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Luiz Alberto Oliveira propõe a substituição da imagem-máquina, clássica, pela figuração da imagem da complexidade, que seria mais adequada para os sistemas orgânicos (cf. Oliveira, L.A., 2003).

Três rudimentos ajudam a pensar a complexidade: o princípio dialógico, o princípio da lógica recursiva, e o princípio holográfico (cf. Morin, 2001). O primeiro deles diz respeito à relação ordem/desordem, permite que os termos, ao mesmo tempo complementares e antagônicos, possam se manter no interior de uma mesma unidade. Essa relação decorre da segunda lei da termodinâmica, esboçada por Carnot. Ela introduz a idéia de degradação de energia. Indica que em sistemas isolados e fechados, a desordem aumenta em função do tempo.

Esse princípio sob a ótica de Boltzmann passa a ser denominado entropia e transforma-se em princípio de degradação da ordem.

Em sistemas fechados, as moléculas se chocam e geram calor, o que provoca um aumento no patamar de agitação das moléculas gerando ainda mais calor. Isso leva ao sistema a um aumento crescente de desordem, que se manifesta por meio de uma homogeneização e equilíbrio (cf. Morin, 2003). O segundo princípio da termodinâmica se relaciona, portanto, em termos de organização e desorganização. Pode-se inferir disso que uma ordem pode nascer de um processo que produz desordem, e que todos os sistemas fechados tendem para a entropia que também é desordem, homogeneidade, equilíbrio.

“A complexidade da relação ordem/desordem/organização surge quando se

verifica empiricamente que o fenômeno desordem é necessário em certas

condições, em certos casos, para a produção de fenômenos organizados, que

contribuem para o aumento da ordem” (cf. Morin 2001, p. 91/92).

Ordem e desordem mantêm entre si uma relação dialógica. A desordem está sempre presente como elemento perturbador da ordem. Por sua vez, a ordem imprime um certo grau de desorganização. Isso é válido para todos os sistemas abertos ou fechados, Universo, seres vivos e coisas inanimadas.

inversamente, que desordem exclui ordem. É preciso conceber uma relação

fundamentalmente complexa, ou seja, ao mesmo tempo complementar,

concorrente, antagonista e incerta entre estas duas noções. Assim a ordem e a

desordem são, sob um certo ângulo, não apenas distintas, mas em oposição

absoluta; sob o outro ângulo, apesar das distinções e oposições, as duas noções

são uma” (Morin, 2003, p.105/106).

Para Morin é necessário complexificar o quadro de observação da entropia, bem como, sua própria noção. Conceber a entropia não apenas como degradação ou desordem, mas como desorganização, introduzindo uma referência à organização. “Assim a noção de entropia

mesmo permanecendo cidadã, ultrapassa o domínio do termo dinâmico propriamente dito e diz

respeito à organização” (Morin, 2003, p.94). É preciso, ainda, considerar o sistema não mais

isoladamente, mas em um meio ambiente. Os seres vivos ao se alimentarem de matéria e energia, proveniente do ambiente, mantém a ordem interna a custa do aumento da desordem do meio, seja através da dissipação de calor, seja pelo retorno à natureza de material parcialmente processados pelo metabolismo.

“Isso significa em termos limitados, que toda regressão local de entropia (ou

neguentropia) aumenta a própria entropia do universo. Aqui vemos que toda

organização trabalha também de outra forma, para a dispersão. Sendo assim, o

segundo princípio da termodinâmica é muito mais que uma ferramenta

estatística e a entropia muito mais que uma grandeza mensurável” (Morin,

todo ser físico... faz parte da ordem e da organização, mesmo não sendo nem

ordem nem organização”(Morin, 2003, p.58).

Ao invés de se antepor à ordem e à organização, a desordem mantém com elas uma ligação primordial de complementaridade.“A partir daí, surge uma terceira e grande face da

desordem, ela própria inseparável de outras faces... Esta desordem, mesmo comportando em si a

desordem da agitação calorífera e a desordem do microtecido da physis, é uma desordem de

gênese de criação” (Morin, 2003, p.60).

A desordem não faz retroceder a ordem, ao contrário é preciso muita ordem para suportar a desordem. Sob esta perspectiva a matéria deixa de ser concebida como algo de inerte, de passivo. A vida sob a perspectiva da complexidade integra liberdade e criatividade, expulsas quando o parâmetro explicativo a toma como uma máquina artificial. A partir do princípio dialógico, a evolução não pode mais ser entendida como uma idéia simples, como progresso em ascensão. Ela deve ser encarada ao mesmo tempo como degradação e construção, dispersão e concentração.

O segundo princípio que nos ajuda a pensar a complexidade é o princípio holográfico. É assim denominado por representar a idéia de que o todo está na parte assim como a parte está no todo, tal qual uma imagem holográfica. Remete à unidade complexa; uma unidade global não elementar formada de diversas partes que se inter-relacionam. É homogênea quando considerada sob sua totalidade, é diversa e heterogênea quando considerada sob o ângulo de seus

constituintes (cf. Morin, 2003). “A idéia do holograma ultrapassa, quer o reducionismo que só vê

as partes, quer o holismo que só vê o todo” (Morin, 2001, p 109).

O princípio hologramático está incluso na lógica recursiva, que é o terceiro princípio esclarecedor da complexidade. Ele entende um processo como um fenômeno que é ao mesmo tempo causa e produto daquilo que o produziu. Nega a cadeia linear de causa e efeito, produtor-produto, infra-estrutura e superestrutura. Fundamenta a idéia de que a causalidade é necessariamente recursiva de modo que cada causa produz um efeito, que se torna causa novamente, e assim sucessivamente.

O todo se enriquece pelo conhecimento das partes, e estas se enriquecem com o reconhecimento do todo, que não deve ser pensado como a soma das partes. Ele é sempre mais do que essa soma. Cada vez que ocorre um acoplamento de estruturas, ocorre o surgimento de novas propriedades. Essa idéia sistêmica abre espaço para pensarmos com mais responsabilidade nossas intervenções sobre teia da vida, uma vez que cada oscilação, ou supressão de um ponto dela, faz com que o todo estabeleça um novo ponto de equilíbrio, que pode não ser o mais adequado para a manutenção de nossa própria espécie.

Indeterminação e complementaridade são outros dois aspectos de suma importância para o pensamento complexo, é a partir deles que se estabelece uma nova relação entre observador e objeto. Uma nova forma de conhecer é construída livre do tradicionalismo e do determinismo. Essa nova relação nasce do desenvolvimento da física quântica e em seu

do princípio de complementaridade por Niels Bohr. A noção de indeterminação afirma ser impossível estabelecer ao mesmo tempo a velocidade e a posição de uma partícula. Decorre dessa afirmativa que as imutáveis leis da natureza não se aplicam à dimensão microscópica (cf. Betto, 1997). Por sua vez, o princípio da complementaridade, desenvolvido por Bohr, estabelece que no interior do átomo, matéria ora se comporta como partícula ora como onda, interagindo sobre si mesma. Assim no mundo quântico a natureza é dual e dialógica. O reino da objetividade sofre um abalo mortal. Estabelece-se uma relação entre observador e observado, o que provoca o fim do dogma da neutralidade científica.

O universo criado a partir da disjunção sujeito/objeto é um universo objetivo privado de sujeito e meio ambiente, um objeto cognoscível, determinável e conseqüentemente manipulável. No pensamento complexo, sujeito e objeto mantêm uma relação dialógica O observador perturba o objeto, que por sua vez perturba a sua percepção.

Embora a regressão da objetividade possa parecer uma regressão do conhecimento, traz um estímulo ao conhecimento uma vez que as “respostas” são sempre parciais. Cada patamar de unificação recém alcançado converte-se imediatamente em base para outras problematizações futuras.

Desenvolvido por Morin, o pensamento complexo insurge, então, contra a visão cartesiana do mundo. Discute a falência das explicações unilaterais e totalizadoras e propõe uma nova articulação do conhecimento que supere a disciplinaridade fechada e as especializações.

interagem por estabelecerem entre si uma relação dialógica. A idéia de simplicidade contida nas explicações do mundo de cunho racionalista é substituída por uma idéia de complexidade em que os níveis de organização só podem ser explicados a partir da interação que estabelece com outros níveis de organização.