamos compreender como o homem comum pôde se libertar da sua impotência e da sua miséria para ser contemplado (ao menos temporariamente) com qualidades quase sobre-humanas. Muitas vezes, uma convicção assim pode sustentá-lo por longo tempo e dar um certo estilo à sua vida. Poderá até mesmo caracterizar uma sociedade inteira. (JUNG, 2008, p. 79)
O mito do herói que busca a salvação de seu povo pode ser compreendido como um bem profundo e universal, pois é um enredo mitológico constante em inúmeras culturas. Concernente a isso, é proveitoso esboçar os limites do mito nas sociedades integradas na cosmovisão mítica. Antonio Candido em Literatura e Sociedade aponta a natureza da literatura nas sociedades iletradas. Para Candido, nessas comunidades, a função social da literatura está em primeiro plano, “tornando-a [a literatura] ininteligível se não for levada na devida conta” (CANDIDO, 2010, p. 57), pois, para o crítico,
a literatura dos grupos iletrados liga-se diretamente à vida coletiva, sendo as suas manifestações mais comuns do que pessoais, no sentido de que, ao contrário do que pode ocorrer nas literaturas eruditas, nunca o artista ou poeta deixa de exprimir aspectos que interessam a todos. (CANDIDO, 2010, p. 57)
Neste sentido, em contraste com as literaturas eruditas, Antonio Candido conclui:
Elas não podem ser entendidas mediante a aplicação pura e simples dos métodos a que ele [o estudioso] está habituado e que supõe na obra uma relativa autonomia [...] Não podem ser desligadas do
contexto, - isto é, da pessoa que as interpreta, do ato de interpretar e, sobretudo, da situação da vida e de convivência, em função das quais foram elaboradas e são executadas. Feitas para serem incorporadas imediatamente à experiência do grupo, à sua visão do mundo e da sociedade, pouco significam separadas da circunstância, pois, sendo palavra atuante, são menos e mais do que um registro a ser animado pelo deciframento de um leitor solitário. (CANDIDO, 2010, p. 58)
Pela ótica de Candido, a literatura dos povos “primitivos” está intrinsecamente ligada à experiência e à prática social e não pode ser investigada sem levar em conta tal fator em primeiro plano. Similarmente, Hilário Franco Júnior no texto “História, literatura e imaginário: Um jogo especular. O exemplo medieval da cocanha” reflete sobre o imaginário simbólico na literatura e sua relação com a mentalidade social. Nos imaginários, para o historiador, estão resguardados os anseios da sociedade e o pensamento utópico que espelha a superação de um presente atribulado. Assim, ao analisar um conto popular da Idade Média que retrata um lugar de extrema fartura, bem estar e felicidade coletiva, o autor defende que
Toda a descrição fabulosa que ali aparece não decorre somente da imaginação do poeta, ou da situação concreta da história agrária, da história das relações sociais e do gosto. Nela revela-se o medo atávico da fome (dado de mentalidade, enraizado desde as longas andanças do homem pré-histórico em busca da comida), sentimento que teve inúmeras manifestações literárias ao longo dos séculos [...], até que, reforçado pelas condições concretas do norte francês medieval, gerou o texto em questão. Texto no qual fica bem exemplificada a essência do imaginário, a fusão entre as realidades objetivas e subjetivas. (FRANCO JR, 1997, pp. 283/284)
Antonio Candido, embora reconheça seu valor estético, afirma que a literatura nas sociedades iletradas deve ser explorada em primeiro plano no contexto sociológico. Já Hilário Franco Júnior pondera as razões dos símbolos que aparecem nos contos populares entre fatores como a imaginação do artista, a história concreta e as relações sociais da História. No entanto, ainda assim, o conteúdo do imaginário social, verificado na literatura, está atado às condições concretas da história e da realidade social.
Por sua vez, discutindo questões semelhantes sobre o homem primitivo e sua produção intelectual, Claude Levi-Strauss na obra Mito e Significado,4
defende que os estudos modernos deveriam alargar o canal e reincorporar “uma grande quantidade de problemas anteriormente postos à parte”. (LEVI-STRAUSS, 1989, p. 16). Para o
4 Na evolução histórica, Levi Strauss afirma que houve um divórcio entre a ciência e lógica concreta, o
antropólogo, o imaginário nas sociedades “primitivas” não pode ser visto apenas como um espelho de sua condição histórica e social; afinal, esta relação tão categórica e simplificadora não é estabelecida quando se analisa a criação artística proveniente das sociedades “modernas”. Levi-Strauss sustenta que
esses povos que consideramos estarem totalmente dominados pela necessidade de não morrerem de fome, de se manterem num nível mínimo de subsistência, em condições materiais muito duras, são perfeitamente capazes de pensamento desinteressado; ou seja, são movidos por uma necessidade ou um desejo de compreender o mundo que os envolve, a sua natureza e a sociedade em que vivem. Por outro lado, para atingirem este objetivo, agem por meios intelectuais, exatamente como faz um filósofo ou até, em certa medida, como pode fazer e fará um cientista. (LEVI-STRAUSS, 1989, p. 19)
Dessa forma, em harmonia com a visão de Levi-Strauss, ao analisarmos os temas míticos e a forma estilística nos quais estão tecidos os contos de Paulina Chiziane, é producente “elucidar questões literárias que exijam perspectivas mais amplas” (CARVALHAL, 2006, p.87), como já mencionado nesta dissertação. Por possuir um caráter universalista, o mito possui arquétipos que não estão unicamente vinculados às necessidades imediatas da sociedade, embora dialoguem de forma íntima com o contexto sócio-histórico. As Andorinhas retratam heróis nacionais de Moçambique que a veracidade se comprova na histórica moderna, diferentemente da maioria dos heróis encontrados nas mitologias universais. Ainda assim, como nas narrativas míticas, as personagens da obra são retratadas envoltas em secretismos e imersas em uma realidade sobre-humana. Estes heróis que pertencem simultaneamente ao campo histórico e mítico nos levam a questionar a natureza e a relação entre a história e o mito.