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A pesquisa (auto)biográfica
Nos últimos anos tem-se observado uma pluralidade de estudos com fontes nas histórias de vida que incorporam experiências educativas, narrativas escolares, (auto) biográficas, ensaios, memórias, cartas, entrevistas sobre histórias de vida, narrativas de práticas de formação docente. A escrita de si, que leva a possibilidades de explorar outros territórios numa aproximação teórica e metodológica, podem indicar pistas sobre o mundo da escola, de si e dos diferentes domínios das temporalidades históricas, sociais e educacionais. Dentre os estudiosos dessas tendências de pesquisa destacam-se Siqueira (2009), Prado (2008), Passeggi (2008), Souza (2006, 2008), Whitaker (2002), Puntel (2002), Severino (2001), Kenski (1996), Bosi (1995), Clandinin & Connelly (1995), dentre outros.
Puntel (2002) aponta sua concepção sobre as histórias de vida, que podem ser construídas com o emprego de técnicas de pesquisa que incluem narrativas, documentação e outros instrumentos concernentes à tradição em pesquisa (auto)biográfica. Ela é constituída de uma essencial contribuição formativa e de construção identitária do sujeito, possibilitando uma construção histórica por dentro do que ficou ocultado pela prática historiográfica tradicional, tendendo a uma maior afirmação nas décadas mais recentes.
De acordo com Souza (2008), houve uma constatação a respeito da proliferação de estudos que envolvem histórias de vida, memórias, biografias e (auto)biografias, conjuntamente com uma grande atenção voltada para a formação docente nas últimas décadas, no que se diz respeito ao campo da pesquisa da pós-graduação brasileira.
Passeggi (2008) afirma que a utilização das histórias de vida desencadeia importantes debates teóricos no decorrer de sua evolução e que caminhos de lutas sucessivas pelo reconhecimento de seu caráter científico estão sendo traçados para que se reconheça este como um método autônomo de investigação.
Fazer uso das narrativas (auto)biográficas nos leva a uma ampliação dos modos de acesso à realidade cotidiana, dentro e fora da escola, permitindo não só recuperar e redesenhar as trajetórias pessoais, mas também ampliar a compreensão que temos dos espaços e tempos nos quais vivem e convivem esses sujeitos.
É o que nos afirma Whitaker (2002: 107), quando ressalta que:
A técnica de histórias de vida produz um material riquíssimo para a análise sociológica, porque contempla vários temas, visto que reflete as várias questões presentes na sociedade. Como conseqüência, pode ser utilizada por todos os membros de uma equipe de pesquisa em seus trabalhos específicos, cada um recortando de acordo com seu interesse.
Sob essa ótica, a narrativa (auto)biográfica das experiências dos professores, apresenta-se como um campo de investigação relevante para a compreensão do processo formativo e da identidade profissional.
Severino (2001: 175) ressalta bem esta questão quando relata:
[...] uma autobiografia configurando-se como uma narrativa simultaneamente histórica e reflexiva. Deve então ser composto sob a forma de um relato histórico, analítico e crítico, que dê conta dos fatos e acontecimentos que constituíram a trajetória acadêmico-profissional de seu autor, de tal modo que o leitor possa ter uma informação completa e precisa do itinerário percorrido.
Segundo Souza (2008), a diversidade de temas abordados nas pesquisas, aliada ao uso da história como fonte metodológica, possibilita um repensar por meio das narrativas dos participantes, os quais se constituíram como protagonistas de uma história muitas vezes não contada e nem escrita, ocultada pela história oficial.
Conforme Prado (2008: 01):
[...] a valorização da escrita dos educadores ganhou lugar. Afinal, se é necessária a reflexão sobre a prática profissional e se escrever favorece o pensamento reflexivo, a conclusão acaba por ser inevitável: a produção de textos escritos é uma ferramenta valiosa na formação de todos.
Para Souza (2008), quando narradas, essas experiências enriquecem as possibilidades de compreensão do universo escolar e de suas estruturas, permitindo a cada sujeito ser um aprendiz – ensinante diferente dos outros, pois cada circunstância concreta traz a possibilidade de reconstrução de sua identidade.
Ainda para o citado autor, este tipo de pesquisa que traz possibilidades de narrar, ouvir e escrever histórias de educandos e educadores, permite ao narrador olhar seu próprio percurso de vida por meio de um processo retrospectivo, o que possibilita a visibilidade das múltiplas redes de relações que vão (re)construindo a identidade dos sujeitos e, consequentemente, sua formação, num processo contínuo e de permanente reflexão.
Conforme relata Souza (2008: 174):
Mais do que essas experiências pessoais, acredito que outras narrativas da vida cotidiana trazem possibilidades de compreensão dos processos educativos transcendendo os entendimentos possíveis apenas pelo estudo, ou mesmo a observação, do cotidiano escolar, na medida em que os discursos por meio dos quais nos expressamos cotidianamente trazem muitos elementos do nosso modo de estar no mundo e de compreendê-lo, inclusive no que diz respeito aos saberes e valores, tecidos pela via do processo de escolarização ou não.
Para Siqueira (2009), a importância educacional dessa linha de trabalho reside no fato de que sustenta idéias teóricas sobre a natureza da vida humana e que podem aplicar-se à experiência educativa; também como uma experiência vivida.
Ainda segundo a autora, a educação vem a ser a construção e a reconstrução de histórias pessoais e sociais, tanto de professores quanto de alunos, tornando-se personagens nas histórias dos demais e em suas próprias histórias.
A autora ainda afirma que:
Na pesquisa narrativa, assim como é importante que o pesquisador escute primeiro a história do participante, também ele deve ouvir e relatar a sua própria história. Ao mesmo tempo em que ele é o pesquisador, pode ser também um participante de sua própria investigação, devendo dialogar, em alguma instância, consigo mesmo, tentando interpretar e compreender sua própria história. (SIQUEIRA, 2009: 110) A (auto)biografia deve ser um trabalho intencional do professor, ou seja, deve ser planejada e construída através de questões que permeiem sua prática e resultem em um produto final trazendo, desta forma, novas compreensões a respeito das práticas vivenciadas.
A pesquisa narrativa segundo Clandinin e Connelly (1995: 11), tem uma abrangente história intelectual, tanto dentro como fora da educação, pois:
[...] a razão principal para o uso da narrativa na investigação educativa é que nós humanos somos organismos contadores de histórias, organismos que individual e socialmente vivemos vidas relatadas. O estudo da narrativa, portanto, é o estudo da forma pelo qual experimentamos o mundo.
Então, com vistas ao processo narrativo e reflexivo das trajetórias de vida, ressaltando as aprendizagens construídas e os sentimentos vivenciados, deve-se chegar à tarefa mais importante: a construção de significados.
Segundo Souza (2006:136):
A pesquisa (auto)biográfica busca evidenciar e aprofundar representações sobre as experiências educativas e educacionais dos sujeitos, bem como potencializa entender diferentes mecanismos e processos históricos relativos à educação em seus diferentes tempos. Também permite adentrar num campo subjetivo e concreto, através do texto narrativo, das representações de professores sobre as relações ensino-aprendizagem, sobre a identidade profissional, os ciclos de vida e, por fim, busca entender os sujeitos e os sentidos e situações do\no contexto escolar.
Portanto, as narrativas permitem que se organize espontaneamente o conhecimento experiencial de seus autores e, por esta razão, tornam-se de grande relevância para os estudos que possuem como centro de interesse desvendar o conhecimento desse sujeito.
Para que a (auto)biografia possa favorecer a valorização dos processos de formação e prática profissional, é necessário conceituar então a palavra “narrar”. Narrar é uma palavra de origem latina, que vem do verbo narrare e significa expor, contar, relatar.
É necessário explicitar ainda que a narrativa perpassa por dois momentos que são imprescindíveis e inevitáveis: a sequenciação em que ocorrem os acontecimentos e o processo de valorização que deve permear esses conhecimentos.
Segundo Prado (2008), a narrativa ocorre sempre por meio de uma sequência de acontecimentos, sem que esta sequência seja exatamente cronológica, pois não há uma necessidade intrínseca de favorecer uma ordem temporal de apresentação dos fatos.
Sob forma de compreensão do que seja uma (auto)biografia, esta vem a ser o resultado das narrativas de nossa própria experiência, ocorrendo por meio da reconstrução e direcionado para uma dimensão reflexiva, retomada a partir de fatos significativos que nos vêm à lembrança, sempre na implicação de que o relatante se coloque como sujeito, auto- interrogando-se com o desejo de se compreender como elemento da própria história.
Então, ao narrar seu percurso, o profissional docente realiza um exercício sistemático de escrita da sua própria história, podendo rever, refletir e até mesmo mudar suas concepções acerca de algumas atitudes ocorridas no passado, trazendo a oportunidade para uma reflexão mais detalhada sobre sua vivência de atuação conjuntamente ao trabalho direcionado àquele educando que se diferencia em alguns aspectos, quando comparado ao desenvolvimento dos demais alunos.
Como forma de sustentação a esta afirmação, Bosi (1995: 55) relata que “na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho”.
Segundo Kenski (1996), em meio a um trabalho de rememoração, podemos obter indícios importantes sobre a nossa própria prática docente, subsidiando elementos que nos levem a um processo de compreensão dos vários aspectos que venham a solidificar nossa vida profissional docente.
Souza (2008: 202) nos mostra que:
O uso da (auto)biografia como prática metodológica incita a refletir sobre a própria metodologia com seus usos e vieses, assim como, sobre os limites e as possibilidades re-criadas no encontro do pesquisador com os sujeitos da pesquisa. Nesse processo, não somente os pesquisadores repensam suas experiências, mas também os pesquisadores que ao refletirem sobre as vivências de seus colaboradores rememoram as suas e, nesse sentido, também se reconstroem.
É este percurso de rememoração que nos permeia a possibilidade de refletir e indagar sobre nossa própria trajetória profissional e concluir quem somos e o que temos feito em nossa história de vida; sendo esta a pretensão neste trabalho.
Figura ilustrativa.
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