O problema da semântica tradicional é nos obrigar, para responder ao problema dos nomes vazios, a abandonar o princípio de singularidade e logo nossas intuição sobre a semântica para linguagens naturais. Acontece que nem Frege nem Russell estavam preocupados em salvar essas intuições. Como consequência temos a teoria das descrições, o descritivismo e a teoria fregeana da existência como quantificador. O fato é que essas teorias incorrem em inúmeras dificuldades justamente por terem como o fundamento o abandono das intuições gramaticais. Proponho fazer um breve passeio pelas dificuldades do descritivismo denunciadas por Kripke nos anos 60.
Apesar de que a teoria das descrições foi também criticada e posta em xeque, nota- damente por Keith Donnellan e por Strawson, foi o descritivismo que sofreu os ataques mais transformadores, primeiramente por Ruth Barcan Marcus e, posteriormente, por Saul Kripke. A teoria que emergiu das palestras de Kripke era a de que o significado de nomes próprios é simples e irredutivelmente o objeto que refere. Essa teoria foi chamada da teoria da referência direta dos nomes próprios, ou millianismo, a partir de Stuart Mill. O millianismo é a principal teoria no século XX que representa, contra o descritivismo russelliano, a validade do princípio da singularidade. Não obstante, após a revolução milliana, a atitude antidescritivista foi também estendida às categorias dos demonstrativos e dos indexais, notadamente por David Kaplan e John Perry, respectivamente.
O jogo começa a virar contra o descritivismo nos anos 60, com a crítica de Barcan Marcus (1961). O ponto de Marcus é simples: nomes próprios simplesmente não são semanticamente equivalente a descrições definidas. Nomos próprios se comportam antes como etiquetas, com as quais nos referimos diretamente aos seus portadores. A razão pela qual a teoria seria chamada de (neo) milliana é a visão de Mill sobre nomes próprios.
whenever they have properly any meaning the meaning resides not in what they denote, but in what they connote. The only names of objects which connote nothing are proper names; and these have, strictly speaking, no signification.
(. . . )
When we impose a proper name, we perform an operation in some degree analogous to what the robber intended in chalking the house. We put a mark, not indeed upon the object itself, but, so to speak, upon the idea of the object. A proper name is but an unmeaning mark which we connect in our minds with the idea of the object, in order that whenever the mark meets our eyes or occurs to our thoughts, we may think of that individual object.(MILL, 1882, 43–44)
Uma década mais tarde a tese ganhou de Kripke (1980) uma forma mais sofisticada em suas famosas conferências. Kripke, aliás, atribuia a tese descritivista tanto a Frege quanto a Russell. Kripke apresentou argumentos não somente para revelar inconsistên- cias no modelo de solução de Frege-Russell aos problemas da teoria da referência direta (como a teoria denotativa dos nomes próprios viria a ser chamada), mas também para advogar a reabilitação da teoria de Mill.
Kripke mostra como o ponto fraco da teoria Russelliana apontado por Barcan Marcus leva o descritivismo a três tipos de dificuldades, uma modal, uma epistêmica e uma semântica. Digamos que o conteúdo do termo “Kripke” seja a descrição definida “O autor de Naming and Necessity”. Segundo o descritivismo, afinal, um termo referente deverá de um ou de outro equivaler a uma ou mais descrições assim. Nesse caso, um falante que somente sabe que Kripke é um filósofo, mas que desconhece o fato de que ele é o autor das conferências, seria incapaz de referir singularmente a Kripke, uma vez que vários indivíduos satisfazem a descrição “filósofo”; ao mesmo tempo, um falante que pensasse ser Deleuze o palestrante das conferências se referiria a Kripke ao usar o nome “Deleuze”. Além dessa acusação semântica, conhecida como o problema da ignorância e o do erro, duas dificuldades aqui periféricas são apontadas se assumirmos
o descritivismo de Russell como uma doutrina que associa o mecanismo de referência de uma expressão ao seu significado: (1) se o significado de “Kripke” for “O autor de Naming and Necessity”, a asserção “Kripke é o autor de Naming and Necessity” seria analítico e a asserção “Kripke não é o autor de Naming and Necessity” seria uma contradição (problema epistêmico); e (2) no caso de Kripke jamais ter comparecido às palestras, e de o palestrante ter sido Gilles Deleuze disfarçado de Kripke, o nome “Kripke” se referiria não mais a Kripke, mas a Deleuze (problema modal).
Termos referentes não podem ser, portanto, sobre o que pensamos dos objetos, mas são sobre os objetos mesmos. Ou seja, eles podem se referir aos objetos sem o intermédio de qualquer fixação cognitiva do objeto. Assim Kripke apresenta a noção de que nomes próprios são designadores rígidos: espécies de ponteiros que designam um mesmo objeto (e não o modo como ele se apresenta a nós) em todos os mundos possíveis em que ele existe.
Aqui há dois pontos importantes para a revolução da referência. Em primeiro lugar, a tese de não é possível entender o mecanismo de referência de um nome próprio como um mecanismo de adequação entre a predicação de descrição definida (e nem mesmo de um cluster delas) e as qualidades de um objeto. Essa é a tese metafísica de Kripke, se quiser. Sua intuição é a de que o descritivismo não faz justiça às nossas intuições modais, ou seja, à nossa impressão de que podemos, ao referirmos ao um objeto, falar sobre como ele é, deve, e poderia ser. Em segundo lugar, a tese de que mesmo se o descritivismo capturasse nossas intuições metafísicas sobre modalidade de re, sua suposição de que a referência é uma forma de fixação mental e, portanto, um processo psicológico, simplesmente não é uma boa explicação de como usamos as palavras. Essa é a tese epistemológica, se quiser. Aqui o ponto de Kripke é de que tanto um falante mal informado quanto um completamente equivocado podem perfeitamente referir a um objeto através de seu nome próprio.
São duas, portanto, as críticas de Kripke ao descritivismo. Segundo à teoria descri- tivista, referir a um objeto envolve a fixação cognitiva de uma descrição definida que o discrimine entre os outros. A crítica epistemológica é decisiva e revela como a referência
a um objeto não pode envolver a fixação cognitiva de um conjunto de condições qualitati- vas, quaisquer que sejam elas, a serem satisfeitas pelo objeto a se referido. Ainda que o essencialismo qualitativo fosse verdadeiro, o fato de que existe referência em casos de equivoco e de informação incompleta mostra que a referência é um processo externo, e não interno, à mente da falante. A crítica metafísica, por sua vez, deve ser entendida como a rejeição de uma espécie de essencialismo qualitativo suposto na própria imagem de mediação do descritivismo. A tese de que a cada nome próprio corresponda uma descrição definida parece representar a adesão à teoria metafísica de que objetos são simplesmente um aglomerado, ou um fardo, de propriedades coinstanciadas. O problema de uma teoria assim é bem conhecido: o princípio da identidade dos indiscerníveis, se- gundo o qual todo indivíduo instancia uma conjunção única, exclusiva, de propriedades, é insustentável em uma metafísica que pretende acolher intuições modais, como a de Kripke e a dos revolucionários. Nada parece impedir, afinal, que dois objetos instanciem as mesmas propriedades.