Ao estudar as características da agricultura atual com o desenvolvimento do capitalismo, Ploeg (2008) diferencia, na estrutura produtiva, a agricultura camponesa e a agricultura capitalista. A camponesa representa “acima de tudo, processos dinâmicos que se desenvolvem ao longo do tempo – em muitas direções diferentes e, por vezes, diametralmente opostas” (p. 39) se comparada à capitalista, que Ploeg denomina de Império, ou seja: “um modelo específico que interligava atividades produtivas e distributivas já existentes, sendo estas, ao mesmo tempo, submetidas a um controle centralizado (a uma nova cúpula) e a novos princípios orientadores [...]” (p. 107. Grifos no original).
Reduzir a dependência, criar graus de autonomia, enfrentar as privações e resistir à marginalização são propostas de enfrentamento que o campesinato desenvolve diante das forças do ambiente hostil desenvolvido pelo Império que,
como modo de ordenamento tende a ser onipresente e universal: ele se estende por muitos domínios da vida social e da vida natural e introduz formas de controle que afetam praticamente todos os lugares. O Império penetra nos mais ínfimos detalhes do mundo social e do mundo natural (afetando até a forma como os ramos de amoras silvestres crescem). Através dele, uma grande variedade de ligações, processos e resultados são especificados de forma rígida e não negociável (PLOEG, 2008, p. 287).
No desenrolar desta disputa, o campesinato está enfrentando três tendências extremamente destrutivas advinda do império alimentar. “Em primeiro lugar, a base de recursos em que os modos camponeses de fazer agricultura se fundamentam é objeto de distorções consideráveis, se não mesmo de processos abruptos de desintegração” (PLOEG, 2008, p.286). Em segundo lugar, “devido à drenagem de recursos a que grandes segmentos da agricultura estão sujeitos, o Império tende a introduzir uma precariedade generalizada no setor agrícola” (p. 287). A drenagem de recursos obtida por um complexo sistema de sucção, desenvolvido pelo capital, se configura como uma modalidade de extração da renda fundiária como procurou explicar Luxemburg (1985). Em terceiro lugar, “através da apropriação de recursos – terras, material genético, água, saídas de mercado – o Império causa, freqüentemente, novos circuitos paralelos para a produção de mercadorias específicas” (PLOEG, 2008, p. 287). Somando-se às três tendências deve-se acrescer também, que, a estrutura produtiva
camponesa é considerada pela academia “prática sem representação teórica” e como “elas não podem ser adequadamente compreendidas, o que normalmente leva à conclusão de que não existem ou de que são, na melhor das hipóteses, uma anomalia irrelevante” (p.35). Essa “prática sem representação teórica” compõe o processo de invisibilização do campesinato que será tratado mais adiante.
No que concerne ao relacionamento com o mercado, Ploeg (2008) constata que, para a agricultura camponesa, o mercado não é um princípio orientador, mas “essencialmente uma saída – o lugar onde os produtos fabricados são vendidos, quer isso seja vantajoso ou não” (p.137. Grifos no original). Isso justifica a sua participação precária no mercado pelo fato dela não poder ser compreendida e conceituada com as mesmas dimensões da agricultura capitalista. A isso Ploeg explica que
os camponeses formulam e reformulam os processos de produção agrícola em realidades que contrastam significativamente com aquelas criadas por agricultores empresariais e capitalistas. Finalmente, eles moldam e desenvolvem seus recursos, tanto materiais como sociais, de modos distintos (2008, p. 37).
Para compreender o relacionamento com o Estado, Ploeg (2008, p. 240- 242) explica que a agricultura camponesa é submetida às redes, interligações e complexos agroindustriais – o Império alimentar – cuja característica principal consiste na capacidade para organizar, de forma estratégica, os recursos disponíveis compreendendo o Estado como expressão do capital. Advém dessa constatação o paradoxo da agricultura no terceiro mundo, assim compreendida por Ploeg:
Esta situação evidencia um dos principais paradoxos da agricultura do terceiro mundo: existe potencial para uma grande riqueza, contudo os camponeses e agricultores locais não têm acesso a ela. Essa riqueza está fora de seu alcance devido à pobreza (e, conseqüentemente, à falta de meios) em que vivem encurralados. E, por isso, a produção de arroz só pode ser organizada de forma efetiva e a riqueza correspondente gerada através da construção de um novo império alimentar, centrado na disponibilidade de capital (PLOEG, 2008, p. 90).
Diante desse império que se estrutura como “vampiro e parasita” por digerir, “os recursos locais até a exaustão” (p. 91. Grifos no original) e transportar a riqueza obtida para outros lugares, as comunidades camponesas vão encontrando formas e criando outras, com as quais se recriam entre a resistência e a submissão. Ações que a resistência camponesa contrapõe ao Império, descritas assim por Ploeg (2008, p. 101- 105) em três abordagens: a) a cooperação representa uma “linha de defesa” necessária,
apesar de nem sempre efetiva; b) a manutenção da memória coletiva de luta; c) a necessária construção de um poder de oposição. São ações de enfrentamento que o campesinato empreende ao constatar que “a ciência tem ocultado a forma como os camponeses atuam no mundo moderno. Isto significa que o fenômeno camponês tem sido relegado para lugares remotos, escondidos na história e na periferia” (p. 33).
Resistência camponesa contra o processo de invisibilização que vem sendo construído para convencer a sociedade de que, a função e o papel do camponês, no mundo moderno tecnificado e mercantilizado, são desnecessárias. O convencimento do contrário será resultado da batalha das idéias da qual trata Ploeg:
Assim, temos uma primeira arena que se localiza no mundo real e que será, em vários aspectos, decisiva para nossos futuros. É uma arena em que o Império e o campesinato, onde quer que se localizem, se envolvem em contradições e conflitos multidimensionais e multifacetados. Existe, então, uma segunda arena, a qual se cruza com a primeira – a da ciência, do conhecimento, da teoria e, de forma mais geral, a batalha das idéias. Nessa arena existem, basicamente, duas abordagens contrastantes. Uma delas já foi referida – ou seja, a abordagem (ou, talvez, uma grande variedade de abordagens de alguma forma interligadas) que tornou o campesinato invisível e que não é capaz de conceber um mundo onde os camponeses sejam “possíveis”. Em oposição a essa abordagem dominante, existe uma abordagem que está sendo desenvolvida em escala global por muitos pesquisadores; essa nova abordagem defende que a compreensão adequada da ascensão e expansão do que são, essencialmente, os mercados globais é crucial para os estudos camponeses pós-modernos (PLOEG, 2008, p 6-7).
As contradições e conflitos multidimensionais e multifacetados entre o capital e o campesinato vão se desdobrando ao longo da historia por meio da batalha das idéias, por meio das quais, se defrontam a abordagem dominante como ressaltou Ploeg no texto acima e a abordagem opositiva do campesinato por meio do seu discurso.
Por meio do seu discurso o campesinato interpela a sociedade moderna através de sua ideologia como condição necessária para permanecer com sua identidade camponesa, produzindo e participando do mercado, com produtos do seu trabalho e do seu pensamento. É indispensável que ele torne-se sujeito do seu discurso e combata o processo de invisibilidade construída, que busca excluí-lo social e politicamente. É o papel crítico do camponês diante da sociedade capitalista afirmando-se como alternativa ao sistema que prioriza o econômico em detrimento do político. Desta forma, como o campesinato existiu antes do sistema capitalista e, hoje, sabe encontrar maneiras de sustentar sua existência, é dedutível que, muito provavelmente, manterá sua existência lutando em outro sistema.