O que caracteriza o vivo, independente de sua estrutura exterior, é que ele possui uma forma de organização denominada autopoiética. Essa permite com que ele se produza de modo contínuo. Maturana e Varela caracterizam o sistema autopoiético como aquele “que levanta
seus próprios cordões, e se constitui como diferente por meio de sua própria dinâmica, de tal
maneira que ambas as coisas são inseparáveis” (Maturana &Varela, 2001, p.55). Não há
separação entre produtor e produto. O ser e o fazer de uma unidade autopoiética são inseparáveis, tudo que é produzido na rede é incorporado a ela.
altera estas mesmas e ou é fonte de novas interações. A célula, por meio das características da membrana celular, interagem com o ambiente em que estão imersas e trocam informações com ele. O exemplo típico é a bomba de sódio(Na) e potássio( K), que mantém a pressão osmótica da célula.
Podemos reconhecer uma unidade autopoiética por sua forma dinâmica molecular em constante reconstrução. “...a biologia, na sua obsessão redutora, descobriu a
célula, na célula o organito, no organito a molécula. Mas, na sua procura do simples, encontrou
o complexo da organização celular. Encontrou na base, não a molécula sozinha, não unicamente
a interação entre moléculas, mas a organização autônoma de um ser autônomo que produz pelo
trabalho de suas miríades de moléculas a mesma autonomia” (Morin, 2002, p.124).
A originalidade da autonomia do vivo reside em sua capacidade de autoproduzir-se e por proceder de uma autonomia genética, que se constitui a partir do patrimônio genético. Comporta, portanto, dois níveis inseparáveis todavia distintos: o da existência no interior de um ambiente, e um genético, que gera e regenera os indivíduos.
De acordo com Morin, o que diferencia máquinas naturais de máquinas artificiais é que estas últimas comportam repetições organizacionais, que lhes permite produzirem em série objetos, mas nunca se regeneram, “Não são reparadoras e reprodutoras de si mesmas:
Um organismo vivo, enquanto unidade autopoiética constituído de milhares de unidades autopoiéticas acopladas, está em constante processo de autoconstrução, e uma desestrutura que ocorra em qualquer ponto dessa rede de relações levará ao desequilíbrio da unidade podendo levar ao seu desaparecimento. Esses sistemas são autônomos e dependentes ao mesmo tempo. Autônomo por possuir uma organização que se organiza a si mesma. Dependente enquanto sistema aberto que troca com o meio em que está imerso.“...a vida, não é apenas a
célula constituída de moléculas, nem somente a árvore da evolução constituída em reinos,
ramos, ordens, classes, espécies. É também eco-organização” (Morin, 2002, p.34).
Um dos percussores da noção de informação como elemento responsável pelos fenômenos da auto-organização dos organismos viventes foi Heinz Von Foerster9. Em sua concepção, a informação é trabalhada por meio de processos recursivos, autônomos e auto- referentes, “a organização de si próprio e da ‘realidade’ se dá em círculos infinitos, numa
associação entre informação, a vida e o conhecimento (Castiel, 1999, p165).
Ao impor um olhar biológico sobre a informação, Von Foerster defenderá que é o próprio processo computacional que faz surgir a informação. Isso seria particularmente visível nos sistemas vivos que não computam informação a partir do meio, mas a partir de si próprios, da sua própria organização e de um modo totalmente circular, auto-referente e autônomo. “Para
perceber a informação ... não deveríamos olhar o mundo exterior, mas para dentro dos próprios
A auto-organização faz coincidir a organização de si próprio e da realidade, num processo circular infinito. Para a 2a cibernética, que assim entende o ser vivo, não só o conhecimento, mas também a informação, e a vida, fazem de toda computação viva ou cognitiva um processo auto-referente interno e autônomo. A informação entendida como comando, ordem e organização a partir de um programa de computador, passa a ser compreendida como vida, conhecimento, autonomia e auto-organização, que envolvem também um certo grau de desordem.
Atlan sugere que é o conjunto do aparelho celular que desempenha o papel de um programa, em oposição à proposta da biologia clássica, em sua formulação reducionista, que se prende a noção de que a estrutura de uma molécula isolada (no caso o ADN) seja o fator determinante da estrutura do organismo. Segundo o autor, foi a facilidade com que a seqüência de nucleotídios do ADN pôde ser redutível a uma seqüência binária é que motivou a assimilação falaciosa do genoma à um programa determinista clássico de computador (cf. Atlan & Bousquet, 1994). “Não é o fato de qualquer programa clássico de computador poder ser reduzido a uma
seqüência binária de 0 e 1 que toda seqüência binária seria programa de computador, existiria
uma outra possibilidade de metáfora” (Atlan & Bousquet, 1994, p.205). Esta metáfora implica
que o ADN seja visto enquanto dado. Assim a rede metabólica do aparelho celular desempenharia o papel de programa distribuído, tratando os dados em paralelo:
“Um tal processo dinâmico é comparável ao de uma rede de autômatos, ao de
uma máquina de estados, cujos trabalhos atuais em inteligência artificial
de um modo geral de auto-organização estrutural e funciona” (Atlan &
Bousquet, 1994, p. 207).
A vantagem da substituição de uma metáfora por outra seria por fim à idéia do “todo genético”, podendo passar à investigação dos processos epigenéticos e a análise dos mecanismos reguladores da expressão gênica, mas com o cuidado para que não se caia na mesma armadilha da metáfora do ADN programa , “pois é provável que a realidade se encontre entre as
duas metáforas...ou talvez noutro ponto qualquer” (Atlan & Bousquet, 1994, p. 207).
CAPÍTULO III