4.1 P SYKIATRIEN I N ORGE
4.2.3 Produktivitetsmåling i psykiatriske sykehus
Mazoyer e Roudart escreveram um compêndio sobre a Historia das Agriculturas do Mundo do neolítico à crise contemporânea na qual analisam a herança agrária da humanidade convencidos de que “as camponesas e camponeses dos quatro cantos do mundo [...], detêm o conhecimento original e íntimo das suas próprias práticas [...]” (1998, p. 9). Por se tratar de uma obra que abrange um período histórico gigantesco suas analises estão organizadas através das quatro revoluções agrícolas: revolução agrícola antiga; a revolução agrícola na Idade Média; a primeira revolução dos tempos modernos entre os séculos XVI ao XIX e a segunda revolução agrícola dos tempos modernos a partir do século XIX até os dias atuais.
Nas quatro revoluções agrícolas, duas características se destacam pela importância e pelo desenvolvimento da evolução da agricultura do mundo: a produção de alimentos e a evolução dos equipamentos para trabalhar a terra. Na teoria das transformações históricas são analisadas inúmeras categorias de unidades de produção em diferentes tipos de terrenos formando um conjunto composto por terra, água, grãos e animais, em uma “teoria que é necessária para apreender a agricultura na sua complexidade, na sua diversidade e no seu movimento” (MAZOYER e ROUDART, 1998, p. 13).
Dentro dessa teoria os estudos das revoluções agrícolas são compreendidos como as alterações no sistema agrário transformando-o num objeto real de conhecimento como explicam os pesquisadores por entenderem, de um lado,
a agricultura tal qual ela é efetivamente praticada [...] constituindo um
objeto real de conhecimento; e, por outro lado, aquilo que o observador
pensa sobre esse objeto real, o que diz sobre ele, como um conjunto de conhecimentos abstratos, que podem ser metodicamente elaborados para constituírem um verdadeiro objeto concebido, ou objeto teórico de
conhecimento e de reflexão (MAZOYER e ROUDART, 1998, p. 13. Grifos
no original.).
Os sistemas agrários foram sendo alterados constituindo revoluções agrícolas ao se defrontarem com os problemas gerados por causa do aumento populacional. A explosão demográfica mundial se tornou possível somente através de um imenso aumento da capacidade de produção agrícola mundial. Por isso a revolução agrícola antiga “deu nascimento a sistemas de cerealicultura pluvial de pousio, com
pastagem e criação de gado associadas” até a produção de “sistemas motorizados, mecanizados, fertilizados com a ajuda de adubos minerais e especializados de hoje” (p.
15. Grifos no original).
O aparecimento da agricultura e da criação de gado que, constituíram parcela importante da revolução agrícola neolítica, aconteceram devido aos esforços da criação humana, que fez surgir, paulatinamente, o ser agricultor. O Homo sapiens era caçador e coletador numa economia extrativista que caracteriza o modo de produção primitivo como explica Mazoyer e Roudart:
Quando começou a praticar a agricultura e a criação de gado, não encontrou na natureza nenhuma espécie previamente domesticada, mas domesticou-as em grande número. Também não dispunha de instrumentos anatômicos adaptados ao trabalho agrícola, mas fabricou-os de todas as espécies e cada vez mais poderosos. Enfim, nenhum saber inato ou revelado lhe ditava a arte e o modo de praticar a agricultura, graças ao que ele tenha podido afinar sistemas de cultura e de criação de gado extraordinariamente variados, adaptados aos diferentes meios do planeta e variando de acordo com as suas necessidades e os seus instrumentos (1998, p. 39).
Os instrumentos e as técnicas agrícolas foram se desenvolvendo à medida que aumentava a necessidade de suprimento de grãos e carne. A associação da cerealicultura e da criação de gado, a ocupação de terras aráveis, a rotação necessária para que o solo recuperasse a fertilidade, foram se impondo, exigindo que o agricultor superasse seus conhecimentos. As transformações foram se sucedendo, como por exemplo, as carroças substituindo o transporte feito no lombo dos animais, o arado de ferro substituindo o pau de cavar, permitiu aumentar a produtividade:
A charrua apareceu, de maneira independente, em vários lugares da Europa, no início da era cristã [...]. A charrua é um instrumento complexo composto de várias ferramentas: relha (vertical) que corta o solo verticalmente, a relha (horizontal), triangular e dissimétrica, que corta o solo horizontalmente; a relha vertical e a relha horizontal são dispostas de tal maneira que as duas cortam uma tira de terra contínua, de secção retangular, à medida que o engenho avança. A aiveca, ou orelha, prolonga a relha horizontal e vira a tira da terra assim cortada para o rego aberto à passagem precedente (MAZOYER e ROUDART, 1998, p. 256).
Essas inovações acrescidas de outras como a gadanha, o ancinho, a forquilha, a carroça de quadro rodas com taipas para o transporte no campo, a grade e tantos outros, constituem um novo sistema de equipamentos agrícolas com o quais houve aumento do rebanho e das terras aráveis. O crescimento do rebanho aumentou as disponibilidades em estrumação orgânica com a qual se deu a transferência de fertilidade para o solo e a conseqüente majoração da produtividade agrícola. Os
estábulos de estrume serviram para recolher as dejeções animais, as quais misturadas com o feno e com as folhagens secas foram armazenadas para uso posterior. Esse é o suporte técnico que proporcionará a revolução agrícola da Idade Média, que, com essas inovações, a rotação bienal será substituída pela rotação trienal. Assim explica Mazoyer e Roudart:
O crescimento das disponibilidades em estrume incita por outro lado a substituir a rotação bienal pela rotação trienal. Com efeito, grande contributo de estrume no pousio traduz-se primeiramente por um forte aumento do rendimento do cereal cultivado justamente após esse pousio. Mas o estrume de estábulo permite uma estrumação de efeito prolongado, pois é composto de matérias orgânicas cuja mineralização, em clima temperado frio, está longe de estar acabado no fim de um ano. [...]. A rotação trienal torna-se assim não só possível, mas desejável, uma vez que o contributo de estrume é bastante importante para que o resto de fertilidade permita cultivar com vantagem um segundo cereal. Em rotação trienal, o cereal de Inverno, que dura 9 meses, é seguido de um pequeno pousio de 8 meses, ao qual sucede um cereal de Primavera de 4 meses; enfim um grande pousio de 15 meses completa a rotação [...](1998, p. 262-265).
Esse tipo de praticar a agricultura dominou quase todo o território europeu durante toda a Idade Média. A agricultura desenvolvida no modo de produção feudal era da rotação trienal: a cultura dos três campos. Tão importante essa organização para a produção agrícola que ela se transformou em lei imposta para as aldeias feudais: a lei do afolhamento como explicam os autores: Kautsky (1980, p. 48-49); Polanyi (2000, p. 51-61) e Oliveira (1986, p. 14-18) entre outros. Se houve no passado algum exemplo de modelo de desenvolvimento agrícola sustentável com toda certeza esse modelo do afolhamento deve ser considerado. Todavia, essa lógica foi rompida ao surgir o sistema agrícola “sem pousio”. Eles (os pousios) “foram substituídos quer por pradarias artificiais de gramíneas como a ervilhaca, ou de leguminosas forrageiras como o trevo ou o sanfeno, quer por plantas sachadas forrageiras, como o nabo” (MAZOYER e ROUDART 1998, p. 303). Assim a historia das agriculturas do mundo conhece outra revolução agrícola:
Do século XVI-XIX, a maior parte das regiões da Europa foram o teatro de uma nova revolução agrícola, a primeira revolução agrícola dos Tempos
Modernos, assim chamada pelo fato de se ter desenvolvido em estreita
ligação com a primeira revolução industrial. [...], essa nova revolução agrícola apenas pôde progredir na medida que o desenvolvimento industrial, comercial e urbano permitia absorver o excedente agrícola comercializável, muito importante, que ela produzia. Indiretamente, portanto, o desenvolvimento da nova agricultura foi também condicionado pela supressão dos obstáculos ao desenvolvimento da indústria, como os monopólios feudais e corporativistas, e pela supressão dos obstáculos ao desenvolvimento do comércio como as alfândegas provinciais e as outorgas
(direitos de barreiras ou de consumo) locais (MAZOYER e ROUDART 1998, p. 303-304. Grifos no original.).
É certo que com o aumento das criações de gado herbívoro aumentou a oferta dos produtos animais, da força de tração e do estrume o que duplicou, no mínimo, a produção agrícola. Surge então um novo modo de renovação da fertilidade, mais eficaz do que o antigo, advindo de inovações introduzidas na agricultura como a fixação do azoto do ar através das leguminosas que foram espalhadas, na ocupação do solo dos pousios. O aumento da fertilidade do solo pelo adubo verde, a biomassa produzida pelo gado e enterrada diretamente no solo e o aumento significativo do teor do solo em húmus. Desta forma, as novas rotações sem pousio majoraram o uso do solo a uma taxa de quase 90% como esclarece Mazoyer e Roudart (1998, p. 313):
Enquanto na antiga rotação trienal com pousio as culturas ocupavam o solo apenas 13 meses em 36, ou seja, uma taxa de ocupação de 36 por cento, na nova rotação, o solo é ocupado 32 meses (15+9+4+4) em 36, ou seja, com uma taxa de 89 por cento.
A evolução tecnológica avançou produzindo novos meios de transportes e novos materiais mecânicos de tração animal e diversas ferramentas agrícolas sofisticadas, as quais proporcionaram aumentos significativos na produção agrícola. Assim a segunda revolução agrícola dos Tempos Modernos foi a revolução da motorização, da mecanização, fertilização mineral, seleção e especialização como explicam Mazoyer e Roudart (1998):
A segunda revolução agrícola prolongou no século XX essa primeira fase da mecanização, mas assentou por sua parte no desenvolvimento de novos meios de produção agrícola saídos da segunda revolução industrial: a
motorização (motores de explosão ou elétricos, tratores e engenhos
automotorizados cada vez mais potentes); a grande mecanização (máquinas cada vez mais complexas e rentáveis); e a quimiquização (adubos minerais e produtos de tratamento). Ele assentou igualmente na seleção de variedades de plantas e de raças de animais domésticos inteiramente adaptados a esse novos meios de produção industriais e capazes de os rentabilizar. Paralelamente, a motorização dos transportes por meio de caminhões, caminhos de ferro, barcos e aviões tirou do isolamento e um modo mais completo as explorações e as regiões agrícolas, o que lhes permitiu aprovisionar-se cada vez mais amplamente em adubo de origem longínqua e também escoar maciçamente e para muito longe os seus próprios produtos (p. 365-366. Grifos no original.).
A especialização é a marca mais evidente dessa revolução agrícola que se desenvolve pelo abandono da diversidade na produção vegetal e animal para se especializar na produção agrícola exclusivamente mercantil. No entender de Mazoyer e Roudart ela
Constituiu-se um vasto sistema agrário multirregional composto de subsistemas regionais especializados complementares (regiões de grandes culturas, régios de ervagens e de criação de gado para leite e carne, regiões vitícolas, regiões de leguminosas, frutíferas, etc.). Esse sistema intercala-se entre um conjunto de indústrias extrativas, mecânicas e químicas situadas a montante da produção agrícola e que fornecem os meios de produção, e um conjunto de indústrias e atividades a jusante que armazenam, transformam e comercializam os seus produtos (MAZOYER e ROUDART 1998, p. 366).
Continuar estudando, da forma como fizeram Mazoyer e Roudart, a história das agriculturas do mundo é um desafio aos pesquisadores que se interessam pela questão agrária, por três razões: a primeira advém da necessidade em aumentar o conhecimento de toda a riqueza da herança agrária da humanidade; a segunda advém da necessária relativização do erro em “conceber o desenvolvimento agrícola como pura e simples substituição dessas agriculturas pela única que tem a reputação de moderna, a agricultura motorizada e mecanizada” (MAZOYER e ROUDART 1998, p. 12) e, a terceira, advém da importância de procurar resposta para o seguinte questionamento: quais são as possíveis relações entre o campesinato e o capital?
O método de análise que estamos propondo e que é impulsionado pelo debate paradigmático pode contribuir com o avanço dessas discussões. Os questionamentos advindos da questão agrária atual desafiam a pesquisa científica de várias áreas do saber, ao defrontar o agronegócio interpretado como modelo de produção moderna e o campesinato com sua forma de praticar a agricultura visando garantir a soberania alimentar com o desenvolvimento dos valores da cultura camponesa e na preservação dos recursos renováveis. Diante desse cenário, esse nosso método visa compreender como acontece entre o campesinato e o capital os processos de integração- subalternidade-e/ou resistência, procurando compreender as diversas interpretações que, atualmente, ainda prevêem as possíveis sucumbência do campesinato, ou a metamorfose do camponês em agricultor familiar e, também o processo de recampesinização.