recolhidas em quantidade suficiente, por forma a permitir a reserva de excedente. Deste modo, foi possível complementar a identificação dos pigmentos e das cargas, iniciada com os dois métodos anteriormente identificados, com o recurso à espectroscopia de absorção de infravermelho. Dada a reduzida dimensão dos cortes estratigráficos, por um lado, e, por outro, devido ao facto de uma boa parte dos mesmos ter sido recolhida após a conclusão do tratamento de conservação, o que implica a aplicação de uma camada de verniz acrílico de protecção sobre toda a superfície, não foi possível separar mecanicamente os componentes de cada camada, pelo que os espectros resultantes se referem à totalidade da amostra.
Os espectros, com acumulação de 100 varrimentos, foram obtidos num espectrómetro da marca Mattson Sattelite, entre 4000 e 450 cm-1, para pastilhas feitas com KBr e têm uma resolução de 2 cm-1.
No estudo de camadas cromáticas, esta técnica tem sido utilizada principalmente na identificação de aglutinantes e também de corantes (Derrick, Stulik e Landry 1999; Kirby, Spring e Higgit 2005). Por essa razão, os espectros resultantes foram ainda analisados na perspectiva de identificar o tipo de substâncias filmogéneas presentes, não obstante as
esperadas interferências causadas, não só pelos vernizes usados nas intervenções efectuadas na Universidade Católica, como por outras substâncias que se sabe terem sido aplicadas em situações anteriores, nomeadamente sobre as esculturas de Santa Maria de Lamas, e que terão impregnado toda a estrutura da policromia. A espectroscopia de absorção de infravermelho também se aplica, no entanto, à identificação de pigmentos e cargas que contenham aniões inorgânicos que absorvam na região de infravermelho compreendida no intervalo 4000 e 450 cm-1, designadamente sulfatos, carbonatos, silicatos, hidróxidos, acetatos e cromatos (Derrick, Stulik e Landry 1999).
A limitação desta técnica reside no facto de estes espectros serem mais difíceis de interpretar, comparativamente com os espectros de fluorescência de raios X. Isso deve-se a razões como a sobreposição de bandas de absorção e a reduzida resolução espectral, o que está na origem do facto de os espectros terem picos muito mais largos (Cruz 2000), pelo que tomam a designação de bandas. Por essa razão, uma vez que nem todas as bandas são atribuíveis a um determinado composto e que nem todos os pigmentos podem ser identificados, os espectros de FTIR foram especialmente úteis neste estudo para a identificação das cargas utilizadas nas camadas de policromia, cuja distinção não pôde ser feita pelos métodos utilizados anteriormente. No que respeita a identificação dos aglutinantes, além das dificuldades já referidas, é necessário salientar que esta técnica não permite, por exemplo, diferenciar os vários tipos de óleos secativos existentes, uma vez que em todos eles estão presentes as mesmas funções químicas, ou seja, as duplas ligações cis e a função éster (Araújo 2005). Por outro lado, ao comparar os intervalos de números de onda das bandas características do ovo e da cola animal que podem ser consultados na bibliografia (Derrick, Stulik e Landry 1999), conclui-se que se podem dar várias sobreposições, o que dificulta a análise dos resultados.
A interpretação fez-se com base na comparação dos espectros obtidos com padrões conhecidos, a partir de amostras preparadas propositadamente para o efeito. O objectivo foi o de procurar garantir uma maior precisão ao estabelecer comparações entre espectros obtidos com o mesmo equipamento e em condições de análise constantes. Para a análise de cargas foram preparados um padrão de cré e dois padrões de gesso. Os dois padrões de gesso foram preparados a partir do chamado gesso estuque disponível no mercado, que é uma mistura da forma hemiidratada com anidrite solúvel (Gesso in Infopédia [em linha]). Não foi possível obter amostras de anidrite e gesso hemiidratado em separado, pelo que se
usou a mistura comercial para constituir o padrão do chamado gesso grosso. Para a preparação da forma diidratada, mergulhou-se uma pequena quantidade de gesso estuque em água durante duas semanas, mexendo-se regularmente. Embora num dos estudos consultados a anidrite tenha sido identificada como único constituinte do chamado gesso grosso (Cardoso 2006), existem referências à dificuldade que no passado terá existido em controlar a temperatura dos fornos de calcinação, sendo provável que o gesso grosso tenha sido frequentemente constituído pela mesma mistura dos actuais componentes do gesso comercial, em proporções variáveis (Perego 2005, 598-601).
Os espectros de FTIR obtidos a partir de amostras de policromia recolhidas para cada uma das esculturas em estudo dizem respeito à totalidade da amostra. A identificação das substâncias filmogéneas que poderão ter sido utilizadas para as preparações, aplicação de folha metálica, camadas cromáticas e vernizes limitou-se à comparação com os espectros de padrões preparados para o efeito. Esses padrões foram preparados a partir de amostras de cola animal, óleo de linhaça cozido, ovo de galinha inteiro e gema e clara em separado, embora, segundo os tratados da época, seja menos provável a utilização de clara de ovo isoladamente, referida por Francisco Pacheco como verniz para aplicação sobre a policromia dos olhos (2001, 502).
Como forma de assegurar a validade desses padrões fez-se a sua comparação com padrões de referência existentes na bibliografia e em bases de espectros de sites dedicados à técnica. Em todo o caso, e face aos condicionalismos que acabam de ser expostos, a análise dos aglutinantes foi limitada a uma caracterização genérica.
Uma das técnicas mais adequadas para a identificação de aglutinantes seria a cromatografia em fase gasosa associada à espectrometria de massa, por permitir uma identificação segura dos componentes e não necessitar de recorrer à comparação com padrões (Bersani et al. 2007; Correia et al. 2008).