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3. METODE

3.3 V ALIDITET OG RELIABILITET

Têm-se aqui duas etapas fundamentais, os períodos passados em Beni-Abbès e Tamanrasset. Em correspondência com seu amigo Henry de Catries (FOUCAULD apud ANNIE DE JESUS, 2004, p. 54) que conhecia muito bem a Argélia saariana conversaram sobre sua instalação no oásis de Beni-Abbès. Segundo Lepetit (1982), o objetivo estratégico e intencional de Foucauld seria um dia penetrar o Marrocos uma vez que Beni-Abbès correspondia ao povoamento mais próximo da fronteira marroquina, e dali poderia obter notícias recentes de lá.

De todos os modos, o que caracteriza a vida apostólica do Irmão Carlos em Beni Abbés? Este tem claro e permanece fiel à maneira de se viver como Jesus viveu em Nazaré; adaptando-a às necessidades do local onde se encontra; sendo fiel à dimensão contemplativa no mundo, assumindo o cotidiano do trabalho e das condições de vida do povo com quem compartilha as esperanças e os desafios. Para ajudar-lhe a esse propósito, a experiência da vida monástica anterior constituiu para o Irmão Carlos um suporte para a organização do seu dia, marcado pela oração, trabalho e acolhida onde cada pessoa deve encontrar nele um irmão universal.

Foto 3 - Charles de Foucauld com visitas na Fraternidade de Beni Abbés. Fonte: BARRAT, Denise; BARRAT, Robert (1961).

Entretanto este período em Beni Abbés destacou-se por especial atenção aos mais pobres, entre estes os escravos, e pelos quais Foucauld incomodou autoridades civis, militares e autoridades eclesiásticas francesas. A situação era de desolação, mas a tensão política existente na colônia argelina impedia, em parte, os franceses colonizadores a “meter a mão” neste aspecto opressor da sociedade da Argélia.

Desde o início a colonização teve caráter “pacifista”, com exceção de alguns levantes; inclusive viu-se neste trabalho que o próprio Foucauld, ainda militar, participou desse apaziguamento armado.

A situação era delicada, ele mesmo comprou a liberdade de alguns escravos, mas sobretudo apesar de encontrar-se submerso no dilema do colonialismo francês e de compactuar com ele devido à mentalidade da época, em nenhum momento tratou seus amigos e companheiros argelinos de modo inferior aos franceses. Ao contrário, exigia para estes os mesmos direitos resguardados aos de sua nacionalidade.

Baseando-se no profeta Isaías (56, 10), declarou: “[...] e não temos o direito de ser “sentinelas que dormem, cães que não ladram e pastores indiferentes” (BARRAT, Denise; BARRAT, Robert, 1961, p. 128). Ir ao deserto significou para Foucauld ir ao encontro dos pobres e abandonados, tratava-se de um sacerdócio para além das fronteiras; por assim dizê- lo, pode-se chamá-lo “o profeta do Saara”, que resumiu seu apostalado às palavras de Jesus:

“o que fizerdes a um desses pequeninos, é a mim que o fazeis” (BARRAT, Denise; BARRAT, Robert, 1961, p. 128).

Tamanrasset corresponde a uma nova etapa de vida para o Irmão Carlos em todos os sentidos. Sente-se impelido por seu amigo, o oficial Laperrine, a adentrar o coração do Saara, na região do Hoggar, na terra dos Tuaregs. Após meses de viagem como nômade numa expedição militar, decide-se instalar-se em Tamanrasset. Isto significou uma atitude de abandono à “comodidade” de Beni Abbés, à rotina dos dias e dos amigos, e a aventurar-se ainda mais para o isolamento da região, ao perigo dos levantes armados, mas, sobretudo, sentia nisso a vontade de Deus:

Escolhi Tamanrasset, povoado de vinte lares, em plena montanha, no coração do Hoggar e dos Dag Rali, sua principal tribo, afastado de todos os centros importantes. Não me parace que tenha havido aí guarnição de tropas, nem telégrafo, nem europeu, e que, a longo prazo, não haverá missão. Escolhi esse lugar abandonado e nele me fixei, suplicando a Jesus que abençoe essa instituição onde quero, durante minha vida, tornar por único exemplo a vida Dele em Nazaré. (ANNIE DE JESUS, 2004, p. 75)

Este item tem uma especial importância, pois é um exemplo para os mais diversos grupos de discípulos e discípulas de Irmão Carlos, que igualmente fizeram e continuam fazendo a opção de irem em direção aos mais distantes e abandonados rincões da humanidade: entre os pigmeus na África; no leprosário no Líbano; os ciganos na Europa; o circo na Itália; os índios Tapirapé no norte do Mato Grosso no Brasil; nas favelas e bairros operários das cidades industrializadas.

Nazaré sempre estará relacionada ao último lugar em seu aspecto social, material e espiritual, compreendida nas mais diferentes formas de sociedades, afastada dos centros de poder. Seu significado para aqueles que pertencem à família espiritual de Charles de Foucauld incide sobre o fato de ir ao encontro dos excluídos como portadores da novidade da fraternidade, pela partilha e abertura de suas vidas ao projeto de Deus7, na luta pela vida.

Dito por um Irmãozinho de Jesus, francês, que há muitos anos mora no Chile: “À medida que avançamos na vida as coisas se simplificam”. Esta frase pode-se aplicar à fase do Irmão Carlos durante os seus anos em Tamanrasset. Quiçá não fosse mais tão voluntarioso nas horas de adoração aos pés do Santíssimo quanto o fora em Nazaré; a concretude e a

7 “Quando o povo da Bíblia comparecia diante de Javé para celebrar a sua presença, eles narravam a história,

lembravam os fatos que tinham provocado a mudança da opressão para a liberdade. Assim, possibilitava-se o acesso do povo à ação criadora, símbolo da transformação e da mudança, expressa no novo projeto de vida igualitária.” (MESTERS, 1983, p. 33-34).

simplicidade como sinal de amadurecimento humano lhe tomam conta e isto lhe é percebido desde sua vida interior até nas vestimentas.