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3.4.2 Data med reelle tall – ”normalår”
A geração que vem buscará a nossa grandeza em monumentos de pedra, sem perceber, que nós, antepassados, escrevemos a nossa história em monumentos de sangue.
Paulina Chiziane Segundo Mircea Eliade, a historiografia tem início com Heródoto na Grécia antiga. O historiador helênico professava escrever as suas histórias a fim de que as façanhas dos homens não se perdessem no curso do tempo. Havia, portanto, o intuito de
conservar a memória; pretensão distinta dos autores das antigas narrativas históricas de Israel que tinham como fim “provar a existência de um plano divino e a intervenção do Deus supremo na vida de um povo.” (ELIADE, 2004, p. 120).
Sendo o estudo da História um campo muito amplo, em Mito e Realidade, Eliade preocupa-se mais com a relevância que a historiografia passou a ter no pensamento helênico. No contexto grego, a escrita histórica servia para resguardar as grandes realizações e aventuras das personagens históricas excepcionais. O homem, desde então, passou a reconhecer a importância do texto historiográfico no esforço de “conservar a memória dos acontecimentos contemporâneos e o desejo de conhecer o mais exatamente possível o passado da humanidade.” (ELIADE, 2004, p. 120). Consequentemente, sobretudo a partir do século XIX, a historiografia começa a desempenhar um papel de primeira ordem. O autor chama esse despertar da escrita histórica dos últimos tempos de anamnesis historiográfica, a qual se preocupa também em “descobrir, despertar e recuperar o passado das sociedades exóticas e mais periféricas, desde o Oriente Próximo pré-histórico às culturas dos “primitivos” em vias de extinção.” (ELIADE, 2004, p. 121).
Micea Eliade observa ainda que o “despertar” para a escrita histórica apenas prolonga princípios ontológicos presentes na humanidade desde o período em que o homem explicava o mundo a partir da mitologia. Em certa medida, em ambas as formas de enxergar a realidade, há uma projeção do homem para fora de seu momento histórico. O texto do filósofo reza:
Pode-se dizer, entretanto, que essa anamnesis, prolonga, embora em outro plano, a valorização religiosa da memória e da recordação. Não se trata mais de mitos nem de exercícios religiosos. Mas subsiste um elemento comum: a importância da rememoração exata e total do passado. Rememoração dos eventos míticos, nas sociedades tradicionais; rememoração de tudo o que se passou no tempo
histórico, no ocidente moderno. (ELIADE, 2004, p. 122)
Claude Levi-Strauss também se preocupa em afirmar que a História e a Mitologia não podem ser determinadas em campos simplesmente opostos:
A Mitologia é estática: encontramos os mesmos elementos mitológicos combinados de infinitas maneiras, mas num sistema fechado, contrapondo-se à História, que, evidentemente, é um sistema aberto. O caráter aberto da História está assegurado pelas inumeráveis maneiras de compor e recompor as células mitológicas ou as células
explicativas, que eram originariamente mitológicas. (LEVI- STRAUSS, 1989, p. 39)
A Mitologia e a História estão vinculadas a sistemas de conhecimento diferentes. A historiografia é construída a partir de uma perspectiva de tempo linear, enquanto o mito é experienciado em um tempo sagrado onde presente, passado e futuro se dissolvem. Porém, tanto o discurso mitológico como o discurso historiográfico possuem um elemento comum: a rememoração do passado. Em ambos nos deparamos com o homem em busca de suas origens, afinal, a necessidade da descoberta de si mesmo é axiomática em qualquer sociedade e tanto a historiografia (na sociedade letrada) quanto a mitologia, desempenham essa função. Como já comentado, o pensamento mítico não foi extirpado da vida social contemporânea, pois ele está enraizado no comportamento humano. Nos dias modernos, podemos elencar os símbolos nacionais como figurações míticas coletivas: as bandeiras, os hinos, os brasões e etc. Vemos também emergir nas sociedades, com muita constância, mitos políticos e sócio-estatais e testemunhamos a religião continuar exercendo profundo domínio na vida social.
Na obra intitulada Mitos, Sonhos e Mistérios, Mircea Eliade afirma que “ao nível da experiência individual, o mito nunca desapareceu por completo: faz-se sentir nos sonhos, nas fantasias e nostalgias do homem moderno, e a imensa literatura psicológica habituou-nos a reencontrar a grande e a pequena mitologia na atividade inconsciente de cada indivíduo” (ELIADE, 2000, p. 19). A evasão do tempo comum pode ser notada nos tempos atuais no espetáculo e na leitura – incluindo o teatro e o cinema -, que embora variavelmente laicos, aproximam-se da liturgia religiosa no campo psicológico, pois são decorridos em um tempo concentrado, resíduo do tempo mágico-religioso, como trataremos mais adiante.
Pela evidência da questão, não é necessário discutir a presença do pensamento mitológico no campo religioso. Entretanto, podemos verificar o quão presente é o pensamento mítico hoje em dia no campo das distrações. Nos tempos remotos ou nas sociedades “tradicionais”, “o trabalho, as profissões, a guerra, o amor eram sacramentados. Reviver o que os deuses e os heróis tinham vivido in illo tempore, traduzia uma sacralização do cosmo e da vida.” (ELIADE, 2000, p. 29). Em contrapartida, o mito não é mais dominante nos setores essenciais da vida no mundo moderno, mas ele foi recalcado nas zonas obscuras da psique. Dessa forma, seu
comportamento deixa-se decifrar, mais do que nas atividades inconscientes, nas distrações.
O campo da leitura5, que na modernidade substitui a literatura oral e os recitais dos mitos, propõe, da mesma forma que o ritual mítico, “uma ruptura do presente e concomitantemente uma ‘saída do tempo’.” (ELIADE, 2000, p. 28). A leitura consiste uma via fácil de modificação da experiência temporal. Para Eliade, ela oferece a ilusão de um domínio de tempo que “dá o direito de suspeitar de um secreto desejo de se subtrair ao porvir implacável que o conduz [o homem] à morte.” (ELIADE, 2000, p. 28).
Ainda assim, o presente trabalho não pretende vasculhar a literatura e, paralelamente, a vida moderna em busca de elementos míticos, mas, espera confluir a milenar tradição da experiência com o sagrado e os impasses históricos de forma horizontal, valorizando as teorias progressistas que tiveram seu grande contributo ao traduzir as transformações e os conflitos da sociedade moderna. Não obstante, este diálogo apenas poderá ser produtivo se compreendermos que tanto o homem moderno como o homem primitivo compartilham as mesmas raízes do pensamento intelectual. Eliade, a respeito da compreensão do homem contemporâneo sobre o mito, conclui:
O homem ocidental já não é dono do mundo: diante dele, já não tem “indígenas”, mas sim interlocutores. É bom que se saiba como estabelecer diálogo; é indispensável reconhecer que já não existe solução de continuidade entre o mundo “primitivo” ou “atrasado” e o Ocidente moderno. Já não basta, como bastava há meio século,
descobrir e admirar a arte negra ou oceânica; é preciso redescobrir as fontes espirituais dessas artes em nós mesmos, é preciso tornar
consciência do que resta ainda de “mítico” numa experiência moderna, e que assim sucede, justamente porque esse comportamento é, também ele, consubstancial com a condição humana, enquanto expressão da angústia perante o tempo (ELIADE, 2000, p. 30, grifo nosso)
Levi-Strauss, de forma similar vê o estudo do mito e das narrativas mitológicas como um caminho frutífero para a compreensão mais ampla da História:
Não ando longe de pensar que, nas nossas sociedades, a História substitui a Mitologia e desempenha a mesma função, já que para as sociedades sem escrita e sem arquivos a Mitologia tem por finalidade
5O texto original de Mircea Eliade é de 1957. Obviamente, com os avanços tecnológicos e com as novas
formas de interação com o mundo por intermédio das tecnologias, existem novas transformações e substituições do pensamento mítico hoje.
assegurar, com um alto grau de certeza – a certeza completa é obviamente impossível –, que o futuro permanecerá fiel ao presente e ao passado. Contudo, para nós, o futuro deveria ser sempre diferente, e cada vez mais diferente do presente, dependendo algumas diferenças, é claro, das nossas preferências de caráter político. Mas, apesar de tudo, o muro que em certa medida existe na nossa mente entre Mitologia e História pode provavelmente abrir fendas pelo estudo de Histórias concebidas não já como separadas da Mitologia, mas como uma continuação da mitologia. (LEVI-STRAUSS, 1989, p. 41)
O pensamento mitológico é “consubstancial com a condição humana”, portanto, para Mircea Eliade, o universo da mitologia não é o espaço de um homem primitivo e atrasado, mas sim de um interlocutor. Da forma similar, compreendendo os sistemas diferentes em que ambas estão construídas, Levi-Strauss afirma que a Mitologia e a História não devem ser investigadas em oposição, porém, devem ser concebidas como continuação daquela para esta.